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Músicos Sem Fronteiras: reabilitando vidas por meio da música (2/10/2014)
Por Camila Frésca

Muitos conhecem o trabalho incrível que a organização Médicos Sem Fronteiras realiza ao redor do mundo, ajudando a diminuir o sofrimento de populações vivendo em áreas de extrema pobreza ou devastadas pelas guerras. Poucos sabem, no entanto, que existe um projeto similar no qual o trabalho humanitário é realizado por meio da música: é o Músicos Sem Fronteiras (Musicians without Borders) organização não governamental e internacional criada em 1999 na Holanda pela musicista norte-americana Laura Hassler.

Além de musicista, Hassler era uma ativista pacifista e conta que, em 1999, logo após reger um concerto coral, lhe ocorreu a ideia de criar uma organização que pudesse combinar suas duas ocupações para ajudar pessoas afetadas pela guerra. Nascia assim o Músicos Sem Fronteiras (MWB), cujo trabalho consiste em usar o poder da música para aliviar traumas e promover reconciliação em regiões arrasadas por guerras e conflitos. O primeiro concerto aconteceu ainda em 1999, em Kosovo, no final da guerra. A ideia é de que a música pode reduzir os efeitos relacionados à guerra e aproximar comunidades que se encontram separadas através da experiência do fazer musical. Detalhe importante: trata-se de fazer música e não apenas escutar passivamente.

Os projetos são desenvolvidos em colaboração com músicos locais e organizações da sociedade civil, e as experiências bem sucedidas são usadas para desenvolver modelos, metodologias e treinamentos para o uso em outras regiões. Atualmente, a entidade desenvolve projetos em Ruanda, Uganda, Cisjordânia, Kosovo e Bósnia-Herzegovina, entre outros. Fabienne van Eck, violoncelista, é uma das supervisoras do projeto Sons da Palestina (Sounds of Palestine), baseado no El Sistema e que envolve cerca de 200 crianças que vivem em campos de refugiados na Palestina. Veja no vídeo abaixo (em inglês):

Num depoimento publicado recentemente, Fabienne conta que o objetivo é ensinar as pessoas a fazer música e utilizá-la como um elemento em seu dia a dia. Ela ensina de crianças pequenas a adultos a trabalhar com a voz, percussão corporal ou até mesmo reger – neste caso, o aluno conduz a forma com que ela toca uma música no violoncelo. Ela ouviu de um garoto de 19 anos que ele ficava aterrorizado pelo barulho das bombas durante a Segunda Intifada, até que passou a imaginar que se tratava de sons de percussão. “É difícil dizer quão efetivo nosso trabalho é. Os pais dizem que seus filhos mudam de comportamento e melhoram seu desempenho escolar”, ela conta. “Tentamos nos certificar de que cada workshop seja parte de um projeto contínuo e adequado às necessidades da comunidade. Sustentabilidade é nossa principal preocupação, mas nunca sabemos o que irá acontecer no dia seguinte. Nós adiamos workshops, se necessário, mas nunca cancelamos – é importante mostrar aos participantes que estamos sempre lá para eles.”

Para Laura Hassler, o poder da música se sobrepõe a diferenças culturais, linguísticas e religiosas: “Quando as pessoas estão criando música juntas, num mesmo espaço, esta se torna seu único foco e elas se esquecem de todo o resto”. Além do objetivo imediato de utilizar a música como uma espécie de alívio e reconciliação, o MWB tem a intenção de usá-la como um elemento sustentável de mudança a longo prazo. Para isso eles treinam pessoas da comunidade que se tornam agentes capazes de dar continuidade ao projeto. No site da entidade é possível fazer doações e conhecer detalhes de cada um dos projetos do Músicos Sem Fronteiras (www.musicianswithoutborders.org). Vale conferir ainda este tocante vídeo (também em inglês) feito em Ruanda, onde a organização desenvolve um projeto com crianças, a maioria infectada com HIV:

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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