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Boa produção de “As bodas de Fígaro” encerra temporada do Theatro São Pedro (28/11/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Como é linda a ópera As bodas de Fígaro, de Mozart! Três horas do inspirado gênio musical, com recitativos, árias, duetos, trios e cenas de conjunto em perfeito equilíbrio. Estreada em Viena, em 1786, As bodas inaugura a trilogia cômica com o libretista Lorenzo da Ponte, que ainda nos legou Don Giovanni (1787) e Così fan tutte (1790). Ainda se seguiram A flauta mágica e La clemenza de Tito, as duas últimas óperas de Mozart, ambas de 1791, mesmo ano em que o mestre faleceu (na terna idade de 35 anos).

As bodas de Fígaro é baseada na peça Le Mariage de Figaro, do dramaturgo francês Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799). (Curiosidade: Figaro é o personagem de uma trilogia de Beaumarchais formada pelas comédias O barbeiro de Sevilha, transformada em ópera por Rossini e Paisiello, As bodas de Fígaro e La mère coupable, que também virou ópera, de Darius Milhaud.)

A peça de Beaumarchais havia sido proibida em Viena, mas o habilidoso Da Ponte, para assegurar a realização da ópera, eliminou algumas ofensas diretas à monarquia, sem tirar, contudo, uma forte carga satírica à sociedade.

E na quarta-feira (26/11), no Theatro São Pedro, já a interpretação da inspirada abertura da ópera de Mozart na regência do maestro Luiz Fernando Malheiro deixou claro que a verve mozartiana e o espírito da época estavam todos lá. Foi muito bem a Orquestra do Theatro São Pedro, que vem crescendo a cada nova produção. E também o Coral Vozes Paulistanas (regência de Nibaldo Araneda) teve boa participação.


As bodas de Fígaro do São Pedro teve direção cênica de Lívia Sabag [fotos: Décio Figueiredo/divulgação]

A direção cênica é da criativa e atuante Livia Sabag. Não é fácil transformar em um teatro orgânico e fluente a sequência de situações um tanto inverossímeis da história. Mas, auxiliada também por engenhosas soluções cênicas – algumas trocas de cena, por exemplo, são feitas diante de nossos olhos –, Lívia logrou um resultado muito convincente, oferecendo também espaço para o desenvolvimento individual de cada um dos personagens. Cenários especialmente caprichados, com utilização de arabescos e motivos mouros, conferiram a ambientação apropriada para uma Sevilha do século XVIII (cenários de Nicolàs Boni). Obrigatório lembrar, também, dos bonitos e bem realizados figurinos (Fábio Namatame).

O elenco reuniu algumas das principais vozes da cena lírica nacional. Em primeiro lugar, o baixo-barítono Rodrigo Esteves, que fez um ótimo Fígaro de cores mozartianas. Rodrigo curte cantar, e a gente curte ouvi-lo cantar – existe conjunção melhor? Susanna foi interpretada pela jovem Carla Cottini, de clara e bonita voz. Após um início um pouco contido, Carla cresceu com personalidade ao longo do espetáculo. Os experientes artistas Homero Velho e Rosana Lamosa fizeram o casal conde e condessa, em ótima atuação. Rosana foi protagonista, junto com Carla, de um dos momentos mais emocionantes da ópera, o bonito dueto da condessa com Susanna no terceiro ato. Vale notar, contudo, que Rosana, por conta de um caráter mais dramático, destoou vocalmente um pouco do resto do elenco solista, especialmente em suas intervenções solo.


A ópera de Mozart foi a primeira produção do maestro Malheiro como diretor artístico do Theatro São Pedro

Foi muito bom o Cherubino de Luisa Francesconi, que arrancou aplausos do público. Luisa tem uma linda voz e convenceu pela espontaneidade de sua interpretação. Giovanni Tristacci e Sávio Sperandio, respectivamente Don Basilio e Don Bartolo, também mostraram interpretações bem acabadas. Já Caroline Jadach, que fez Marcelina, teve atuação melhor em suas intervenções cantadas, evidenciando algumas irregularidades nos recitativos. Merecem destaque ainda os cantores Aymée Wentz (Barbarina) e André Rabello (jardineiro). (Caroline, Aymée e André são promissores integrantes do projeto da Academia de Ópera do Theatro São Pedro.)

Este título encerra a temporada lírica 2014 do Theatro São Pedro, que ainda teve a remontagem O menino e a liberdade, de Ronaldo Miranda, Ifigênia em Táuris, de Gluck, Las horas vacías, de Ricardo Llorca, e a ótima Artemis, de Nepomuceno. Em junho passado, a Secretaria de Cultura e o Instituto Pensarte (gestor do teatro) promoveram uma importante reestruturação na direção da casa, nomeando Clodoaldo Medina e Luiz Fernando Malheiro respectivamente diretor executivo e artístico do Theatro São Pedro. Esta ópera de Mozart é a primeira que Malheiro rege na condição de novo diretor da casa (em 2012, Malheiro já tinha dirigido, como convidado, uma boa produção de Werther, de Massenet).

Sem dúvida, esta As bodas de Fígaro é um espetáculo bem acabado, que se insere na linha de qualidade ascendente das produções do Theatro São Pedro. Com Luiz Fernando Malheiro e o apoio da Secretaria de Cultura, são ótimas as perspectivas para o futuro do Theatro São Pedro.

[A atual montagem de As bodas de Fígaro pode ser avaliada no Ouvinte Crítico. Participe!]

[Clique aqui e confira a nova temporada 2015 do Theatro São Pedro]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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