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Em 2014, ótimos lançamentos no mercado brasileiro (30/12/2014)
Por Camila Frésca

Em 2014 me propus a escrever, ao menos uma ver por mês, sobre lançamentos discográficos do mercado brasileiro. A verdade é que muitas vezes isso não foi possível, na maioria dos casos porque havia outros assuntos a abordar que só se justificavam no calor do acontecimento. Assim, aquele CD que deveria ser resenhado acabava indo para a fila de espera... Mas entre este e outros motivos para não ter escrito tanto sobre lançamentos, não se inclui o fato da oferta não ser suficiente – em número e qualidade. Ao contrário: fazendo uma pequena lista que certamente deixou coisas passarem, em 2014 tivemos uma média de dois lançamentos de músicos brasileiros por mês.

Confesso que, no turbilhão de acontecimentos e compromissos do dia a dia, uma pequena pilha desses novos CDs foi se acumulando em minha escrivaninha sem que eu tivesse tempo de dar-lhes a atenção devida. Então, antes de fechar definitivamente as portas de 2014, gostaria de citar esses lançamentos, alguns dos quais já pude ouvir e outros que ainda aguardam uma audição – a pilha de CDs, juro, será conferida, com prazer, neste mês de janeiro.


Capas de alguns dos destaques da grande produção fonográfica brasileira em 2014 [imagens: reprodução]

O projeto Neojiba lançou o CD e DVD Bahia Orquestral, primeiro registro audiovisual de seu principal conjunto sinfônico, a Orquestra Juvenil da Bahia; também em CD e DVD foi lançado o belo projeto Presença de Villa-Lobos, no qual Hugo Pilger e Lucia Barrenechea interpretam peças para violoncelo e piano do compositor – em algumas, Pilger assume o violoncelo do próprio Villa-Lobos, um Martin Diehl de 1779. O disco Só isso e nada mais revelou ao público a faceta de compositor de Olivier Toni, maestro e compositor de trajetória fundamental para a música paulista. O fagotista Fábio Cury realizou duas empreitadas de fôlego: ao lado de Alessandro Santoro, lançou um disco dedicado à Bach, e, num voo solo, regravou as 16 valsas para fagote de Francisco Mignone. Outro que realizou uma empreitada dupla foi o violoncelista Raïff Dantas Barreto, que contemplou o repertório consagrado de seu instrumento com As três primeiras suítes para violoncelo solo de Bach, e a música de seu tempo em Miniaturas brasileiras.

O compositor Glauco Velásquez tem uma grande importância para a música brasileira do início do século XX, mas sua música ainda é pouco conhecida. As duas sonatas que escreveu para violino e piano, no entanto, agora podem ser escutadas em duas gravações: a de Mariana Salles e François Pinel e a de Karin Fernandes e Emmanuele Baldini, que ainda registraram, no mesmo disco, a lindíssima sonata de Leopoldo Miguez. Miguez, aliás, também foi contemplado num lançamento internacional, da Naxos: em Morceaux lyriques, Braz Velloso realiza a primeira gravação mundial de diversas peças para piano do autor. Já em Retrato das Américas, Ovanir Buosi e Horacio Gouveia fazem um passeio pela música de clarinete do continente nos séculos XX e XXI.

A música contemporânea foi contemplada com diversos lançamentos, como Trombone contemporâneo brasileiro, de Carlos Freitas (escrevi sobre o disco aqui); 3+2/SP, do Epifania Piano Trio, que registrou obras de Rodrigo Lima, Mauricio de Bonis, Rodolfo Valente, Marcus Siqueira e Thiago Cury; Quarteto Radamés Gnattali interpreta Ricardo Tacuchian, com a integral dos quartetos do compositor; e Cage+, continuação da excelente série do Selo Sesc no qual compositores brasileiros dialogam com obras consagradas do século XX.

A maioria dos lançamentos citados dedica-se parcial ou totalmente à música brasileira, e este é o caso também de O violão brasileiro, de Flávio Apro, no qual interpreta autores como Ary Barroso, Sergio Assad e Marco Pereira; Ernesto Nazareth, de Nicolas de Souza Barros (leia mais aqui); e o belíssimo Engenho Novo, de Marília Vargas e André Mehmari, que explora o universo da canção brasileira. Vale ainda destacar os trabalhos pessoais Pedra cigana, do violinista Ayran Nicodemo (leia mais aqui), e Ballet de azul e vento, do compositor Alexandre Guerra. Um lançamento totalmente original foi Sonata brasileira, de Antonio Vaz Lemes, primeiro álbum-aplicativo de música clássica. Dedicado às sonatas para piano brasileiras, inclui, além de arquivos de áudio, depoimentos, partituras, resenhas, videoclipes e ensaios fotográficos (mais informações na página do Facebook do projeto).

Os fãs de Nelson Freire não puderam se queixar em 2014: os 70 anos do pianista motivaram uma série de lançamentos internacionais, a começar pelo primeiro volume da integral dos concertos de Beethoven, passando por Radio Days, que recupera registros de rádios europeias, e terminando com a caixa The Complete Columbia Album Collection, com sete discos do início da carreira do artista.

Por último, e não menos importante, é preciso falar da Osesp, um caso à parte. Foram nada menos do que cinco lançamentos: mais um volume dedicado às sinfonias de Villa-Lobos, com a Sinfonia nº 10, pela Naxos; e um registro de Frank Shipway à frente da orquestra em obras de William Walton e Paul Hindemith e a participação do violoncelista Christian Poltéra, para o selo BIS. Pelo Selo Digital Osesp, um disco dedicado à obra de Armando Albuquerque e outro à de Henrique Oswald, com o Quarteto Osesp e Ricardo Castro. E o primeiro volume das sinfonias de Prokofiev, também pela Naxos, no qual a orquestra, regida por sua titular Marin Alsop, interpreta as Sinfonias 1 e 2 – e que acabo de encontrar num envelope, à porta de casa, nesse dia de Natal.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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