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A Lady Macbeth de Anna Netrebko e um concerto de Max Bruch (6/10/2014)
Por João Luiz Sampaio

Uma boa medida da fama alcançada por um cantor talvez seja a repercussão que atividades que poderiam ser consideradas naturais, como o acréscimo de um novo papel em seu repertório, acabam provocando. Na semana passada, por exemplo, a soprano russa Anna Netrebko fez sua estreia norte-americana como Lady Macbeth, na ópera de Verdi, no Metropolitan Opera House, de Nova York. E as récitas foram antecedidas por muitos comentários na imprensa local, sempre em torno de uma mesma pergunta: ela pode ser a grande soprano da atualidade, mas será que dá conta?

Netrebko está ampliando seu repertório em direção a papeis mais pesados. Em Salzbugo, este ano, cantou Leonora, no Il trovatore, também de Verdi (Irineu Franco Perpetuo esteve lá e comentou a atuação em texto publicado também aqui no Site CONCERTO). E, agora, Lady Macbeth, um papel temido, conhecido como destruidor de vozes, já encarnado até por mezzos como Shirley Verrett e Grace Bumbry.

Netrebko dá conta? E como! Não se trata apenas do desempenho em cada uma das três árias que pontuam a atuação da personagem, nas quais ela se sai bem tanto nas passagens mais agudas quanto naquelas em que os graves são amplamente exigidos. O grande trunfo da interpretação é sua fidelidade ao estilo de canto verdiano – e isso também significa estar atenta à transformação da personagem, que se revela não apenas no texto, mas no modo como a música passa a acompanhá-lo.


Anna Netrebko como Lady Macbeth, na montagem realizada pelo Metropolitan Opera House [foto: divulgação]

Macbeth é uma ópera de transição, entre a tradição do bel canto e novos caminhos trilhados por Verdi em direção a um drama mais orgânico. O fato do compositor ter retornado à partitura para revisá-la explicita essa dualidade de forma bastante clara. O que exige dos intérpretes uma atenção especial ao estilo – e, além de Netrebko, a atuação de Zeljko Lucic como Macbeth o coloca em definitivo na lista dos grandes barítonos verdianos de nossa época. Assim como a leitura de Fabio Luisi, clara, fluente, ajuda a entender os motivos pelos quais o maestro, que já é titular do Metropolitan, é o candidato natural ao posto de diretor artístico no lugar de James Levine. Ter o baixo René Pape como Banquo é um luxo – e em um panteão de grandes cantores como esses, o excelente tenor Joseph Calleja acaba ficando até um pouco apagado no curto, ainda que importante, papel de Macduff.


Assisti ao Macbeth na récita de sábado, dia 27 de setembro. E, quatro dias depois, na quarta-feira, acompanhei a noite de abertura da temporada do Carnegie Hall. No palco, a Filarmônica de Berlim regida por Simon Rattle, tendo a violinista Anne-Sophie Mutter como solista. No programa, as Danças sinfônicas de Rachmaninoff, o Concerto para violino nº 1 de Bruch e as cenas finais do Pássaro de Fogo, de Stravinsky – pouco mais de uma hora de música, interpretada sem intervalo.

 
Mutter e Rattle à frente da Filarmônica de Berlim, no Carnegie Hall [foto: Rob Davidson/divulgação]

Ver um grupo como a Filarmônica de Berlim, em certa medida, é voltar ao básico, é se dar conta de algumas obviedades a respeito do que faz uma grande orquestra. À personalidade indiscutível de cada naipe se soma uma clara identidade de conjunto. O que, na prática, sugere um equilíbrio sonoro que permite ouvir tudo, cada detalhe de uma interpretação que, no Rachmaninov e no Stravinsky, se preocupa em extrair novas leituras que nascem de uma atenção especial aos detalhes das partituras.

O que mais me impressionou, no entanto, foi o Concerto de Bruch. Não apenas pela interpretação de Anne-Sophie Mutter, que cria um mundo totalmente seu, com andamentos flexíveis que marcam cada movimento de forma clara e, ainda assim, oferecem uma visão de conjunto. Mas também, e principalmente, pela maneira como ela foi acompanhada por Rattle e a filarmônica. Convenhamos: quantas centenas de vezes essa orquestra deve ter acompanhado os maiores violinistas do mundo no Concerto de Bruch? Mas eles nos iludem direitinho: e, ali, parecia que a peça ganhava vida pela primeira vez. Coisa rara, que você pode ouvir aqui.

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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