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Diário de Salzburgo 2014 – Parte 5 (22/8/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Dia 7 (21/08): West-Eastern Divan Orchestra e Daniel Barenboim
Uma semana de festival pode deixar você mal acostumado – no pior sentido possível. Submetido a uma rotina diária de Filarmônica de Viena, confesso que levei algum tempo para digerir e aceitar a sonoridade da West-Eastern Divan Orchestra, de Daniel Barenboim.

A três meses de soprar 72 velinhas, Barenboim é um workaholic que mantém, inacreditavelmente, uma carreira de pianista virtuose paralela à de regente internacional de alto nível. Em 1999, junto com o intelectual palestino Edward Said, montou essa orquestra, cujo título vem de uma coletânea de poemas de Goethe, e que é constituída de jovens músicos israelenses e provenientes de países árabes – como se vê, um louvável exemplo nos conturbados dias que vive o Oriente Médio.

Barenboim já levou o grupo à Sala São Paulo, em 2005, e aqui, depois de “esquecer” a imaculada sonoridade dos magos vienenses, foi possível desfrutar dos inegáveis méritos dessa orquestra coesa e equilibrada.

O programa era o “Projekt Tristan und Isolde”, uma versão pocket e concertante da obra-prima de Wagner, trazendo o prelúdio da ópera, o segundo no ato na íntegra, e a Morte de Isolda. Para tanto, o regente arregimentou aqueles que talvez sejam os mais destacados intérpretes desses papéis na atualidade: Peter Seiffert (Tristão), Waltraud Meier (Isolda) e René Pape (Rei Marcos), com o sólido apoio da voz aveludada de Ekaterina Gubanova (Brangäne) e da solidez de Stephan Rügamer (Melot).


“Projekt Tristan und Isolde” da West-Eastern Divan Orchestra [foto: Marco Borrelli/divulgação]

Para não deixar dúvidas a respeito de quem era a real estrela do espetáculo, Barenboim colocou sua orquestra em cima do palco, no primeiro plano, postando os cantores em posição elevada, porém no fundo do teatro, atrás dos instrumentistas.

Por um lado, isso nos deu o privilégio de acompanhar a amadurecida leitura de Barenboim que, regendo de cor, eximia-se em revelar toda a riqueza harmônica, de fraseados e colorido da partitura wagneriana. Por outro, deixou em apuros os cantores, que tinham que projetar suas vozes por cima da cortina sonora erguida pelo regente. Seiffert padeceu especialmente na competição com o volume orquestral, e essa peculiar disposição cênica contribuiu para que, por mais que Meier tenha matizado com beleza sua vocalidade, a estrela suprema da noite fosse o impressionante René Pape, cuja voz tonitruante foi a única a conseguir ressoar sem restrições por todo o espaço do Grosses Festspielhaus – como se a massa orquestral que tinha diante de si possuísse o abafado volume de um clavicórdio.

Dia 8 (22/08): Ensaio da Filarmônica de Viena com Gustavo Dudamel
Quando uma orquestra vai tocar uma obra nova no mesmo programa de outra que já está há tempos em seu repertório, espera-se que dedique mais tempo de preparação ao item inédito – afinal de contas, esse é o que dá mais trabalho de colocar de pé.

Porém, quem acompanha de perto a rotina das orquestras brasileiras sabe que, via de regra, esse não é o raciocínio que as rege. Normalmente a peça “nova”, ou menos tocada (especialmente se for de autor nacional) é levada ao palco apenas com uma “passada”, uma leitura – afinal, ninguém vai perceber mesmo se houver algo de errado. Todo esforço é dedicado aos itens tradicionais, “de confronto”, que o público já tem na cabeça.

Acabo de verificar in loco que, com a Filarmônica de Viena, as coisas são diferentes do Brasil. Em Salzburgo, acompanhei um ensaio da orquestra, sob a batuta de Gustavo Dudamel. Na primeira parte, o homenageado do ano, Richard Strauss: Morte e transfiguração e Assim falou Zaratustra (que Stanley Kubrick definitivamente roubou de Nietzsche). Já a segunda metade foi totalmente dedicada a Time recycling, de René Staar, 63.

Dudamel entrou no Grosses Festspielhaus de camisa polo preta e jeans, disse “Guten Morgen” e mandou bala no Strauss. Ambas as peças foram executadas na íntegra (com os devidos aplausos do público), seguidas de observações muito curtas e pontuais (em inglês): “Aqui é como se o som tivesse 150 kg e, de repente, passasse para 20 kg”; “agitato não apenas no tempo, mas na expressão”; “não importa o que eu estiver fazendo, siga o tímpano”.

Afinal de contas, quem pode ensinar a Filarmônica de Viena a tocar Richard Strauss? Não se ensina o estilo straussiano à orquestra; aprende-se dela. Ao ouvi-la executar suas obras, é como se pudéssemos reconstituir a imaginação do compositor, e ter acesso à sonoridade que ele tinha em mente ao lançar as notas no papel.


Irineu aproveitou e tirou uma selfie com Dudamel [foto: Irineu Franco Perpetuo/Revista CONCERTO]

Depois do intervalo, o Grosses Festspielhaus (até então, lotado como para um concerto) vai se esvaziando gradualmente – e o verdadeiro trabalho começa. Dudamel também faz uma execução, na íntegra, da obra contemporânea, estreada na capital austríaca em 17 de maio deste ano, com a filarmônica, sob regência de Semyon Bychkov. Daí, chama ao palco Staar, que também é violinista da orquestra, e começa os ajustes.

Time Reciclyng é uma obra curiosa, que começa dissonante para concluir com uma paródia poliestilística, a qual não faltam evocações de bossa nova e mesmo uma clara alusão (com os contrabaixistas girando seus instrumentos e cantando) à maneira da Orquestra Sinfônica Simón Bolívar, de Dudamel, executar um de seus bis clássicos: o Mambo, de Leonard Bernstein.

“Confiem em mim. Eu vou estar perdido, mas confiem em mim”, afirma Dudamel, a certo ponto do ensaio. Em outro, cita Woody Allen para evocar uma sonoridade jazzística. Os músicos parecem empenhados em colocar de pé a obra de seu colega, e aplaudem-se uns aos outros cada vez que a repetição de uma passagem problemática funciona.

Nessa hora, apreciar ou não as idiossincrasias do mundo sonoro de Staar era a menor das questões. A óbvia camaradagem entre regente, compositor e instrumentistas, sinceramente comprometidos em colaborar para dar vida a uma nova obra, parecia apontar um caminho de frescor e renovação para os rituais por vezes burocratizados, envelhecidos e fossilizados da música de concerto. Da rotina, fez-se a criação.

[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 1]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 2]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 3]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 4]

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento.]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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