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Grande produção de “Carmen” estreia no Theatro Municipal (31/5/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Uma nova produção de Carmen, de Georges Bizet, estreou quinta-feira (29 de maio) no Theatro Municipal de São Paulo. Sob regência do maestro espanhol Ramón Tebar (diretor da Florida Grand Opera de Miami) e com direção cênica do italiano Filippo Tonon, a ópera ganhou uma encenação de grandes proporções: a ação se passa em um vasto ambiente que lembra um pátio industrial, com gruas e torres cercadas de altas paredes com amplas janelas. Nas cenas de caráter mais reservado, uma grande divisória de placas e pilares cria um novo espaço na parte frontal do palco, quebrando a monotonia que sempre ameaça os longos atos de Carmen. No segundo ato, vigas de madeira suspensas horizontalmente sobre o palco conferem a ideia de “abrigo” da taberna de Lillas Pastia. A cenografia, realizada com esmero por Juan Guillermo Nova (o mesmo que fez os lindos cenários de Cavalleria Rusticana e Jupyra no ano passado) é realçada pela excelente iluminação de Caetano Vilela, que logra espetaculares efeitos visuais. Figurinos característicos, igualmente caprichados, são de Cristina Aceti.


Cena do Ato II de Carmen, nova produção do Theatro Municipal de São Paulo [fotos: Desirée Furoni/divulgação]

A mezzo soprano israelense Rinat Shaham fez uma Carmen convincente, à vontade em cena, revelando mais um caráter dominador que propriamente sensualidade sedutora. Sua voz é bonita e encorpada, ela canta com facilidade e faz soar intensos graves. Como pede a partitura, perto dela, nem mesmo o tenor Thiago Arancam, que fez Don José, teve vez – quem sabe é por isso que ele a assassina. Sua voz tem flexibilidade e compensa um timbre um pouco opaco na região grave e média com belíssima sonoridade nos agudos, onde brilha. Já Rodrigo Esteve demonstrou mais uma vez que é cantor de excelência (o barítono já havia tido ótima participação no Falstaff, contracenando com Ambrogio Maestri). Sua voz tem qualidade em toda extensão e seu Escamillo teve boa presença. A soprano Lana Kos também tem voz privilegiada e fez uma bem cuidada interpretação de Micaëla.


Thiago Arancam e Rinat Shaham, como Don José e Carmen

Foram muito bem também os papeis comprimários, em primeiro lugar, abrindo o espetáculo, o Moralès de Norbert Seidl, assim como Zuniga (Massimiliano Catellani) e Lillas Pastia (Guilherme Corrêa). Mas não vai me sair da memória tão cedo o espetacular quinteto vocal do segundo ato, protagonizado por Dancaïre (Francis Dudziak), Remendado (Rodolphe Briand), Frasquita (Marta Torbidoni), Mercédés (Malena Dayen) e Carmen. A passagem foi de uma perfeição difícil de igualar, as cores e os volumes vocais, em conjunto com a orquestra, se complementaram de maneira rara.

Igualmente bem esteve o Coro Lírico, que tem preparação de Bruno Facio; bastante exigido nas intervenções cênicas, o conjunto soou bem e coeso. E foram também muito felizes as intervenções do coro infantil Coral da Gente, do Instituto Baccarelli.


O barítono Rodrigo Esteves, que fez o toureiro Escamillo

Houve sim, contudo, alguns problemas na noite de estreia, e eles estavam no fosso. Ainda que a orquestra tenha soado bem, ela não teve o mesmo rendimento de produções anteriores. E o maestro Ramón Tebar, de gestual amplo e movimentado, em algumas passagens, especialmente do primeiro ato, teve dificuldades em sincronizar o que se passava na orquestra com o que se sucedia no palco (os deslizes acabaram amplamente compensados pela referida passagem do segundo ato, que funcionou como um relógio...).

Tudo somado e subtraído, esta Carmen evidencia uma produção artística de alto nível, que assim reforça a intenção do Theatro Municipal de São Paulo de estabelecer um novo modelo para a produção lírica nacional.

Conclusão: se você já tem o seu ingresso, não perca esta ótima Carmen (e não se esqueça de dar sua opinião no “Ouvinte Crítico” da Revista CONCERTO – clique aqui para saber mais). Se você não tem, torça para que o Theatro Municipal a reprograme no futuro com um elenco igualmente competente.

[Carmen terá récitas ainda nos dias 31 de maio e 1º, 3, 5, 7, 8, 10 e 11 de junho (confira mais detalhes no Roteiro Musical). Os ingressos, contudo, já estão esgotados.]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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