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Diário de Salzburgo 2014 – Parte 2 (19/8/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Dia 4 (18/08): Il trovatore
Qualidades musicais e dramáticas não faltam a Il trovatore, mas o gótico extravagante da trama da ópera de Verdi já feria suscetibilidades na época do compositor. Para narrar para os espectadores de hoje essa inverossímil teia de amor e vingança, o letão Alvis Hermanis (que, em 2012, dirigiu em Salzburgo uma deslumbrante montagem de Die Soldaten, de Bernd Alois Zimmermann), resolveu renunciar completamente à verossimilhança, e assumir a representação como tal.

Il trovatore, em sua leitura, é uma noite em um museu. Os personagens começam caracterizados como funcionários da instituição, guiando visitantes com vestes “contemporâneas” por entre as telas. Gradativamente, porém, os protagonistas passam a envergar trajes “de época”, sempre no colorido vermelho das paredes do museu – como se os personagens saltassem das obras de arte e ganhassem vida.


Cenas distintas transformam o museu montado no palco por Alvis Hermanis [fotos: divulgação]

Um sofisticado jogo de painéis e projeções garante a interação das telas com a ação cênica, criando várias salas do museu ao longo da ópera – e os visitantes sempre voltam a aparecer, lembrando-nos de que estamos diante, ao fim e ao cabo, de uma representação. A troca de cena do terceiro para o quarto ato é feita diante do público, e a personagem Leonora reassume seu figurino de funcionária do museu – abrindo a possibilidade para que, talvez, toda a ação seja mero sonho ou reflexo dos pensamentos das pessoas que lá trabalham.

Uma das razões de ser dessa produção era a presença do espanhol Plácido Domingo que, na juventude, encarnou com sucesso o papel de tenor, Manrico, e agora voltava na parte de barítono – Conde de Luna. Depois de uma estreia criticadíssima, e uma segunda récita melhor recebida, porém com advertência feita à plateia a respeito de problemas de saúde, o venerável cantor de 73 anos alegou febre, infecção e dificuldades respiratórias para cancelar todas as récitas subsequentes da ópera.

Com o mito fora de cena, ficamos com a realidade, encarnada pelo sólido barítono polonês Artur Rucinski, de vocalidade robusta, muito mais convincente, tanto no aspecto musical quanto no cênico, do que o débil tenor Francesco Meli, cuja voz parecia leve demais para o papel, sofrendo em comparação com o peso demonstrado pelos demais colegas de elenco, e que teria sido uma decepção como Manrico ainda que não houvesse fracassado miseravelmente na cabaletta Di quella pira.

Mais conhecida por suas gravações do repertório barroco, a canadense Marie-Nicole Lemieux tem um vibrato que pode incomodar alguns gostos, bem como uma caracterização que foge dos modelos consagrados de Azucena, saudavelmente buscando um caminho próprio. De qualquer modo, ouvir ao vivo sua voz possante, com um timbre raro de contralto, não deixa de ser uma experiência marcante. No pódio, Daniele Gatti conduzia uma sempre exuberante Filarmônica de Viena como um guarda de trânsito cuja prioridade é simplesmente deixar o tráfego fluir.

O fato é que, se algo dessa produção merece ficar na memória é a Leonora intensa e exuberante da diva russa Anna Netrebko. Em dezembro, ouvi-a cantar o mesmo papel no Mariinski 2, de São Petersburgo, sob a batuta de Valery Gergiev, e direção cênica de Pier Luigi Pizzi e, para mim, confirma-se o diagnóstico daquela época: a melhor voz de soprano lírico e ligeiro das últimas duas décadas encaminha-se para virar a melhor de soprano dramático das próximas duas.


A soprano russa Anna Netrebko foi o ponto alto do Trovatore apresentado no Grosses Festspielhaus

Começo do quarto ato: Netrebko traja um uniforme museológico azul, tem sobre si um foco de luz e, por trás, telas amontoadas. Abre a boca, começa a entoar D'amor sull`ali rosee, e nada existe no Grosses Festspielhaus que não seja a suprema arte de Verdi, entregue aos espectadores por uma intérprete que faz os mais hiperbólicos superlativos soarem opacos e insuficientes. Fica difícil voltar ao chão depois de vivenciar o sublime.

[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 1]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 3]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 4]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 5]

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento.]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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