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Brasil, um país de violinistas? (2/10/2008)
Por Camila Frésca

O Brasil é um país que possui tradição em grandes pianistas. Ao longo do século XX, não foi pequeno o número de instrumentistas brilhantes que arrebatou platéias aqui e no exterior: Magdalena Tagliaferro, Guiomar Novais ou Jacques Klein - este último, aliás, será homenageado no Rio de Janeiro este mês por meio de um festival que reúne ex-alunos seus. Arnaldo Cohen é um desses alunos, o que mostra que a tradição atravessou o século e hoje conta com outros grandes nomes, que têm em Nelson Freire sua estrela maior.

Embora não em tão larga escala, também possuímos uma bela tradição de violoncelistas e violonistas. Mas, e o violino, instrumento que mundialmente só perde em popularidade para o piano e o canto? Ainda que com representantes menos conhecidos e que não alcançaram projeção internacional, o país produziu nomes importantes. Se nos atermos apenas a uma categoria específica de instrumentistas - violinistas virtuoses que também compunham para seu instrumento - encontraremos pelo menos três nomes notáveis.

Um deles é Manuel Joaquim de Macedo (1847-1925), sobrinho do conhecido romancista Joaquim Manuel de Macedo. Totalmente esquecido hoje em dia, Macedo foi compositor, regente e, ao que tudo indica, o maior virtuose brasileiro do violino no século XIX. Estudou no Real Conservatório de Bruxelas com grandes instrumentistas como Hubert Leonard e Henri Vieuxtemps. Acredita-se ainda que tenha se aperfeiçoado com Joseph Joachim – violinista que gozava da mais alta estima de Brahms, que o consultava quando escrevia obras para violino e que a ele dedicou seu concerto para o instrumento – e Charles de Bériot, compositor cujas obras para violino eram extremamente apreciadas no século XIX e início do XX.

Pois Macedo não apenas circulava entre os maiores violinistas de sua época como era por eles considerado um igual. Prova disso é que, indicado por Vieuxtemps, foi spalla do Covent Garden, em Londres. Após nove anos na Europa, voltou ao Brasil e foi nomeado por D. Pedro II mestre da Capela Imperial. A partir dessa época, parece diminuir seu interesse pela performance, ao mesmo tempo em que crescia sua atividade como compositor. Deixou quase 200 obras, para variadas formações e gêneros, como sonatas, fantasias, poemas sinfônicos e uma ópera, Tiradentes. Macedo obteve uma bolsa do governo brasileiro para orquestrá-la na Bélgica, para onde voltou em 1908, permanecendo por muitos anos e retornando ao Brasil já no final da vida. Trechos da obra foram apresentados em 1910 naquele país, sob regência de Alberto Nepomuceno.

Grande violinista que era, Macedo não esqueceu de seu instrumento, escrevendo nada menos do que oito concertos para violino. Até onde sei, nenhum outro compositor brasileiro escreveu tantas obras do gênero para o violino. O violinista Flausino Vale, que foi aluno de um discípulo de Macedo, conta num de seus livros que o compositor teria dedicado o oitavo concerto a Joachim; este, por sua vez, teria desistido de tocá-lo, dada a extrema dificuldade da obra. Vale também afirma, dando notícias de outras de suas obras: "possuo dele [Macedo] dois trabalhos, em manuscrito, para violino e piano, lindíssimos e dificílimos, dignos da assinatura de um Wieniawski: Fantasia sobre a Marta, de Flotow, e Variações sobre temas de Moniuszko".

Infelizmente, nenhum desses concertos para violino está em circulação, e é provável que a maioria esteja desaparecida. Também a biografia de Macedo é feita de muitas lacunas e termos como "parece", "ao que tudo indica" etc. – como os leitores puderam notar neste próprio texto. Assim, é mais do que urgente que pesquisas tragam luz à vida e à obra desse artista de atuação tão relevante.

Falei de três nomes notáveis mas, por conta do espaço, os outros dois ficarão para próximos artigos. São eles Marcos Salles e Flausino Vale, violinistas que compuseram quase que exclusivamente para seu instrumento, com especial atenção para o violino solo. Viveram na primeira metade do século XX, foram amigos e, influenciados pelas correntes nacionalistas, deixaram obras que mesclam folclore nacional à tradição da música de concerto européia.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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