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“Tosca”, de Puccini, fecha grande ano do Municipal (3/12/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Dá para gostar, dá para não gostar, mas uma coisa é certa: as montagens do Theatro Municipal de São Paulo estabelecem uma nova dimensão de produção lírica no Brasil. Os grandes títulos se sucedem, eventualmente com outros maestros ou diretores, mas todos garantem um alto nível de qualidade, demonstrando a clara intenção de alcançar resultados que possam ser referenciados em patamares de primeiro mundo.

Tosca, de Puccini, que estreou no sábado dia 29 de novembro para um temporada de 9 récitas, é mais um passo nessa direção. Dirigida por uma equipe formada na sua quase totalidade por estrangeiros, a ópera segue o elevado nível das produções anteriores. Para o papel de Cavaradossi, o Theatro Municipal escalou ninguém menos que Marcelo Alvarez, tenor argentino de reputação internacional. Circulavam rumores de que o cantor estivesse ligeiramente resfriado, e que isso pudesse comprometer sua performance. Não sei. O que sei, é que Alvarez cantou incrivelmente bem, exibindo uma rica paleta de cores e satisfazendo plenamente as expectativas (pelo menos no quesito voz). O maldoso Scarpia foi vivido pelo barítono italiano Roberto Frontali, que também teve um excelente desempenho vocal. Frontali, ao contrário de Alvarez, já se apresenta bem mais à vontade em cena. Floria Tosca foi interpretada pela soprano espanhola Ainhoa Arteta, de brilhante voz, especialmente nas regiões mais agudas. Ótima em cena, Arteta demonstrou grande entrega em suas intervenções e fez uma emocionante interpretação da ária Vissi d’arte. Para o público, foi a melhor – pelo menos a julgar pelo estrondoso aplauso que colheu no fim do espetáculo.


Roma de 1970: Ainhoa Arteta e Marcelo Alvarez como Tosca e Cavaradossi [fotos: Desirée Furoni/divulgação]

A ópera foi dirigida pelo maestro italiano Oleg Caetani (que é filho do maestro Igor Markevitch). Caetani conduziu com grande sensibilidade e senso dramático, obtendo um ótimo resultado. A orquestra e os diversos coros responderam com a necessária agilidade e concentração, atingindo níveis de desempenho bastante elevados.

O também italiano Marco Gandini foi o responsável pela direção cênica desta nova encenação de Tosca (Gandini, que ostenta em seu currículo ter sido assistente de Franco Zeffirelli, assinou também a direção de Aida, no Municipal no ano passado). O diretor optou por transportar a história, que no libreto se passa no ano de 1800, para a década de 1970. Bom, exige uma certa dose de abstração para reconhecer uma Roma de 1970 em um enredo em que diversas trechos se referem a acontecimentos históricos do início do século XIX (os desdobramentos da Revolução Francesa e a batalha napoleônica de Marengo, por exemplo)...

Mas o teatro como um todo funcionou bem, com uma correta direção de atores. Durante todo o espetáculo, um jogo de luz e sombras sublinha os acontecimentos. A cenografia do primeiro ato mostra o interior de uma igreja moderna, em concreto armado, que quando se abre, na parte de trás, revela um painel que lembra os vitrais da Catedral de Brasília. No segundo ato, o diretor divide a cena horizontalmente, para mostrar uma câmara de tortura no subsolo (pena que a iluminação da câmara de tortura estivesse tão escura, que não se distinguia muita coisa). O terceiro ato é dominado por uma grande estátua de anjo e degraus, que saem da parede. E, em consonância com a narrativa, o resultado visual mais impactante foi o dramático suicídio de Tosca.


Em ação como Floria Tosca, Arteta interage com o cenário criado pelo diretor de cena italiano Marco Gandini

Essa Tosca fecha a segunda temporada do Theatro Municipal sob a direção artística do maestro John Neschling. A despeito dos desafios que ainda estão pela frente (vide as recentes contendas de Ministério do Trabalho e Sindicato de Músicos), não restam dúvidas da firme intenção da atual gestão em finalmente dotar São Paulo de um teatro de ópera moderno, que atenda as demandas culturais e sociais do mundo contemporâneo.

[A montagem de Tosca pode ser avaliada no Ouvinte Crítico. Participe!]

[Clique aqui e confira a nova temporada 2015 do Theatro Municipal de São Paulo]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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