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Música e política, ou as relações perigosas (6/10/2008)
Por Leonardo Martinelli

É muito provável que, domingo passado, o caro leitor tenha mudado um pouco sua rotina para comparecer a uma seção eleitoral e fazer seu exercício bienal (ainda que obrigatório) de cidadania política. Passada a ressaca da campanha eleitoral – sujeita a uma "saideira" em caso de segundo turno –, é hora de aproveitarmos o momento e fazermos uma higiene auditiva dos torturantes jingles e das dantescas figuras que pululam no horário eleitoral na TV e no rádio.

Aliás, o caro leitor deve ter notado que praticamente todo candidato realmente empenhado em sua eleição dispensa uma quantia nada insignificante de dinheiro na produção musical de sua campanha, pois tão importante quanto camisetas, bandeiras e santinhos, é uma música que grude na cabeça do eleitor seu nome e número de legenda. Na verdade, um bom jingle eleitoral não tem preço, e não raro a torturante musiquinha será a única coisa que o eleitor lembrará depois do pleito. Por isso, vale tudo, e nesta briga entram tanto jingles novos como aqueles reciclados de melodias pop. Sobrou até para Beethoven, cujas primeiras notas de sua quinta sinfonia foram usadas a torto e a direito pelo finado candidato do igualmente finado Prona.

Na verdade, os jingles das modernas campanhas políticas são uma faceta muito pequena das perigosas relações que a política vem mantendo com a música através dos tempos.

Na Grécia da Antigüidade, o poder conferido à música sobre o comportamento dos homens fez com que ela fosse discutida pelos principais filósofos em termos necessariamente políticos, e se formos analisar os primórdios da música ocidental na Idade Média, veremos o quanto a música foi uma peça importante para a unificação da cristandade européia por meio do que, de forma geral, chamamos de Canto Gregoriano.

A música é uma atividade necessariamente humana, e como tal sua prática ao longo da história está estreitamente relacionada com seu contexto social e com as políticas que agem sobre este contexto.

Porém, modernamente, a relação entre música e política que mais nos chama atenção é aquela na qual a música é utilizada de meio de expressão ideológica. É famoso o caso de Beethoven (novamente ele) e sua terceira sinfonia, a "Eroica", inicialmente dedicada a Napoleão Bonaparte, na época em que o compositor ainda acreditava que o general francês simbolizava os ideais políticos da Revolução Francesa e de tudo o que esta representava. Porém, quando o compositor soube que Napoleão havia se auto proclamado Imperador, imediatamente rabiscou a dedicatória.

Nem sempre, contudo, a relação entre ideologia e música é tão direta ou fácil de detectar. Muitas vezes tal relação se esconde por trás de diferentes mantos, os quais a ópera é especialmente pródiga em fornecer. Tomemos, por exemplo, as "Bodas de Fígaro", que Mozart compôs a partir do libreto que Lorenzo da Ponte fez sobre a peça de teatro de Pierre-Augustin de Beaumarchais. Se superficialmente ela pode ser entendida como uma ópera cômica, o enredo inerente à peça de teatro é uma pesada crítica aos costumes da aristocracia da época. Se o enredo é em si político, a escolha de Mozart por musicá-lo é também uma forma de expressão política, travestida de opera buffa.

Apesar da relação da música com a política permear toda sua história, em nenhum outro período esta relação foi tão intensa, quando não explosiva, como no século XX. Praticamente não houve nenhum grande movimento político-ideológico no qual, de uma forma de outra, música e músicos estivessem ligados de forma bastante íntima. Na antiga União Soviética a música era um assunto de Estado, onde não raro altas autoridades protagonizavam debates artístico-ideológicos com os músicos (vide a tensa relação do compositor Shostakóvitch com o ditador Stálin).

Hitler, por sua vez, fez da música matéria fundamental em sua propaganda política, não só estabelecendo um cânone nazi-fascista, como expurgando toda e qualquer música que estivesse desalinhada de seu ideal musical, conferindo-lhe o carimbo de Entartete Musik ("música degenerada"). E expurgando os músicos também, não poucos deles foram parar na câmara de gás.

Depois da queda do muro de Berlin, a relação entre música e política ganhou contornos ideológicos mais sutis por meio da pena dos compositores. Quando falamos de instrumentistas, regentes e cantores constata-se mesmo a virtual extinção de qualquer direcionamento político-ideológico (quando não estético e estilístico). Atualmente, a relação música-política foi rebaixada à condição de música-politicagem. Onde antigamente se debatiam idéias, hoje se costuram picuinhas, puxadas de tapetes e toda sorte de intrigas palacianas. Em si, tudo isso é um retrato da própria miséria estética que permeia boa parte das atividades musicais contemporâneas. Mas isso já é outra história...





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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