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OSB abre temporada com excelente integral das “Bachianas brasileiras” (10/3/2015)
Por Nelson Rubens Kunze

Com a apresentação em dois concertos (no sábado dia 7 e no domingo dia 8) da integral das Bachianas brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, a Orquestra Sinfônica Brasileira deu início a sua temporada 2015. Os concertos integram a série Rio 450 anos, que, conforme programa, “levam à Cidade das Artes consagrados solistas cariocas e obras de compositores marcados pela cidade”. Não pense que a frase acima encerre algum provincianismo estreito – não no Rio de Janeiro! Esta primeira dobradinha de concertos já é reveladora do caráter cosmopolita da cidade, com um compositor da estatura de Villa-Lobos, uma orquestra de histórico internacional e artistas como o maestro Roberto Minczuk, a soprano Rosana Lamosa e o pianista Jean-Louis Steuerman. Sem falar na Cidade das Artes, casa da orquestra, encravada qual monumento futurista no principal entroncamento viário da Barra da Tijuca.


A Orquestra Sinfônica Brasileira durante a apresentação da integral das Bachianas [fotos: divulgação]

Villa-Lobos escreveu as Bachianas brasileiras nas décadas de 1930 e 1940 (a primeira é de 1930 e a última de 1945). Menos audaciosas e mais acessíveis que os Choros da década de 1920, com as Bachianas Villa-Lobos processa uma certa acomodação de sua linguagem musical em uma vertente de corte neoclássico. Tomando como ponto de partida formas barrocas – por isso o “bachianas” –, o mestre carioca cria obras de grande inventividade melódica, e de ritmos e harmonias muito características. É impressionante a riqueza da malha musical tecida por Villa-Lobos, às vezes cheia de surpresas, contrapontos escondidos e passagens de grande dificuldade de execução, e outras vezes de uma singeleza e beleza desconcertantes. De grande inspiração, o ciclo traz a marca do gênio musical de Villa-Lobos, uma assinatura muito pessoal, que traduz toda aquela “brasilidade” que a ela atribuímos.

O programa da OSB começou no sábado com as duas Bachianas escritas para conjunto de oito violoncelos, a de nº 1 e a de nº 5, esta com uma bonita e tocante participação de Rosana Lamosa. Na segunda parte, a OSB interpretou às Bachianas 8 e 4, ambas para grande orquestra. O programa de domingo apresentou as peças restantes na seguinte ordem: a nº 2, para orquestra (com o Trenzinho do caipira no último movimento); a nº3, para orquestra e piano, com Jean-Louis Steuerman; a nº 6, para flauta e fagote, com uma excelente interpretação dos solistas da orquestra Tiago Meira, na flauta, e Felipe Destéfano, no fagote; a Bachiana nº 9 para orquestra de cordas; e, finalizando o ciclo, a Bachiana nº 7 para grande orquestra sinfônica.


O pianista Jean-Louis Steuerman solou nas Bachianas nº 3, e foi um dos pontos altos da integral

Roberto Minczuk conduziu a OSB em crescente sintonia e interação musical, com sensível musicalidade e competência singular – o maestro regeu quase todo o ciclo de cor! Problemas pontuais em algumas passagens e eventuais deficiências na unidade de alguns naipes foram amplamente compensados por uma leitura de grande organicidade, em interpretações no todo muito consistentes. Absolutamente espetacular foi a participação do pianista Jean-Louis Steuerman, que, em perfeita conjunção com a orquestra, brilhou e fez da Bachianas nº 3 um dos pontos altos de todo o ciclo. A integral encerrou-se de forma magistral, com uma empolgante interpretação da Bachianas nº 7.

Esse ciclo das Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos, sem dúvida marca a temporada musical brasileira, por seu ineditismo e pela excelente interpretação. A performance demonstra a maturidade e competência da OSB e reforça a posição do maestro Roberto Minczuk como um dos grandes regentes brasileiros.

P.S.1: Estava bem ocupada a bela sala de concertos da OSB na Cidade das Artes. Conforme fui informado, seus 1.200 lugares têm sido cada vez mais disputados por um público novo da Barra da Tijuca. A sua configuração “multiuso” atual – o espaço também tem sido usado para musicais e shows – compromete um pouco a acústica projetada para a música sinfônica, resultando em uma sonoridade um pouco seca. Na configuração projetada para música sinfônica, anteparos de veludo seriam retirados e duas torres de camarotes circundariam o palco, ampliando toda a caixa de ressonância do teatro.

P.S.2: As vendas de assinaturas da temporada da OSB encerraram-se ontem. Ainda antes dos números finais, a expectativa era a de que o resultado de vendas tenha sido um dos melhores dos últimos anos.

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu aos concertos na Cidade das Artes a convite da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira.]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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