Banner 468x60
Banner 180x60
Boa tarde.
Segunda-Feira, 18 de Dezembro de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 

 
 
 
Um brinde aos Sísifos brasileiros (29/7/2014)
Por João Marcos Coelho

A meritocracia, critério tão banal hoje no recrutamento e seleção de jovens profissionais em todos os campos de atividade, teima em não chegar ao mundo da música clássica. Os jovens candidatos a engenheiros, administradores e outras qualificações submetem-se a baterias de testes, entrevistas, enfim, um exaustivo e minucioso pacote de avaliação objetiva para conseguir estágios em grandes empresas e abrir as portas para uma carreira profissional bem-sucedida. O funil é rigoroso, mas os critérios são objetivos, premiam os melhores.

No mundo da música clássica, no entanto, o desafio é muito maior. Imagine um aluno brasileiro de qualquer instrumento – violino, piano, violoncelo, oboé, clarinete – que apresente um talento diferenciado. Pois acredite: ele tem de ir para a Europa ou Estados Unidos, enfrentar dúzias e dúzias de asiáticos, além dos nativos europeus, norte-americanos e russos (no caso de Antônio Meneses, por exemplo), para se firmarem. E só então, acreditem, eles pisarão nos palcos mais seletos do... Brasil.


Cristian Budu, que venceu o Concurso Clara Haskil, em Vevey, na Suíça, em 2013 [foto: divulgação]

É uma inversão absurda de valores. O caso relatado aqui mesmo neste espaço, da turnê deste ano da Osesp, que leva a tiracolo um jovem pianista russo Dmitry Mayboroda, 21 anos, é exemplar (Cosmopolitismo ou jequice?, de João Luiz Sampaio). A orquestra brasileira contratou o pianista que perdeu para o brasileiro Cristian Budu no Concurso Clara Haskil, em Vevey, na Suíça. O argumento de que ele já havia sido escolhido muito antes do concurso explica, mas só reforça um cacoete das nossas instituições mais fundamentais na vida musical nativa: as orquestras. Elas só chancelam jovens “vencedores” lá fora. É a senzala aguardando a aprovação da casa-grande para só então festejar os nativos e às pressas conceder-lhes espaço em suas temporadas.

Até algum tempo atrás, os concursos para preenchimento de vagas nas orquestras era uma bagunça total, onde valia mais o compadrio tão entranhado em nossas raízes do que a competência. Com a disseminação da audição às cegas dos candidatos, diminuiu a zorra.

O raciocínio torto estende-se também às encomendas de peças a compositores e à escolha de mestres de composição no Festival de Inverno de Campos do Jordão. Não se trata de exigir reserva ou cota para compositores ou músicos nacionais. Nada disso.

O argumento é ainda mais primário. Se os jovens talentos brasileiros – instrumentistas e compositores incluídos – continuarem a ser trocados por promessas norte-americanas, europeias ou do leste europeu/Rússia, quem dará espaço lá fora pra eles?  Ninguém. Só às custas de esforços monumentais. Por isso, justamente, de cada dez jovens talentos que poderiam construir carreiras importantes aqui e no exterior – apenas um ou outro Sísifo, disposto a carregar uma pedra até o topo da montanha, vê-la despencar e retomar indefinidamente a subida... até vencer, contra todos os prognósticos, um concurso internacional.


Luíz Fílip, um dos primeiros-violinos da Filarmônica de Berlim [foto: Anja Collins/divulgação]

Foi assim em 1982, quando o pernambucano Antônio Meneses concorreu e derrotou um punhado de violoncelistas russos em Moscou, no Concurso Tchaikovsky. Meses antes, pedira ajuda ao governo brasileiro para a viagem, que lhe foi negada. Após a vitória, recebeu do Itamaraty os parabéns regulamentares e – aí sim – ajuda financeira. Lógico que ele recusou. A história repetiu-se há pouco com o pianista Cristian Budu, que só é admitido nos “grandes palcos brasileiros” agora, depois de ter vencido em Vevey, um dos mais importantes concursos internacionais de piano do planeta. E também com o violinista Luiz Filipe, que só agora, como Luíz Fílip, chancelado como um dos primeiros-violinos da Filarmônica de Berlim, pisou a Sala São Paulo em grande estilo em julho.

Um brinde aos Sísifos incansáveis que vencem obstáculos tão formidáveis. É preciso ter férrea determinação e a música na alma. E sonhar com o impossível.

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi) Por Nelson Rubens Kunze (8/12/2017)
Uma grande e despretensiosa sátira Por João Luiz Sampaio (8/12/2017)
Museu virtual reúne milhares de instrumentos de coleções britânicas Por Camila Frésca (4/12/2017)
Karnal, a Osesp e o governador Por Nelson Rubens Kunze (24/11/2017)
Quem não trafega nas redes sociais se trumbica Por João Marcos Coelho (24/11/2017)
Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
Três óperas Por Jorge Coli (7/11/2017)
Convocação de OSs para Emesp, Guri e Conservatório de Tatuí reforça torniquete financeiro do governo Por Nelson Rubens Kunze (3/11/2017)
Para onde nos levará a onda de censura no país? Por João Marcos Coelho (31/10/2017)
Os quartetos de cordas e a reavaliação da obra de Villa-Lobos Por Camila Frésca (30/10/2017)
O Brahms profundo e espontâneo de Nelson Freire Por Irineu Franco Perpetuo (25/10/2017)
Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” Por João Marcos Coelho (24/8/2017)
Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (23/8/2017)
O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Dezembro 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
27 28 29 30 31 1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
31 1 2 3 4 5 6
 

 
São Paulo:

19/12/2017 - Coro Acadêmico da Osesp

Rio de Janeiro:
21/12/2017 - Orquestra Johann Sebastian Rio

Outras Cidades:
19/12/2017 - Vila Velha, ES - Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046