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Diário de Salzburgo 2014 – Parte 4 (21/8/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Dia 6 (20/08): O cavaleiro da rosa
O cavaleiro da rosa já foi encenado nada menos do que 117 vezes no Festival de Salzburgo, desde 1929 –, e para a 118ª, era necessária uma novidade. Afinal, trata-se da produção que festeja o 150º aniversário do compositor Richard Strauss (1864-1949), um dos fundadores do festival, ao lado do poeta Hugo von Hofmannsthal (autor do libreto da ópera) e do dramaturgo Max Reinhardt.

A solução foi tocar a partitura na íntegra, sem os cortes de praxe. Objetivamente, com os dois intervalos, isso significou ingressar no Grosses Festspielhaus às 18h para não sair antes das 22h40. Era possível notar um compreensível cansaço nos rostos menos fanáticos pela estética de Strauss – assim como a fisionomia de deleite dos fãs do compositor. Afinal, o tempo, como Hofmannsthal escreve no final do primeiro ato da ópera, é uma coisa estranha.

Inicialmente, a regência seria de Zubin Mehta que, meses antes do festival, anunciou que não encararia a empreitada, por razões médicas. Andei lendo por aí boatos de que Riccardo Muti não teria aceito a direção musical da ópera por não ter o alemão como língua materna e, portanto, temer que as sutilezas da criação de Hofmannsthal/Strauss lhe escapassem.

Tais sutilezas pareciam todas muito ao alcance de Franz Welser-Möst, 54, austríaco de Linz, que os ingleses, há duas décadas, presentearam com a delicada alcunha de “Frankly Worse than Most” (francamente pior do que a maioria).

Atual comandante da Orquestra de Cleveland e da Ópera de Viena, Möst formou com a Filarmônica de Viena a parceria ideal para construir o mundo sonoro de Strauss, eivado de valsas nostálgicas e orquestração luxuriante.


Kassimira Stoyanova (esq.) e Sophie Koch se destacaram [fotos: divulgação/Monika Rittershaus]

Em meio à evocação da Viena da década de 1920 que o experiente Harry Kupfer, 79, construiu utilizando projeções e estruturas móveis, a figura dominante foi a Marechala da soprano búlgara Krassimira Stoyanova – cuja voz o Brasil conheceu há duas décadas quando, ainda iniciante, foi protagonista das produções da São Paulo Imagem Data das óperas O guarani (como Ceci, regência de Júlio Medaglia) e Fosca (como Delia, regência de Luiz Fernando Malheiro), de Carlos Gomes.

Elegante vocal e cenicamente, Stoyanova formou um par de altíssimo nível com a mezzo francesa Sophie Koch – uma das melhores intérpretes de Octavian da atualidade. A química entre o trio de vozes femininas só não esteve no ponto ideal porque, ao escolher a cantora para o papel de Sophie, os responsáveis pela produção sacrificaram a credibilidade vocal em prol da cênica. Assim, a soprano Mojca Erdmann, embora tenha a figura jovial e esbelta requerida por sua personagem, teve constantes dificuldades em projetar sua voz para além das densas texturas da instrumentação straussiana.


Mojca Erdmann (esquerda) interpretou o papel de Sophie; à direita, Sophie Koch

Por outro lado, vale destacar a solidez dos barítonos Adrian Eröd (Faninal) e Günther Groissböck – que abre novas possibilidades para o papel de Ochs, aqui caracterizado como uma figura mais jovial do que de hábito, conferindo um tempero especial à saborosa fantasia vienense de Kupfer e Möst.

[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 1]
[
Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 2]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 3]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 5]

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento.]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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