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“Ifigênia em Táuris” homenageia 300 anos de Gluck (27/5/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Estreou na última sexta-feira (dia 23 de maio), no Theatro São Pedro, a ópera Ifigênia em Táuris, de Christoph Willibald Gluck. Possivelmente a principal homenagem no Brasil ao compositor que neste ano completa 300 anos, o título seguiu o bom padrão de produção que o teatro tem apresentado em suas últimas montagens, ainda que o resultado artístico não tenha alcançado o mesmo nível.

Está certo que os conflitos humanos expressos na mitologia grega são universais e atemporais, e que a ideia de uma “atualização” cronológica – como muitas vezes tem sido feita em encenações contemporâneas – pode ser bem estimulante. Mas a solução cênica para esta montagem de Ifigênia em Táuris, desenhada pelo diretor argentino Gustavo Tambascio – algum lugar indefinido na modernidade – não contribuiu para um aprofundamento interpretativo do drama.

A encenação, contudo, é criativa e faz bom uso de seus econômicos recursos (cenografia de Leo Ceolin e luz de Wagner Pinto). Os tons pasteis mesclando cores vivas – de vez em quando de maneira exagerada, especialmente nas projeções –, reforçam uma concepção que não se prende a estilos. A mesma liberdade guiou a criação dos figurinos (Martin Lopez), que, por sua vez, entre vestimentas neutras da atualidade, concebeu as roupas das sacerdotisas parecidas a uniformes escolares, o Rei Thoas de farda militar e Ifigênia com despojados vestidos pretos ou brancos. Foi interessante e funcionou bem a ideia de contar paralelamente, no fundo do palco, como em um teatro sem palavras, a história pregressa dos personagens (descontada aquela coreografia amorosa dos adolescentes Orestes e Pílades, que, no limite do constrangedor, ficou longe da leveza pretendida).


Soprano argentina Monica Ferracani como Ifigênia [fotos: Décio Figueiredo/divulgação]

Ifigênia em Táuris teve como protagonista a soprano argentina Monica Ferracani, que fez Ifigênia com segurança, voz clara e sonora. Se sua performance teve momentos de grande beleza, ao longo da ópera o canto ressentiu-se de uma maior variedade interpretativa. Essa impressão acabou reforçada por sua atuação de poucos movimentos e expressões. Teve bom desempenho o também argentino Luciano Garay como Orestes. Bem mais à vontade no estilo, Garay exibiu, além de boa voz, uma natural movimentação cênica. O tenor brasileiro Flavio Leite, no papel de Pílades, fez bonito duo com Garay, ainda que parecesse desconfortável em algumas passagens agudas. O rei Thoas foi personificado pelo baixo-barítono Licio Bruno, que, contudo, a despeito de voz e musicalidade privilegiadas, é artista mais afeito ao repertório romântico. Completou o elenco a mezzo soprano Luciana Bueno, que fez uma correta interpretação da deusa Diana.


Mezzo soprano Luciana Bueno, que fez uma correta interpretação da deusa Diana

O ponto crítico desta homenagem a Gluck foi a realização musical de uma partitura tão característica da transição do Barroco ao Classicismo. Embora talvez combinasse com a liberdade geral da concepção atemporal da encenação, faltou um maior rigor estilístico na interpretação conduzida pelo maestro Alessandro Sangiorgi. A jovem Orquestra do Theatro São Pedro – talvez também por conta da novidade que a partitura pré-clássica de Gluck represente para ela – teve uma atuação apenas regular. Assim também o Coral Vozes Paulistanas, preparado por Teresa Longatto, a quem é reservado importante função na obra.

A rica e diversificada temporada 2014 do Theatro São Pedro – que além deste Gluck já teve a remontagem de O menino e a liberdade em março – ainda segue com Las horas vacías, de Ricardo Llorca, em agosto, Ártemis, de Nepomuceno, em outubro, e As bodas de Fígaro, de Mozart, em novembro.

[Ifigênia em Táuris segue com apresentações nos dias 28 e 30 de maio e de junho]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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