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Naxos: casa da música brasileira (10/11/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

O nome é grego, o dono é alemão, a sede fica em Hong Kong, mas o catálogo anda cada vez mais brasileiro. Para ouvir, curtir e conhecer a música erudita feita em nosso país, o catálogo da Naxos tem se tornado cada vez mais essencial.

A história da Naxos, desde sua criação por Klaus Heymann, em 1987, é por demais célebre para que precisemos repeti-la aqui com detalhes. A gravadora já começou com vocação enciclopédica, prestando atenção na nossa parte do mundo: nos primórdios, seu selo Marco Polo tinha uma série denominada Latin American Classics que contemplava não apenas Villa-Lobos, porém compositores dos quais a discografia era escassa mesmo no Brasil, como Glauco Velásquez, Alberto Nepomuceno, Henrique Oswald e Camargo Guarnieri.

Nos últimos anos, porém, conforme se consolida sua tendência a servir de equivalente sonoro do Dicionário Grove, a Naxos vem engrossando o catálogo não mais com discos isolados, e sim projetos de gravação sistemática do repertório nacional. Tudo começou com a integral das Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos, com a Sinfônica de Nashville, regida por Kenneth Schermerhorn, mas convidando os brasileiros Rosana Lamosa (soprano) e José Feghali (piano). Depois, veio o pianista Max Barros que, após registrar todos os concertos para piano de Camargo Guarnieri, vem empreendendo a integral para teclado do compositor paulista. Isso para não falar da Osesp, que deixou nas mãos seguras e experientes de Isaac Karabtchevsky a interpretação das sinfonias de Villa-Lobos – o próximo item, já anunciado no site da empresa, mas ainda não disponível no mercado brasileiro, é a Sinfonia nº 10. (Na Loja CLÁSSICOS você encontra as gravações da sinfonias 3 e 4, e 6 e 7.)

O que já dá para adquirir por aqui são os dois primeiros volumes da curiosa iniciativa do italiano Andrea Bissoli, intitulada The Guitar Manuscripts, de se debruçar sobre a obra de violão de Villa-Lobos incluindo transcrições, novos arranjos, obras raras e manuscritos até então desconhecidos – veja aqui o volume 1 e o volume 2. The Guitar Manuscripts marca, ainda, a estreia na Naxos da Filarmônica de Minas Gerais que, sob a batuta de Fabio Mechetti, acompanha Bissoli no Concerto para violão de nosso compositor máximo no primeiro volume da série, enquanto, no segundo, executa os Choros nº 6.


Braz Velloso e Andrea Bissoli: resgatando autores brasileiros  pela Naxos [fotos: divulgação]

Esse segundo volume, para dizer a verdade, me deixou algo cabreiro. Nada contra Mechetti ou a filarmônica, que fazem uma leitura muito bela e segura dos Choros nº 6. Eu só fiquei me perguntando por que uma obra puramente orquestral ocupava 25 minutos de um disco que teoricamente seria dedicado ao violão. Enfim, talvez seja implicância de um crítico chato que, por outro lado, achou bastante pertinente, por óbvias questões idiomáticas, que uma cantora brasileira – no caso, Gabriella Pace – tenha sido convocada para interpretar a encantadora Canção do amor da Floresta do Amazonas.

Agora, dois itens que acabei de adquirir, com muito gosto, na Loja CLÁSSICOS foram os discos em que Braz Velloso aborda a música para piano de Leopoldo Miguéz (1850-1902) e Henrique Oswald (1852-1931). Pouco valorizados por intérpretes e musicólogos brasileiros do século XX pela suposta falta de um também suposto caráter “nacional” em sua música, essas figuras-chave do nosso Romantismo tardio vêm sendo gradativamente recuperados pelas gerações mais recentes.

O disco de Oswald repete algumas obras que Maria Inês Guimarães havia registrado, há duas décadas, para a Marco Polo, em um CD atualmente fora de catálogo, como a inescapável Il neige e as Seis peças, op. 14. Portanto, embora as interpretações sejam cuidadosas, e deixem-se ouvir com prazer, do ponto de vista da novidade talvez seja mais atraente o disco dedicado a Miguéz, em que 14 das 16 faixas são primeiras gravações mundiais, lançando uma nova perspectiva sobre o universo do criador do Hino da proclamação da República e dos poemas sinfônicos Ave libertas, Prometeu e Parisina – que, por sinal, alguma orquestra bem que poderia fazer o favor de gravar. Alguém se habilita?

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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