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Novos sons para o trombone brasileiro (17/6/2014)
Por Camila Frésca

A despeito da crise fonográfica que assola o mercado da música, no cenário clássico nacional o ambiente parece estar propício para o lançamento de músicos e de música brasileira. São discos de tiragem pequena e voltados a um público restrito, é verdade, mas trata-se de uma grande notícia saber que não apenas solistas com nomes estabelecidos, mas também instrumentistas que atuam em nossas orquestras, estão realizando projetos pessoais significativos. E, mais um ponto positivo, não se trata apenas de instrumentos de maior apelo junto ao público, como o violino e o piano.

O CD Trombone contemporâneo brasileiro, de Carlos Freitas, faz parte justamente desse movimento. Exclusivamente dedicado à música contemporânea, revela um compromisso do intérprete com a música atual e com a renovação do repertório para seu instrumento. A renovação da linguagem se dá não apenas na música como também na apresentação gráfica, com design atraente e arejado. Felizmente, parece passado o tempo em que os CDs dedicados à música brasileira pecavam por capas horrendas que já afastavam o potencial ouvinte de um primeiro contato. Igualmente, estes lançamentos possuem em geral um grande cuidado na captação de áudio.


O belo projeto gráfico do CD Trombone contemporâneo brasileiro [fotos: divulgação]

Carlos Freitas nasceu em Caieiras, São Paulo, e se iniciou na música aos 15 anos com Marcos Sadao Shirakawa. Logo ingressou na Banda Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo e, algum tempo depois, na Orquestra Experimental de Repertório, onde venceu o concurso Jovens Solistas de 1998. Conquistou ainda, em 2002, por unanimidade, o 5º Prêmio Weril para instrumentos de sopro. Atualmente, Carlos é trombone solo da Osusp e professor do instrumento na Emesp, sendo ainda um dos integrantes da Camerata Aberta. Verdadeiro “ativista” de seu instrumento, Carlos Freitas fundou, junto com o também trombonista Ricardo Santos, o Projeto BONE Brasil, que reúne trombonistas das melhores orquestras do país com o intuito de divulgar o trombone como instrumento solista e camerista, além de promover encontros e festivais internacionais.

Trombone contemporâneo brasileiro foi financiado por um dos editais do ProAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, que tem se tornado um instrumento eficiente de viabilização de projetos desta natureza. Para seu primeiro disco solo, Carlos Freitas convidou jovens e atuantes compositores brasileiros a escrever obras inéditas, com as mais diversas formações. “Os compositores foram selecionados a partir de meu contato pessoal com eles através da Camerata Aberta”, explica. O vento do Sussuarão, de Paulo Zuben, evoca o “vento que vem de toda parte”, descrito por Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, numa escrita para trombone solo e conjunto de câmara; Elegia em azul, de Rodrigo Lima, exige um time de oito trombonistas; enquanto Circulares, de Sergio Kafejian, foi pensada para trombone e eletrônica. Canvas, de Alexandre Lunsqui, propõe uma metáfora entre música e pintura para mergulhar no desconhecido, num dueto para trombones tenor com Freitas e Wagner Polistchuk. Mais três peças integram o disco: Cavaleiro da linha do céu, que Marcílio Onofre escreveu para trombone solo e quarteto de cordas; Matiz I, um dueto para trombone e trompete também de Rodrigo Lima; e Contrafacta, de Flo Menezes, que vai buscar inspiração na música de Josquin Desprez, lida “com a lupa de Stravinsky” e finalmente retrabalhada em projeções mais radicais, resultando numa obra para quinteto de metais e eletrônica.


O trombonista Carlos Freitas, um verdadeiro “ativista” de seu instrumento

Ele explica um pouco melhor o processo: “já tinha começado, com Rodrigo Lima e Sergio Kafejian, um projeto de novas obras para trombone. O contato com Flo Menezes, Marcílio Onofre e Alexandre Lunsqui aconteceu através de execuções de suas obras na Camerata, já que na maioria das vezes temos o privilégio de ter os compositores das obras do programa presentes no ensaio”. Já a peça de Paulo Zuben tem raízes mais antigas: “Já existia uma vontade da parte dele de escrever uma obra para trombone desde a época que fui seu aluno na faculdade. Na ocasião, fui apresentado ao universo da música contemporânea por Zuben”. Assim nasceu a bela O vento do Sussuarão. O disco ainda tem um pequeno documentário no qual os compositores falam sobre suas obras e que traz trechos de ensaios e gravações.

Além de promover a música de invenção de diferentes matizes, o CD traz um número considerável de músicos que, reunidos em diferentes formações, demonstram seu entusiasmo com as linguagens contemporâneas – e, principalmente, seu entendimento e apuramento técnico para interpretá-la. Em tempos de internet, Carlos Freitas disponibiliza vários materiais on-line: além de um site bastante completo (www.cfbone.com), com biografia, fotos e no qual se pode ouvir as faixas do CD (ouça aqui), um trailer do documentário pode ser visto no YouTube.

Já para quem quiser conferir o dinâmico trabalho desse trombonista no mundo “real”, em julho ele realiza dois concertos dentro do Festival de Inverno de Campos do Jordão, nos dias 21 e 22 de julho.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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