Banner 180x60
Boa tarde.
Domingo, 22 de Outubro de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
André Heller-Lopes fala sobre “Rigoletto” (16/10/2014)
Por João Luiz Sampaio

No dia 18 de outubro, uma nova produção de Rigoletto, de Verdi, sobe ao palco do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. À frente da Sinfônica de Minas Gerais, estará o maestro Marcelo Ramos, que comanda um elenco formado por cantores como os barítonos Devid Cecconi e Rodolfo Giuliani, os tenores Giovanni Tristacci e Jan Nardotto e as sopranos Gabriella Pace e Lina Mendes. Quem assina a concepção cênica é André Heller-Lopes, que, pouco antes do início dos ensaios, falou à Revista CONCERTO sobre suas ideias para a produção.


Como você definiria a principal contribuição de Giuseppe Verdi à história da ópera? E, nesse contexto, como vê o Rigoletto especificamente?
 
Eu diria que, majoritariamente graças a Verdi, a sociedade burguesa do século XIX entra na ópera. Gradativamente, e ao longo de toda sua carreira (tendo o trio Rigoletto, Trovatore e Traviata como eixo central), Verdi abandona a forma musical tripartita (recitativa-ária-cabaletta) e as formas da ópera do bel canto, da mesma forma que abandona uma estrutura dramática centrada nas tragédias e grandes dramas envolvendo figuras históricas, prioritariamente nobres. Com isso, dá-se uma renovação na parte teatral que, junto com o que faz Wagner, faz nascer a toda ópera moderna. Verdi não é o inventor desse drama burguês, assim como Wagner não inventou o leitmotiv, mas o fato de que compositores tão célebres, durante suas vidas, abraçaram esta “causa” foi decisivo. Se há uma coisa que eu aprendi com o Anel brasileiro no Theatro Municipal de São Paulo, ou com o Tristão do Festival Amazonas de Ópera, foi que Verdi e Wagner são muito similares em suas contribuições; eles não são antagonista, mas sim complementares, quase cúmplices.
 
Rigoletto faz parte do ”trio de ouro” da produção verdiana e marca um ponto de mudança. Verdi deixa definitivamente para trás o que ele mesmo chamava de “anos nas galés”, onde produzia sem cessar e sem ter a palavra final sobre as condições artísticas. Na vida de todo artista, chega o momento de maturidade em que ele quer ter opinião, em que passa de executor de um modelo para criador e intérprete – e nenhuma artista chega a esse ponto incólume. O teatro de Verdi (como de grande parte da ópera romântica italiana) gira ao redor de um tema: a capacidade do ser humano em manter-se digno face a um destino adverso. Mesmo as óperas inspiradas em Shakespeare, que são um caso à parte, pela força da obra teatral que lhes deu origem, isso está presente. Em Attila ou Nabucco esse traço já existe, como existirá em Don Carlos ou La forza del destino – o que muda é que o aspecto humano do amor impossível de Elisabeth ou o ciúme de Eboli, no Don Carlos, por exemplo, são mais fortes que o fato das personagens serem nobres.
 
Rigoletto, que ainda conta com duas cabalettas e com muito da escrita do bel canto, diga-se de passagem, já tem estes traços profundamente humanos. É o drama burguês (mas não da forma como entendemos burguesia hoje em dia). É a história de um homem corroído pelo ódio e pelo medo e cuja existência é trágica (ele faz de tudo para evitar que aconteça exatamente o que acontece, no melhor estilo grego), mas também a história de um homem que tem poder e o usa de forma irresponsável, sem se preocupar com as consequências dos seus atos. É a história de um assassino – mas um assassino que mantêm um código de ética – e de sua irmã – que apesar de uma “decaída”, é uma mulher que também se arrisca por amor. Finalmente, é a história de uma moça cujo desejo de liberdade, de ser alguém, de ter um nome, a destrói. O circo, assim, está armado – e por isso mesmo optei por uma atmosfera de um circo macabro para esta nova encenação da obra, que mantém sua ligação com o drama original de Victor Hugo, com a Paris do século XIX ao invés de Mântua, mas que investirá mais na ideia de que a língua que ri é como a faca que mata – palavras do próprio Rigoletto na ária Pari siamo.
 
Ao longo de sua carreira, você tem dirigido um leque amplo de obras, de pilares do repertório a novas óperas, passando por títulos menos conhecidos. A obra a ser dirigida interfere no modo de trabalhar ou o processo de criação é o mesmo?
 
Sim, definitivamente sou cada vez mais camaleônico, e meu modo de trabalhar muda de acordo com a obra, com o espaço e com o público. Eu me importo com quem está do outro lado, é ruim se a comunicação entre o que eu sinto e o que eu quero traduzir com meu trabalho não funciona. Sem generosidade não há arte e eu sou profundamente comprometido com a ideia de dividir. Dividir cultura, sucesso, ideias, emoções etc. Eu trabalho acreditando numa mistura profunda de estudo e inspiração. O estudo vem em grande parte da bagagem que se acumula ao longo dos anos; pode-se ler uma ou outra coisa nova para uma determinada obra que você foi convidado a dirigir, mas se você não conhece o repertório ou não fala um determinado idioma, seu trabalho será de correr contra o tempo. É como um cantor que tem de ter todas as notas, ter domínio da técnica, ou um maestro que tem de saber ouvir cada instrumento. Antes das duas óperas do Anel brasileiro no Municipal de São Paulo eu nunca tinha usado de verdade elementos brasileiros nos meus espetáculos, conhecia um pouco e me interessava pelas histórias do nosso folclore, mas foi só quando senti que fazia sentido utilizá-las é que fui estudar. E, estudando esse novo universo, percebi que a inspiração que eu tinha era certa. Usar o folclore foi a parte da tal inspiração, que hoje em dia acredito ser muito muito importante para não deixar um trabalho engessado dentro de um pressuposto intelectual. Um Kurt Weill que fiz no Rio em 2000 e o Sansão e Dalila de 2008, também no Municipal de São Paulo, tinham esses traços – e a ópera de Saint-Saëns é de longe o espetáculo que menos gosto dentre as novas produções que fiz em São Paulo.

Você realizou diversas audições para compor o elenco deste Rigoletto. Poderia comentar um pouco sobre como foi esse processo de trabalho?

As audições foram uma sugestão do Palácio das Artes e era natural que eu, como diretor convidado, escutasse e opinasse. Eu particularmente não sou fã de audições e acho que elas provam pouco. Eu prefiro ver a trajetória dos artistas. Infelizmente ainda temos poucos ópera-estúdios que ajudem na transição da universidade e conservatório para os grandes teatros; faltam as óperas de câmera e teatro menores, onde os artistas possam aperfeiçoar-se. Justiça seja feita, eu achei que alguns dos jovens mais bem preparados vieram da Academia de Ópera do Theatro São Pedro de São Paulo. Mas, enfim, audições talvez sejam um “bem inevitável”. Então, como em qualquer teatro sério do mundo, fizemos audições para que o maestro, o diretor e mais uma “banca” escolhessem artistas para os vários papéis. Escolher junto com o maestro tem a ver com a qualidade final do trabalho que se quer alcançar. Dois protagonistas que não têm química vocal e cênica podem ser o túmulo de um espetáculo. Além disso, meu trabalho baseia-se em criar um clima de harmonia, de felicidade. Eu tenho um compromisso com a arte e digo o que penso francamente, doa a quem doer. Mas acho que impor uma disciplina é tão importante quanto investir num clima de grupo e a sensação de que estamos, todos, defendendo uma obra em pé de igualdade, como parte de um time.
 
Fizemos audições e “sessões de trabalho”. As primeiras foram abertas a todo o Brasil, sem distinções. O Palácio das Artes prestigiou sempre que possível os artistas de Minas, mas sem nenhum tipo de bairrismo ou pressão: ganhou quem se apresentou melhor. Mesmo para os papéis maiores, como Gilda e o Duque, foram abertas audições, e destas saíram duas “apostas” do elenco, nossos Duques de Mantua. O Giovanni Tristacci já havia trabalhado comigo em Ça Ira e me impressionou muito. Foi de longe a melhor audição e acho que ele está no momento certo: fez vários papeis maiores e menores em vários teatros, ganhou experiência e agora debuta num grande papel no grande teatro de Belo Horizonte. Quanto ao Jean Nardoto, de Brasília, estou muito curioso para trabalhar com ele. O maestro estava muito animado com ele após a audição e pedimos para que ele retornasse um mês depois com o papel todo, para uma sessão de trabalho. Fez junto com a Lina Mendes, que já tinha cantado o papel de Gilda com grande sucesso no Municipal de São Paulo, tinha feito comigo Ça Ira e encantou Belo Horizonte no Un ballo in maschera do ano passado. É uma profissional jovem e brilhante. Além das audições, sugeri que fizéssemos uma “Arbeitsprobe” ou “working session”, prática comum na Europa: o maestro e o diretor chamam um artista já consagrado para ouvi-lo num determinado papel e ver como este encaixa-se na sua voz e personalidade. Fizemos isso com alguns artistas que têm já uma grande carreira no Brasil e que logicamente dispensam audição, como foi o caso da nossa Gilda do primeiro elenco, a Gabriella Pace. Eu e o maestro Marcelo Ramos não queríamos uma Gilda soprano ligeiro, cheio das tradições de superagudos e ornamentações que nem sequer foram escritas por Verdi. Eu queria uma interprete notável, a melhor, para Gilda. Toscanini, aliás, gravou com a Zinka Milanov e dizia que Gilda deveria ter a mesma voz de Aida! Não chegamos a tanto, mas acho que a personagem fica muito mais crível e mesmo comovente se retornarmos a vocalidade pensada por Verdi, uma voz mais lírica e cheia. Além disso, na Gabriella e na Lina temos também o total domínio de técnica e dinâmicas. Muitas excelentes Gildas se apresentaram e o páreo foi duro e por isso mesmo resolvemos dar a chance a uma jovem talentosa de Minas de ser doppione de Gilda e cantar o pajem. Finalmente, acho que era impensável para a Fundação Clóvis Salgado (e para mim) fazer um Rigoletto sem contar com o Rodolfo Giuliani, que é o intérprete brasileiro do papel de sua geração. Como Belo Horizonte queria oferecer a seu público um artista estrangeiro, escolheu-se também o italiano David Cecconi, que tem cantado o papel por toda Europa. Da mesma forma, eu sugeri que fosse convidada a Denise de Freitas, um artista ímpar no cenário brasileiro, de qualidade internacional, para fazer Maddalena, quase como uma “convidada especial”.

[Rigoletto estreia no dia 18 de outubro no Palácio das Artes, e fica em cartaz até o dia 29]

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

Mais Textos

Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” Por João Marcos Coelho (24/8/2017)
Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (23/8/2017)
O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
Neojiba: o exemplo da Bahia para o Brasil Por Irineu Franco Perpetuo (24/7/2017)
Você conhece José Vieira Brandão? Por João Marcos Coelho (12/7/2017)
Campos do Jordão, Salzburg e a economia da cultura Por Nelson Rubens Kunze (12/7/2017)
Rameau em “dreadlocks” Por Jorge Coli (11/7/2017)
Isabelle Faust, Vadim Repin e Julian Rachlin: sobre expectativas, decepções e boas surpresas Por Camila Frésca (5/7/2017)
Encomenda da Osesp mostra Mehmari maduro Por Irineu Franco Perpetuo (3/7/2017)
Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Outubro 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 31 1 2 3 4
 

 
São Paulo:

30/10/2017 - Ópera Os pescadores de pérolas, de Bizet

Rio de Janeiro:
28/10/2017 - XXII Bienal de Música Brasileira Contemporânea

Outras Cidades:
22/10/2017 - Manaus, AM - Ópera La Traviata, de Verdi
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046