Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Quinta-Feira, 21 de Junho de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 

 
 
 
O prazer d(n)os livros e uma vergonhosa semelhança (25/8/2014)
Por João Marcos Coelho

Há tempos não ia ao Rio de Janeiro. Esta semana, fui num bate-volta. E, como sempre fiz centenas e centenas de vezes, não deixei de passar na Livraria Leonardo da Vinci. Enquanto saboreava uma massa com funghi no minúsculo porém encantador bistrô em frente às vitrinas cheias de livros do mundo inteiro, reli o poema que um de seus frequentadores mais fieis, Carlos Drummond de Andrade, publicou em sua homenagem.

E quero compartilhar com vocês a emoção que senti ao degustar cada palavra, estampada na grande porta de vidro transparente da livraria.

Uma zanzada pela grande sala atulhada de livros e topo com dona Vanna, andando com dificuldade, de bengala. Vanna Piraccini é uma italiana de Bolonha que veio para o Brasil ao lado do marido advogado, em 1952 – e naquele mesmo ano montou a livraria no subsolo de um dos mais tradicionais edifícios do centro do Rio de Janeiro, na avenida Rio Branco, 185: o Marquês do Herval. Ela hoje praticamente ocupou todo o subterrâneo com livros, com quatro lojas contíguas.


Ilustre cliente: Carlos Drummond de Andrade na Livraria Leonardo da Vinci [foto: divulgação]

E vou até confessar um orgulho íntimo: como Drummond e muitos outros cariocas da gema, também tive conta na Da Vinci por muitos anos. Dona Vanna não se importava quando a conta subia demais e a gente pagava uma parcela mínima demais. O amor aos livros falava mais alto.

Jamais saí de mãos abanando de lá. Nesta visita, comprei, por uma pechincha, R$ 80, um livro pelo qual tinha bastante curiosidade: Mécènes et musiciens – du salon au concert à Paris sous la III République, da ótima Myriam Chimènes (Ed. Fayard, 2004).

A introdução já é um banquete. Chimènes põe lupa na vida musical parisiense no período 1870-1940. Massenet, Stravinsky, Debussy, Fauré, Poulenc, mas também Arthur Rubinstein, Clara Haskil e, claro, Magda Tagliaferro. Todos frequentaram os salões da elite francesa, tiveram obras encomendadas, fizeram muitos recitais e concertos em petit comité, ou seja, em circuito fechado. E sabem a que ela atribui o florescimento formidável dos salões da alta burguesia como local privilegiado da vida musical francesa por setenta anos-chaves para música moderna? À ausência de uma política musical definida do Estado, ao abandono sistemático do poder público à vida musical, sobretudo à música nova que forjava as revoluções estéticas do século XX.

Falamos tanto da necessidade de democratizarmos o acesso da população à música. Mas, como na França das primeiras décadas do século 20, no nosso Brasil deste início de século XXI a ausência de uma política cultural sólida e clara – sobretudo no universo da música clássica, de concerto e/ou de invenção – provoca apenas o florescimento de guetos reafirmando o elitismo de uma música que, por seus sons, deseja alcançar todos os ouvidos. Aqui com a agravante de que o sistema de ensino fundamental e médio simplesmente ignora a música de invenção, é mal e porcamente administrado em aulas que de música só têm mesmo o nome na grade curricular.

Por isso, qualquer semelhança, neste paralelo histórico, não é mera coincidência, mas vergonhosa semelhança.

Ainda vou mergulhar na leitura do livro. Por ora, fique com o emocionante poema de Drummond:

Livraria

Ao termo da espiral
que disfarça o caminho
com espadanas de fonte,
e ao peso do concreto
de vinte pavimentos,
a loja subterrânea
expõe os seus tesouros
como se defendesse
de fomes apressadas.

Ao nível do tumulto
de rodas e de pés,
não se decifra a oculta
sinfonia de letras
e cores enlaçadas
no silêncio dos livros
abertos em gravura.

Aquário de aquarelas,
mosaicos, bronzes,
nus,
arabescos de Klee,
piscina onde flutuam
sistemas e delírios
mansos de filósofos,
sentido e sem-sentido
das ciências e artes
de viver: a quem sabe
mergulhar numa página,
o trampolim se oferta.

A vida chega aqui
filtrada em pensamento
que não fere; no enlevo
tátil-visual de ideias
reveladas na trama
do papel e que afloram
aladamente dançam
quatro metros abaixo
do solo e das angústias
o seu balé de essências
para o leitor liberto.

Carlos Drummond de Andrade
(Poema em homenagem à Livraria Leonardo da Vinci)
In: As impurezas do branco
Editora Record, Rio de Janeiro

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Com Richard Strauss, ópera segue bem em 2018 no Municipal de São Paulo Por Nelson Rubens Kunze (19/6/2018)
Julia Lezhneva: Triunfo barroco na Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (12/6/2018)
Movimento Violão, 15 anos de atividades eternizadas num lançamento de fôlego Por Camila Frésca (4/6/2018)
Dois elencos, duas Traviatas Por Jorge Coli (28/5/2018)
Uma grande surpresa e um grande concerto para piano Por João Marcos Coelho (25/5/2018)
Suisse Romande: Master class na Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (15/5/2018)
Um matrimônio espirituoso, vivo e musical Por Jorge Coli (8/5/2018)
“Fausto” é novo marco artístico do Festival Amazonas de Ópera Por Nelson Rubens Kunze (7/5/2018)
Clássico em terreno popular: o encantador recital de Cristian Budu na série “Tupinambach” Por Camila Frésca (3/5/2018)
Um "Faust" digno dos grandes teatros internacionais Por Jorge Coli (2/5/2018)
Verdi futurista aterrissa no Theatro Municipal do Rio Por Nelson Rubens Kunze (30/4/2018)
Cristian, Jamil e OER empolgam o Municipal lotado Por Irineu Franco Perpetuo (30/4/2018)
Ótima "Traviata" estreia em Belo Horizonte Por Nelson Rubens Kunze (27/4/2018)
A Camerata Romeu e a reinvenção da música Por João Marcos Coelho (26/4/2018)
Primeira escuta: Ronaldo Miranda estreia obra com a Osesp Por Nelson Rubens Kunze (25/4/2018)
Oito olhos azuis e muita música Por Jorge Coli (19/4/2018)
‘Missa’ de Bernstein é destaque no Theatro Municipal de São Paulo Por Nelson Rubens Kunze (10/4/2018)
“O Corego” e os primórdios da representação operística Por Camila Frésca (6/4/2018)
Natalie Dessay: uma expressão que transcende as palavras Por Irineu Franco Perpetuo (5/4/2018)
Os Músicos de Capella fazem primorosa ‘Paixão’ de Bach Por Nelson Rubens Kunze (29/3/2018)
A música não mente Por João Marcos Coelho (27/3/2018)
Enfim, uma sede para a Ospa! Por Nelson Rubens Kunze (26/3/2018)
A Osesp, Villa-Lobos e o “voo de galinha” Por João Marcos Coelho (23/3/2018)
Jan Lisiecki: para uma temporada de austeridade, um pianista nada austero Por Irineu Franco Perpetuo (14/3/2018)
“Lo Schiavo” em Campinas: encantamento e melancolia Por Jorge Coli (12/3/2018)
Villa-Lobos, a Semana de Arte Moderna e o Brasil Por Camila Frésca (8/3/2018)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Junho 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
27 28 29 30 31 1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
 

 
São Paulo:

26/6/2018 - Geneva Camerata e Pieter Wispelwey - violoncelo

Rio de Janeiro:
21/6/2018 - Luis Bomfim - voz e Regina Lacerda - piano

Outras Cidades:
22/6/2018 - Ribeirão Preto, SP - Semana Minaz de Corais
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046