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Domínio russo no Concurso BNDES de Piano (8/12/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Prêmios polpudos, badalado júri internacional, ações paralelas de impacto: conforme assinalado por Camila Frésca na matéria de capa da edição de dezembro mês da Revista CONCERTO (disponível aqui para assinantes), nunca dantes na história desse país houve um certame como o Concurso Internacional BNDES de Piano – não por acaso, a única competição brasileira filiada à Federação Mundial dos Concursos Internacionais de Música.

Desde sua criação, em 2009, a competição bienal vem sendo monopolizada por artistas de origem eslava – e, nesta quarta edição, não foi diferente. A numerosa delegação russa trazia nomes como Dmitry Mayboroda, de 21 anos, ao qual a Osesp conferiu status privilegiado na sua temporada comemorativa de 60º aniversário, agraciando-o com recital solo, concerto orquestral e participação na turnê nacional da orquestra. Pois bem: superado pelo brasileiro Cristian Budu no 25º Concurso Internacional de Piano Clara Haskil, em 2013, Mayboroda não foi além da primeira fase na quarta edição do Concurso BNDES – o que, além de testemunhar o elevado nível da competição, talvez devesse suscitar na Osesp alguns questionamentos sobre seus critérios de escolha de artistas.

Acontecida no Theatro Municipal de Janeiro, no último sábado, dia 6, a final da competição teve três concorrentes acompanhados pela Orquestra Sinfônica Brasileira, sob regência de Roberto Minczuk. Neste ano, nenhum brasileiro alcançou a final – quem chegou mais longe foi Leonardo Hilsdorf, paulistano de 26 anos radicado em Bruxelas, onde se aperfeiçoa sob orientação de Maria João Pires. Está na hora de orquestras e teatros brasileiros prestarem mais atenção no talento superlativo de Hilsdorf, único representante nacional na semifinal do concurso, e vencedor do prêmio de melhor intérprete de música brasileira por sua execução de Impressões seresteiras e Festa no sertão, de Heitor Villa-Lobos – compositor homenageado nesta edição do evento, ao lado da pianista Madgalena Tagliaferro.


Os finalistas: Daria Kiseleva (1º lugar), Dinara Klinton (3º) e Dmitry Shishkin (2º) [foto: divulgação]

Não deixa de ter carga simbólica o fato de que, em uma competição que celebra Tagliaferro, o primeiro prêmio ter ficado com uma pianista do sexo feminino, executando um dos cavalos-de-batalha de Magda – o Terceiro concerto para piano de Prokofiev. A russa Daria Kiseleva, de 25 anos, comandou uma performance eletrizante da obra: “Nunca acompanhei esse concerto tão rápido”, confessou-me Minczuk, após a apresentação. E, obviamente, os méritos de Daria transcenderam largamente a questão do tempo escolhido para a peça.

O prêmio do público e o segundo lugar do júri – presidido por ninguém menos do que Stephen Kovacevich – ficaram com o russo Dmitry Shishkin, de 22 anos, que interpretou o Concerto nº 1, de Tchaikovsky – e, pelo que dizem, realizou uma entrega impressionante dos Estudos, op. 10, de Chopin, na semifinal. A sonoridade generosa da ucraniana Dinara Klinton – que, na semifinal, ficou com os Estudos, op. 25, de Chopin, optando também por Tchaikovsky na final – garantiu-lhe o terceiro posto.

Dizem que concurso só é legal para quem ganha – o que pode até ser verdade do ponto de vista dos concorrentes. Da perspectiva do público, quando o nível é tão alto como o que se viu no Rio de Janeiro, concurso é, sim, muito legal. Mal posso esperar pela quinta edição, em 2016.

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou ao Rio de Janeiro a convite da direção do concurso]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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