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Um jogo de luzes e sombras (26/11/2014)
Por João Luiz Sampaio

Hector Berlioz estava com 25 anos quando teve seu primeiro contato com Fausto, de Goethe, em uma tradução do poeta francês Gérard de Nerval. A leitura provocou enorme impacto, como ele próprio relembra em suas memórias: “O livro me fascinou de imediato. Eu não podia largá-lo. Eu o lia incessantemente, durante as refeições, no teatro, nas ruas”. Ele logo transformaria o fascínio em música, escrevendo oito peças curtas inspiradas na história. O resultado não o agradou e ele destruiu todas as cópias que encontrou. Mas o personagem não o abandonou e, quase vinte anos mais tarde, reapareceu em A danação de Fausto, uma das obras mais grandiosas – e difíceis de classificar – do compositor, que será apresentada de amanhã (dia 27) a sábado pela Osesp, sob regência de Richard Armstrong; no elenco, Jane Irwin, Michael Spyres, Francisco Meira e Morten Frank Larsen.


Detalhe de retrato do compositor Hector Berlioz feito por Honoré Daumier em 1860 [imagem: reprodução]

A obra está dividida em quatro partes. Na primeira, somos apresentados a Fausto, à figura melancólica de um homem velho e cansado que contempla a beleza da natureza e a energia da juventude ao mesmo tempo que se dá conta da própria mortalidade. Surge, então, na segunda parte, Mefistófeles, que se apresenta como o espírito da vida – e promete ao filósofo algo que ele já não consegue obter: o prazer. Os dois se transportam, no terceiro bloco da ópera, ao quarto de Margarida, e ela e Fausto se apaixonam, celebrando a união em um dueto que, com a chegada de Mefistófeles, se transforma em um trio, no qual declarações de amor se misturam à certeza de que ele se constrói sob o signo da morte. E é ela que vai dominar a última parte, quando Fausto resolve vender sua alma para salvar a amada.

Diversos compositores se dedicaram a musicar a história de Fausto – e, perante uma obra tão repleta de significados, cada um deles selecionou os elementos que mais lhe interessavam. Berlioz fez o mesmo. Por um lado, é preciso ressaltar que ele, quando compôs a Danação, só conhecia a primeira parte do livro. Mas, mesmo com relação ao texto que tinha em mãos, tomou uma série de liberdades, invertendo a ordem cronológica de algumas passagens, trocando a ambientação de determinadas cenas e suprimindo personagens. Essas são mudanças pontuais, mas que sugerem uma alteração mais ampla, revestindo a história, acima de tudo, de um caráter trágico, no qual a redenção é uma possibilidade isolada e improvável.

E isso talvez tenha a ver com a própria personalidade de Berlioz. Seus principais biógrafos parecem concordar que o compositor sentia uma profunda identificação com Fausto, manifestada em diversos elementos: o sentimento de não pertencimento ao mundo, a crença em um amor idealizado que não se concretiza jamais de forma plena, o idealismo, a adoração da natureza, a busca pelo prazer em sensações novas. É nesse sentido que A danação de Fausto é considerada uma das obras mais pessoais de Berlioz – o que diz bastante de um compositor cujo legado artístico foi construído justamente sobre a mistura entre vida e obra.

Ópera ou concerto?
Uma das marcas da música de Berlioz, além da inventividade na orquestração, é o modo como ele brinca com as convenções formais da escrita musical, o que torna difícil a classificação de sua obra. Seu Haroldo na Itália, por exemplo, seria uma sinfonia, um poema sinfônico ou um concerto para viola e orquestra? E o que dizer da mistura de oratório e ação dramática de Romeu e Julieta? É claro, a música em si, como colocada pelo compositor, é mais importante do que a necessidade de classificá-la. Mas a tentativa de entender seus objetivos pautou a percepção que temos da partitura, que é apresentada tanto em montagens cênicas quanto em versões de concerto, como acontecerá na Sala São Paulo.

O próprio Berlioz chegou a manifestar o desejo de não se enquadrar na forma tradicional da ópera romântica, mas reconheceu o caráter da obra ao defini-la como “lenda dramática”. Já um musicólogo como John Warrack chamaria atenção para o fato de que qualquer interpretação da Danação precisa levar em conta que ela é “uma ópera para os olhos da mente, não para o palco”. Seja como for, uma coisa é inegável: a capacidade de Berlioz de, fazendo uso de contrastes e sucessões de atmosferas que se prestam à caracterização das personagens e de seus dramas, criar uma música que nos leva da luz para a escuridão. Em um caminho talvez sem volta.

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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