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Festival de Ópera do Theatro da Paz encena “Otello”, de Verdi (30/9/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Otello, estreada em 1887 no Teatro alla Scala de Milão, é uma das obras-primas de Verdi e, por extensão, uma das obras-primas do gênero em todos os tempos. Baseada no drama de Shakespeare, a ópera tem libreto de Arrigo Boito e conta a trágica história do governador de Chipre que, enganado pelo cruel e ambicioso Iago, assassina, cego de ciúmes, a própria esposa, Desdêmona. Ao descobrir a verdade, Otello se apunhala pondo fim à própria vida.

E a ópera Otello foi o terceiro e último título encenado nesta 13ª edição do Festival de Ópera do Theatro da Paz, que acaba de se encerrar em Belém do Pará. Destaque da apresentação do dia 24 de setembro foi o barítono brasileiro Rodrigo Esteves, que fez uma ótima interpretação de Iago (Rodrigo, aliás, deverá fazer o mesmo papel na produção de Otello que o Theatro Municipal de São Paulo planeja para o início do ano que vem). Com sua bela voz, de amplo e equilibrado registro, Rodrigo encarnou o vilão com cuidadas inflexões interpretativas e rica paleta tímbrica.


Gabriela Rossi (centro) e Walter Fraccaro (à direita) como Desdêmona e Otello [fotos: Elza Lima /divulgação]

O mouro Otello foi cantado pelo tenor italiano Walter Fraccaro (o cantor estará em São Paulo em outubro para cantar no Pagliacci do Theatro Municipal). Ainda que o artista tenha enfrentado o papel – um dos mais desafiadores do repertório – com a competência de sua larga experiência, ele ficou a dever um maior peso dramático. O terceiro personagem chave da ópera, Desdêmona, esteve a cargo da jovem soprano paulistana Gabriela Rossi. Dona de voz privilegiada, Gabriela dominou suas intervenções com segurança, embora ainda lhe falta desenvolver plenamente seu potencial vocal e cênico.

A ópera contou também com as participações de Ana Victoria Pitts (Emilia), Antônio Wilson Azevedo (Cássio), Andrew Lima (Rodrigo) e Andrey Mira (Montano), com destaque especial para o Ludovico, embaixador veneziano, feito pelo sempre excelente baixo Sávio Sperandio.

Dirigida por Mauro Wrona, o Otello do Theatro da Paz teve uma concepção cênica abstrata e fluente, que privilegiou de modo eficaz a narrativa. A montagem apoiou-se em um cenário único (Duda Arruk), que ganhava novas feições por meio de deslocamentos de peças modulares e uma eficiente iluminação (Wagner Antônio). As diferentes cenas ainda se distinguiam por volumes geométricos, como esferas ou prismas. A solução, se foi bonita e eficiente em sua funcionalidade, resultou, ao longo do espetáculo, em certa monotonia. É verdade, porém, que no quarto ato, com uma cama espelhada – o leito de morte –, a encenação ganhou uma renovada dinâmica teatral.


O leito de morte de Desdêmona, no quarto ato, renovou a dinâmica teatral da montagem de Mauro Wrona

Se no geral a produção desta montagem de Otello me pareceu mais modesta que as montagens anteriores que assisti em Belém, o mesmo não ocorreu com a performance musical. Dirigida pelo maestro Silvio Viegas, regente titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi muito bom o desempenho da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, do Coral Lírico e do Coral Infanto Juvenil Vale Música.

Encerro esta minha resenha de Belém, como sempre, maravilhado com a espetacular acústica desse incrível Theatro da Paz. É uma felicidade ver esta centenária casa tomada pela ópera e, mais importante, lotada pelo público paraense. Oxalá se mantenha no futuro o importante impulso que o Festival de Ópera do Theatro da Paz experimentou nesses últimos anos.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belém e assistiu a Otello a convite do Festival de Ópera do Theatro da Paz.]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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