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O adeus de um grande maestro (23/3/2015)
Por Camila Frésca

Na última sexta-feira, participei na rádio Cultura FM da transmissão ao vivo da despedida do maestro Mariss Jansons como titular da Orquestra da Concertgebouw de Amsterdã (até o dia 19 de abril, o programa pode ser ouvido aqui). Por isso mesmo, ao longo da semana, fiz uma pequena imersão em sua trajetória.

Jansons nasceu na Letônia em 1943, filho da cantora Iraida Jansons e de Arvid Jansons, um importante regente da antiga União Soviética. Começou os estudos musicais aprendendo violino com o pai, e em 1956 se mudou com a família para a então Leningrado (São Petersburgo), pois seu pai era assistente de Yevgeny Mravinsky na Filarmônica de Leningrado. Estudou piano e regência no conservatório da cidade e depois seguiu para Viena e Salzburgo, aprendendo com Hans Swarowsky e Herbert von Karajan. Karajan, aliás, convidou Jansons para ser seu assistente na Filarmônica de Berlim, mas o governo soviético não permitiu que ele aceitasse a oferta. Em 1973, ele se torna regente associado da Filarmônica de Lenigrado e em 1979, diretor musical da Filarmônica de Oslo, onde ficou até o ano 2000, sendo responsável por projetar a orquestra internacionalmente. Jansons também foi ligado à filarmônica e à sinfônica de Londres e à Orquestra de Pittsburg. Em 2003 iniciou seu trabalho como regente titular da Orquestra da Rádio da Baviera, e em 2004 sucedeu Ricardo Chailly na direção da Orquestra do Concertgebouw, posto que deixou oficialmente no último dia 20 de março.


Jansons em sua despedida como titular da Orquestra do Concertgebouw [fotos: Anne Dokter/divulgação]

No final do ano passado, o anúncio de que Mariss Jansons deixaria o posto de regente titular da Orquestra do Concertgebouw pegou de surpresa o meio musical. Hoje com 72 anos, o maestro alegou que é muito esforço para sua saúde permanecer na direção de duas orquestras, por isso decidiu abandonar uma delas mais cedo do que se esperava. Vale lembrar que em 1996, durante o final de uma recita da Bohème, em Oslo, Jansons teve um infarto e quase não resistiu. E que em 1984, seu pai morreu durante um concerto, também de um infarto. Assim, o fato dele querer se poupar um pouco da rotina estressante é mais do que compreensível. O que muitos não entenderam, no entanto, foi porque Mariss Jansons optou por deixar justamente a Concertgebouw, tradicionalíssima orquestra apontada em 2008, pela Gramophone, como a melhor do mundo.

Uma das hipóteses foi a de que, se de fato o maestro buscava diminuir o ritmo, certamente o posto na Orquestra da Rádio Bávara implicava em menos compromissos e dedicação, comparado com uma orquestra absolutamente “estelar” como a Concertgebouw. Mas o próprio Jansons declarou que havia também um motivo político por trás da decisão. Há muitos anos ele luta para que Orquestra da Rádio Bávara tenha sua própria sala de concertos em Munique (sua cidade sede). Ele afirmou que não foi uma decisão fácil deixar Amsterdã mas que, se optasse por deixar a orquestra de Munique seria como uma traição aos músicos, pois ele sabe que sem sua presença dificilmente o projeto irá se realizar. Ter uma sede para a orquestra é um pedido que Jansons faz para o governo alemão desde que a assumiu, em 2003.

Essa informação é preciosa para entendermos um pouco de sua personalidade e de como ele se relaciona com a música. Quantos maestros abririam mão de um posto de extremo prestígio pessoal para ficar com outro – que embora longe de ser desimportante – visasse em primeiro lugar um objetivo comum ao grupo, que trará ganhos à instituição orquestral, muito mais do que a ele mesmo? Essa informação parece se coadunar com a opinião daqueles que trabalharam com o maestro, e que destacam sua simplicidade e seu extremo senso de grupo, privilegiando o trabalho cooperativo. Tais características (além de seu enorme talento, está claro) explicam o extremo carinho com que Jansons foi tratado pela orquestra e pelo público, que lotou seu concerto de despedida.


Como homenagem ao maestro, a orquestra apresentou antes do concerto um retrato de Mariss Jansons

Mariss Jansons foi o sexto regente titular da história da Orquestra do Concertgebouw, apesar de sua fundação datar de 1888. Tradicionalmente, ela estabelece relações duradouras com seus maestros, e o exemplo mais eloquente é o de Willem Mengelberg, que permaneceu à frente do grupo por 50 anos, até 1945. Já foi anunciado que o próximo titular da orquestra é o italiano Daniele Gatti, mas o fato de Jansons ter encerrado seu trabalho como regente titular não significa que ele não voltará a subir ao pódio dessa magnífica orquestra. A próxima colaboração entre ambos acontece já em junho, em oito récitas da ópera A dama de espadas, de Tchaikovsky. O mundo musical agradece.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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