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Grande concerto inaugura Sala Minas Gerais (2/3/2015)
Por Nelson Rubens Kunze

Com uma notável apresentação da Sinfonia nº 2 de Gustav Mahler, a Filarmônica de Minas Gerais inaugurou na última sexta-feira, dia 27 de fevereiro, a Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte. Trata-se de um momento histórico para a música clássica no país: só há uma outra orquestra sinfônica brasileira, a Osesp, dona de uma sede própria e institucionalizada de forma moderna (OK, talvez alguém se lembre de que alguns teatros de ópera no Brasil também possuem orquestras próprias; mas, convenhamos, nenhuma delas cumpre com o “institucionalizada de forma moderna”). Se a Osesp teve de esperar – e muitas vezes amargar – mais de 40 anos até chegar a esse patamar, a trajetória da Filarmônica de Minas Gerais foi bem mais célere (a orquestra iniciou os trabalhos em 2008) e só ascendente, de conquista em conquista. Como realçou em seu discurso o diretor do Instituto Cultural Filarmônica, Diomar Silveira, nesse breve período foram mais de 450 concertos assistidos presencialmente por mais de 600 mil pessoas, dezenas de apresentações em praças públicas e no interior do estado, turnês, programas de formação de público e, também, atenção aos músicos e compositores nacionais.


A Sala Minas Gerais, vista desde o balcão do coro, no concerto de abertura [fotos: Eugênio Sávio/divulgação]

Após os discursos das autoridades – o próprio Diomar Silveira, o presidente da Codemig, Marco Antônio Soares da Cunha Castello Branco (que financiou a construção da Sala Minas Gerais), o maestro Fabio Mechetti, e o Secretário de Estado de Cultura, Angelo Oswaldo de Araújo Santos –, a solenidade seguiu com a execução do Hino Nacional. Todos de pé, cantando, a Sala Minas Gerais ganhava vida como marco físico e material de um dos mais significativos projetos culturais de nossos dias.

O desenho arquitetônico da Sala Minas Gerais, criado por José Augusto Nepomuceno, é muito bonito, em que um amplo palco é circundado por uma plateia aconchegante. Apesar de moderadamente grande, com 1.470 lugares – para efeito de comparação, praticamente o mesmo da Sala São Paulo (1.484) e do Theatro Municipal de São Paulo (1523) –, tem-se a sensação de um espaço intimista. O interior é sóbrio, de linhas limpas, madeira clara e, no alto, paredes brancas em volumes geométricos. As poltronas exibem cores aleatoriamente variadas – cinza, azul e preto –, o que confere à sala ainda mais leveza e uma sofisticada informalidade. Sobre o palco, há rebatedores suspensos de altura variável, que auxiliam na projeção do som. Mas, se a sala é bonita, importante mesmo para a música é que ela apresente boa sonoridade, e esta é a melhor parte: a Sala Minas Gerais tem um excelente potencial acústico, revelando os sons em todas as suas dinâmicas e riquezas – a arquitetura acústica também é assinada por Nepomuceno. Contudo, será necessário ainda encontrar o equilíbrio perfeito para um som que às vezes soou demasiadamente brilhante, com uma claridade às vezes exageradamente cortante a se sobrepor a sutilezas de texturas mais aveludadas.


Fabio Mechetti, Edna e Edinéia de Oliveira em ação na Segunda de Mahler, que estreou a Sala Minas Gerais

Foi excelente a interpretação da monumental Sinfonia nº 2, Ressurreição, de Gustav Mahler, regida de cor – e com zelo – pelo maestro Fabio Mechetti. Participaram o Coral Lírico de Minas Gerais (preparado por Lincoln Andrade) e o Coro da Osesp (preparado por Naomi Munakata). E foi muito boa também a participação das duas solistas mineiras, as irmãs Edna d’Oliveira (soprano) e Edinéia de Oliveira (mezzo-soprano).

O exercício da democracia
Para além do espetáculo artístico – e foi uma grande apresentação! – o projeto da Filarmônica de Minas Gerais enfrenta nesse momento, de maneira pioneira no país, o teste da alternância do poder. Historicamente, os órgãos culturais brasileiros são ligados às secretarias de estado. A Filarmônica de Minas Gerais, contudo, funciona dentro de um conceito de parceria público-privada, em que uma entidade privada sem fins lucrativos (no caso o Instituto Cultural Filarmônica) gerencia um equipamento do estado, obtendo para isso recursos públicos do governo. O modelo, similar ao que administra a Fundação Osesp e grande parte dos equipamentos culturais paulistas, consolidou-se nos últimos 10 anos – por índices de produtividade e pela qualidade dos resultados alcançados – como paradigma de gestão pública no Brasil.

Em Minas Gerais, a Filarmônica de Minas Gerais foi criada nos moldes destas parcerias público-privadas, em administrações do PSDB. Nas eleições a governador do ano passado, a oposição, liderada por Fernando Pimentel, do PT, saiu vitoriosa logo no primeiro turno, levando para a secretaria de cultura Angelo Oswaldo de Araújo Santos, ex-prefeito de Ouro Preto e ex-presidente do Ibram, Instituto Brasileiro de Museus (órgão ligado ao Ministério da Cultura).

Natural que, com um novo governo e uma legítima reavaliação das políticas públicas de cultura, o projeto da Filarmônica de Minas Gerais tenha atraído atenções. Como será que as ações planejadas pela nova gestão impactarão o trabalho da orquestra? Será que o modelo de gestão da parceria público-privada, apoiado em uma organização social profissionalizada, poderá fazer frente a uma das maiores mazelas da cultura nacional, qual seja, a interferência e sobreposição de interesses político-partidários nas reais demandas culturais e artísticas da sociedade? (Note-se que isso não é privilégio de nenhum partido – já houve casos em que a substituição de secretários de uma mesma agremiação política, por conta de interesses, digamos, extraculturais, gerasse grandes prejuízos...) 

Nesse sentido, foi um alento ouvir o novo secretário Angelo Oswaldo defender a cultura mineira e garantir a conclusão ainda em 2015 do Centro de Cultura Presidente Itamar Franco – de autoria dos arquitetos Jô Vasconcellos e Rafael Yanni –, com a finalização das obras da Sala Minas Gerais e a entrega dos prédios da Rede Minas de Televisão e da Rádio Inconfidência. Afinal, digo eu, a repercussão do trabalho da Filarmônica de Minas Gerais, agora em sua nova sala, transcende em muito o interesse de um partido ou a vontade de um governador para, como fruto de uma sociedade moderna e organizada, constituir-se como patrimônio do povo de Minas Gerais e de todo Brasil.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte e assistiu à inauguração da Sala Minas Gerais a convite da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, por meio do Instituto Cultural Filarmônica]

[Nota atualizada às 12h40 do dia 3/3/2015: diferentemente do publicado originalmente, o projeto arquitetônico e acústico da Sala Minas Gerais é de José Augusto Nepomuceno, enquanto Jô Vasconcellos e Rafael Yanni assinam o desenho do Centro de Cultura Presidente Itamar Franco. A nota já foi corrigida]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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