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Mirem-se no exemplo de Alan Gilbert e a Filarmônica de NY (20/6/2014)
Por João Marcos Coelho

Praticamente todas as orquestras do planeta adoram banhar-se só nas águas do Romantismo do século XIX e inícios do século XX. A ponto de a diferença entre um grupo arrojado e um convencional – em concerto ou em gravação – só ser percebida nos detalhes. A frase que reproduzo de memória do crítico norte-americano Justin Davidson retrata uma verdade que, se já é fato nos Estados Unidos e Europa, é ainda mais verdadeira ao Sul do Equador. Faltou, talvez, acrescentar que, quando se aventuram na música para além dos “inícios do século XX”, as orquestras fogem do novo. Optam – preferencial e comodamente – pelos truques habituais: criações pós-modernas, remetendo ao passado e/ou bebendo nas músicas populares. Em suma, a ideia básica é não sair da redoma sonora confortável tanto para quem está no palco como, sobretudo, para os que estão sentados nas poltronas das salas de concerto.

Isso gera um círculo vicioso que raras sinfônicas ousam romper em seu dia-a-dia. O maestro Alan Gilbert, desde sua nomeação em 2009 como diretor artístico e regente titular da Filarmônica de Nova York, tem se pautado por uma ação decidida em favor da música do nosso tempo. Primeiro, instituiu um programa de compositor em residência que de fato liga o nome à realidade: o escolhido permanece por duas temporadas na função, compõe várias obras para a orquestra e, além disso, concebe e conduz uma série de música contemporânea, CONTACT!. O último compositor em residência em Nova York foi o sueco Magnus Lindberg. Basta acessar o site da Filarmônica de NY para avaliar tudo que ele fez por lá (em São Paulo, sua residência na Osesp durou duas semanas).


Gilbert comanda ensaio para a estreia de Kraft, de Magnus Lindberg [foto: Chris Lee/divulgação]

Mas o que mais me chamou a atenção esta semana foi a primeira Bienal da Filarmônica de Nova York, que realizou 21 concertos em 11 dias, entre maio e junho. E só com música recente, recentíssima, de 2000 pra cá. Houve até um concerto com jovens compositores do futuro, reunindo grupos de músicos adolescentes, de até 20 anos, tocando música de compositores também superjovens.

A tenacidade de Gilbert em incluir a música contemporânea na moldura de seu trabalho à frente da Filarmônica de Nova York é impressionante. Registros da série CONTACT! são disponibilizados só em versão digital a preços baixíssimos (vejam no iTunes). Ele mesmo faz questão de comparecer a cada um desses concertos, rege vários. Esteve em todos os concertos da bienal.

A conclusão de Davidson é precisa. O público pode, diz ele, contentar-se com a habitual temporada de concertos sinfônicos convencionais e evitar toda e qualquer música escrita depois de 1910. Mas Gilbert “internalizou” – esta é a palavra-chave – de tal maneira em seus músicos o conceito de que uma orquestra não é apenas um grupo de músicos reunidos para repetir sempre os megahits do repertório do passado. É, principalmente, uma “organização flexível que pratica a curiosidade”. E, acrescento, busca atuar como vitrine da música atual.

Sabem qual é o resultado desses seis anos de trabalho de Alan Gilbert? O público da orquestra aprendeu, segundo Davidson, que deve ir a estes concertos sem preconceitos e sem expectativas, munidos apenas da natural curiosidade, uma característica essencial dos seres humanos que temos reprimido cada vez mais em nossas vidas. Palmas para Gilbert, um maestro que compensou a falta de carisma dos midiáticos antecessores por um duro e ao mesmo tempo maravilhoso trabalho abrangente, capaz de manter o público dos concertos convencionais e levá-lo a novas aventuras pela música viva.

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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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