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Dois “Falstaff” em São Paulo (14/4/2014)
Por Jorge Coli

São Paulo teve duas apresentações do Falstaff, de Verdi, em menos de cinco meses, uma em dezembro do ano passado no Theatro São Pedro, outra estreando agora, no Theatro Municipal.

A comparação entre ambas é irresistível, embora à primeira vista ela não pareça muito pertinente, já que as diferenças são consideráveis segundo a natureza e limites de cada teatro: o São Pedro, cujo orçamento é muito menor do que o Municipal, é também fisicamente mais reduzido, e os recursos de ambos não permitem que os espetáculos apresentados em cada um sejam medidos pelos mesmos parâmetros. Diga-se, en passant, que a Secretaria de Cultura do Estado deveria assumir de fato um investimento poderoso no simpático teatro da Barra Funda, para dar a ele, na sua escala, um papel ainda mais preponderante do que já tem.

Ocorre, no entanto, que há trunfos independentes da escala estabelecida apenas pelos recursos. E nem sempre o grande orçamento é garantia de verdadeira qualidade.

Mas tenho a dizer logo que o Falstaff apresentado no último sábado (dia 12) no Municipal foi digno das cenas internacionais. Ele se pauta pelo alto nível que vem caracterizando as recentes produções.

Vamos à comparação.


Ambrogio Maestri, ao centro, como Falstaff no Municipal [fotos: Desirée Furoni/divulgação]

Primeiro, em sua concepção de um Falstaff punk, a versão do Municipal dava uma impressão de déjà vu, pois as alusões a essa subcultura hardcore já estavam no espetáculo do São Pedro. Essa confluência de escolhas conforta a ideia de que as montagens das óperas em nossos dias, com seu culto do anacronismo, caem muitas vezes no lugar comum. Instala-se uma nova convenção, um novo academismo. E, numa coincidência como estas, aquilo que tinha sabor de novidade no Theatro São Pedro surge com gosto requentado no Municipal.

O cenário prolongava a própria sala do teatro, reproduzindo com muita exatidão alguns elementos decorativos, sobretudo os parapeitos dos balcões. Mas era um dispositivo único, o que eliminou a variação de ambientes, excelentemente feita no São Pedro, e instaurou certa monotonia visual.

A diferença maior se deu, sobretudo, na direção cênica. Ambos os diretores contratados são italianos, com atuação em teatros internacionais. Stefano Vizioli foi o responsável pela realização no Theatro São Pedro, e Davide Livermore no Municipal.

Vizioli multiplicou ótimos achados cênicos, que inseriu no desenrolar de um jogo de atores regido por precisão impecável, sem que isso se transformasse em camisa de força, permitindo a espontaneidade de uma ação perfeitamente enquadrada. Tudo era pensado em termos rigorosos, levando em conta tanto a música quanto o libreto. A conseqüência foi o desencadeamento da energia mais hilariante que se possa imaginar.

Livermore, ao contrário, preferiu sublinhar movimentos e gestos ao extremo caricatural. A impressão deixada por tal escolha era a de um humor circense, ou dos exageros insistentes próprios ao teatro infantil: humor palhaçada, sem muito rigor. Isso resultou em grande agitação no grande palco do municipal, agitação nem sempre engraçada, e nem sempre atendendo às exigências da obra.

Resta a distribuição. A grande expectativa era Ambrogio Maestri, proclamado o maior intérprete de Falstaff em nossos dias. De fato, ele é bem mais do que isso: um formidável barítono, com voz de beleza fora do comum, além de musicalidade instintiva e nuançada.  Irradiação, carisma, presença e autêntica nobreza fazem dele também o intérprete ideal para muitos outros papéis. Foi um regalo ouvi-lo. Impôs-se magnificamente no primeiro ato.


Maestri (à direita), “proclamado o maior Falstaff de nossos dias”

No entanto, com o decorrer do espetáculo, sem perder suas grandes qualidades, Maestri interpretou cada vez mais indiferente, como se tivesse ligado seu piloto automático. Isso pode ocorrer, sobretudo quando o artista é muito familiarizado com o papel, numa apresentação ou outra. Pode bem ser que essa impressão não ocorra em nas outras récitas das quais participa.

Isso permitiu, no final, uma reviravolta. Rosana Lamosa, toda punk, com o aspecto da Siouxsie Sioux, foi impondo progressivamente seu personagem, e terminou roubando espetacularmente a cena. Com o tempo, sua voz tem adquirido mais e mais maciez, calor no timbre, e sua prodigiosa Nannetta foi ao mesmo tempo, poética e sensual. Fenton, também punk, foi cantado com galhardia por Marco Frusoni, sem eclipsar a poesia dos dois Fenton escalados pelo São Pedro, Luciano Botelho e Anibal Mancini. O Ford de Rodrigo Esteves fez a ligação com o elenco do São Pedro, onde também atuou com excelência no mesmo papel.


Rosana Lamosa (à direita) roubou a cena no Theatro Municipal de São Paulo

Enfim, estas observações são quase nada ao lado da formidável qualidade do espetáculo no Municipal. Vão como impressões, e valem o que valem, quer dizer, não muito, diante de qualidades tão altas.

O que conta é a felicidade do público paulistano em poder ouvir a prodigiosa obra-prima que é Falstaff duas vezes em tempo tão curto e em apresentações tão excepcionais.

[Leia a crítica de Jorge Coli para o primeiro elenco de Falstaff no Municipal de São Paulo]

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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