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Em sua 18ª edição, FAO segue protagonista da cena lírica nacional (29/5/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Luiz Fernando Malheiro é uma pessoa modesta. Em sua recente entrevista à Revista CONCERTO, na edição de maio, nº 205 (leia aqui; para assinantes), o maestro enumera, como se fosse absoluta normalidade, os quatro títulos da 18ª edição do Festival Amazonas de Ópera (FAO), do qual é diretor artístico. Para quem já passou pela integral do Anel do nibelungo, de Wagner, por Lady Macbeth do distrito de Mtzensk, de Shostakovich, por Lulu de Alban Berg e por outros tantos títulos igualmente instigantes, montar Manon Lescaut, de Puccini, ou Lucia di Lammermoor, de Donizetti, talvez seja mesmo corriqueiro. Em terras brasileiras, contudo, não deixa de ser, cada vez de novo, um milagre cultural.

Acompanho o Festival Amazonas de Ópera há muitos anos e, portanto, sou testemunha ocular e auditiva do sucesso da iniciativa. Sucesso que ultrapassa em muito a mera apresentação das óperas em si – e levar uma ópera ao palco já não é uma tarefa propriamente trivial (vide a triste realidade que vive o mais tradicional teatro de nosso país, o Municipal do Rio de Janeiro...). No Amazonas, o festival faz parte de uma engrenagem cultural que inclui escola de música, escola de bailado, coros e orquestras, e que hoje impacta milhares de pessoas. A iniciativa é ainda mais relevante por se desenvolver em uma região de difícil acesso, em que os déficits de infraestrutura social são ainda mais contundentes que em outras partes do país. Mas o governo do estado do Amazonas, pelo menos desde 1997, compreendeu que promover o ensino da música, assim como promover a música clássica e a ópera, faz parte do cardápio de um estado responsável e atento às demandas culturais de sua população.

Voltei a Manaus no fim de semana passado para assistir às duas últimas óperas desta edição do Festival Amazonas de Ópera: Carmen, de Bizet, e a estreia mundial de Onheama, de João Guilherme Ripper, encomenda do festival.


Carmen
Foi simples, mas bem realizada, segundo uma concepção tradicional, a encenação de Carmen, de Bizet, dirigida pelo italiano Enrico Castiglione. A famosa ópera que conta a história da sedutora cigana que desafia convenções teve como protagonista a soprano chilena Cristina Gallardo-Domâs. E foi Cristina o grande destaque da terceira e última récita do título, no dia 24 de maio. Dona de bonita voz, homogênea e de boa projeção, Cristina alia ao talento vocal uma ótima atuação cênica, revelando seu personagem com muita convicção. Esta é a primeira Carmen de Cristina, que em sua carreira já interpretou famosos papeis em teatros como o Metropolitan, de Nova York, ou o Teatro alla Scala, de Milão. Já Don José, feito pelo tenor espanhol Andeka Gorrotxategui, teve uma atuação cênica menos marcante, embora possua bom material vocal. O elenco ainda teve o ótimo Homero Velho como Escamillo e a soprano norte-americana Joanna Parisi, de possante voz, como Micaela. Completaram o time de solistas Alfonso Mujica, Kátia Freitas, Andreia Souza, Cristhiano Silva e Murilo Neves.


Cristina Gallardo-Domâs (centro) fez sua primeira Carmen [fotos: Milena di Castro/divulgação]

É necessário destacar o excelente desempenho da Amazonas Filarmônica, resultado do brilhante trabalho realizado por seu titular, o maestro Luiz Fernando Malheiro. O protagonismo da orquestra, sua capacidade narrativa, os naipes coesos e maleáveis, os timbres cuidados e o equilíbrio sonoro fazem da Amazonas Filarmônica, senão a melhor, seguramente uma das melhores orquestras de ópera do país. Participaram ainda da montagem o Coral Infantil do Liceu Cláudio Santoro, o Coral do Amazonas e Corpo de Dança do Amazonas.

Onheama
Mas a surpresa desta edição do Festival Amazonas de Ópera ficou por conta do segundo título que assisti, Onheama, de João Guilherme Ripper, que teve sua estreia mundial no domingo, dia 25 de maio. O título foi uma encomenda e reafirma o protagonismo do Festival Amazonas de Ópera na cena lírica nacional. Com libreto do próprio Ripper baseado em um poema regional sobre mitos e lendas indígenas, do escritor amazonense Max Carphentier, a ópera tem como alvo o público infanto-juvenil e se desenvolve em três atos, durante uma hora e meia. A fluente encenação de William Pereira é rica e engenhosa, linda em efeitos multicoloridos (luz de Fabio Retti e figurinos de Olintho Malaquias), evocando um universo fantástico de índios, floresta, rio, boto, Iara, e a terrível onça celeste, que engole o sol e escurece a terra (um eclipse, significado da palavra “onheama”). Nhandeci, a mãe de todos os índios, reconhece no menino Iporangaba o herói guerreiro que, enfrentando a onça com uma flecha com sementes de paricá, salvará a tribo e o mundo da escuridão.


Cena de Onheama, de João Guilhermer Ripper, a primeira encomenda da história do festival

A ópera foi também dirigida por Luiz Fernando Malheiro (na récita do dia 28 a condução foi de Otávio Simões) e contou com um bom desempenho da Orquestra Experimental (que é o grupo jovem da Amazonas Filarmônica) e com um equilibrado e competente elenco de solistas: o menino Iporangaba foi feito por Edilson Cardoso, Iara por Dhijana Nobre, Tuxaua por Rafael Lima, Nhandeci e a onça por Isabelle Sabrié e o boto por Enrico Bravo. A ópera teve ainda a participação do Balé Folclórico do Amazonas (coreografia de Monique Andrade), do Coral Infantil (direção de Hugo Pinheiro) e do Coral do Amazonas (direção de Zacarias Fernandes).

Utilizando-se de uma ampla paleta de recursos instrumentais sobre uma escrita de corte tradicional, João Guilherme Ripper tem se revelado um grande mestre na elaboração dramática (esta é a quarta ópera do compositor, cujo título anterior, Piedade, também tive a oportunidade de assistir em versão semiencenada com a Orquestra Petrobras Sinfônica – leia a resenha aqui). Construídas sobre uma consistente linha dramática, a narrativa e a música fluem com naturalidade. Em trechos de elevada energia rítmica (no primeiro ato com lembranças de Villa-Lobos) ou em passagens de grande sutileza e beleza melódica, Ripper é um compositor de musicalidade expansiva, que tem a habilidade de fazer a música e a voz soarem com emoção.


Coda
Voltando ao início deste texto, quero ressaltar, que o sucesso de Onheama não se deve apenas a seu resultado artístico, embora este por si o justificaria. O sucesso também está no fato de a realização do espetáculo ter sido praticamente toda feita por artistas locais, frutos da criação do Festival Amazonas de Ópera e do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro. Entre os solistas, a soprano Dijhana Nobre e o barítono Rafael Lima são crias desta estrutura de formação, e Isabelle Sabrié (cantora premiada no Concurso de Ópera Plácido Domingo e no do Conservatório de Paris!) e Enrique Bravo são residentes em Manaus.

Ou seja, o importante investimento público iniciado há 18 anos infiltrou-se na cidade criando um tecido cultural que hoje praticamente respira sozinho. É a maioridade de um projeto no horizonte de uma geração. (E é de uma geração mesmo: no foyer do Teatro Amazonas, fui apresentado à mais nova musicista da Amazonas Filarmônica, uma jovem loira, de pele branca e olhos claros, brasileira nascida em Manaus, filha de músicos russos que ali se radicaram na década de 1990 para integrar a então nascente orquestra do teatro.)

O Festival Amazonas de Ópera, em sua 18ª edição, pode se orgulhar de suas realizações. Uma grande conquista, um projeto visionário que conta entre seus principais idealizadores com o secretário de Cultura do estado do Amazonas, Robério Braga, também diretor geral do festival.

Que os próximos 18 anos sejam igualmente vitoriosos!

[Nelson Rubens Kunze viajou a Manaus a convite do Festival Amazonas de Ópera] 

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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