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Angela Hewitt: Bach para o terceiro milênio (8/4/2015)
Por Irineu Franco Perpetuo

A vantagem de morar em uma cidade que conta com uma instituição como a Osesp é que, mesmo quando a qualidade da programação oscila ou a relação entre direção e músicos sofre um desgaste, a temporada ainda reserva alguns recitais que funcionam como oásis de bom gosto e inteligência. Foi o caso, nessa memorável terça-feira, dia 7 de abril, da histórica e inesquecível apresentação da pianista canadense Angela Hewitt.

A vinda de Hewitt a São Paulo coincidiu com a da Academia Bach de Stuttgart (essa, abrindo a temporada de concertos da Sociedade de Cultura Artística), e sua proposta de executar a Arte da fuga, de Bach, acabou, dessa forma, apresentada na mesma semana e sala de outros dois monumentos do Barroco germânico: O messias, de Händel (na segunda-feira, dia 6), e a Missa em si de Bach (hoje, dia 8).


A canadense Angela Hewitt, que apresentou a Arte da fuga de Bach na Sala São Paulo [foto: divulgação]

Essa sucessão de performances altamente inspiradas acaba nos ajudando a relativizar o purismo radical com que por vezes encara-se, hoje em dia, o repertório do século XVIII. Pois é certo que, embora as escolhas interpretativas do regente Hans-Christoph Rademann, da Academia Bach, apontem para a escola “historicamente informada”, os instrumentos do grupo são “modernos”. E, na performance de Hewitt, nada poderia ser mais “moderno” que o uso de um tablet, no qual ela lia os intrincados meandros do contraponto bachiano.

Claro que ninguém aqui vai defender coros a berrar com arroubos de verismo italiano, cordas adotando vibrato wagneriano, palcos lotados como em uma sinfonia de Mahler, ou pianistas cuja “genialidade” serve de pretexto para ignorar as mais elementares regras de ornamentação. O que intérpretes dotados de massa encefálica e conhecimento do métier como Rademann e Hewitt demonstram é como estudo e vivência desse repertório possibilitam um compromisso entre a música de ontem e os recursos de hoje.

Pois se é verdade que um instrumento como o utilizado por Hewitt não existia na época de Bach, também é verdade que não havia uma casa como a Sala São Paulo, nem o recital de piano solo, nem as séries de concerto por assinatura e, aliás, nem a reputação de Bach como o “pai fundador” da música ocidental. O renome de Bach como uma espécie de Shakespeare da música foi uma construção a posteriori, iniciada do século XIX, justamente com o deslocamento de suas partituras das igrejas e palácios, para as quais inicialmente haviam sido concebidas, na direção das salas de concerto – que ele nem chegou a conhecer. Obras-primas como a Missa em si e a Arte da fuga jamais receberam apresentação pública na vida do compositor, e só ganharam status de cânones do repertório muito tempo depois de seu falecimento.

O caso da derradeira e inacabada partitura de Bach, Arte da fuga, é ainda mais dramático, pois o compositor escreveu simplesmente a música, sem indicação instrumental. Talvez tenha sido apenas um exercício intelectual, especulativo – e, nesse caso, a única leitura realmente “autêntica” da partitura seria a feita em silêncio, no aconchego do lar, para si...

Dessa forma, devo confessar que enfrentei com certo receio os 16 graus que, à falta de palavra melhor, os paulistanos optamos chamar de frio para me deslocar até a Sala São Paulo. Não que duvidasse das credenciais de Hewitt – em 2011, saí maravilhado de sua performance das Variações Goldberg, de Bach, também dentro da programação de recitais da Osesp. Minha dúvida era, simplesmente, se um recital de piano solo com a Arte da fuga tocada na íntegra, sem intervalo, não seria árduo demais.

Pobreza de espírito de minha parte. Se, nas páginas da Revista CONCERTO de novembro último (disponível aqui para assinantes), Hewitt defendeu de forma veemente sua decisão de tocar e interpretar a obra-prima bachiana, no palco da Sala São Paulo foi ainda mais convincente. Sua imersão no contraponto de Bach é a mais perfeita cristalização de décadas de imersão no universo musical do compositor e, assim como talvez tivesse sido temerário realizá-la prematuramente, seria um desperdício não fazê-la agora.

Hewitt é a mais clarividente dos guias, com uma sonoridade cristalina que funciona como o fio de Ariadne em meio ao complexo labirinto bachiano. Ela parece saber o tempo todo, com naturalidade, que voz do contraponto priorizar e, além disso, enxerga e constrói um arco dramático em cada fuga – longe de exercícios áridos, cada uma delas soa como um elaborado discurso sonoro, em que ao adensamento de texturas corresponde uma intensificação retórica do pathos. Hewitt finaliza algumas das peças de forma realmente arrebatada, fazendo uma sonoridade “cheia” e, em alguns casos, até “romântica” suceder, com aparente naturalidade, um toque refinadíssimo e transparente que evidenciava cada detalhe dos ornamentos.

E, por falar em retórica, a pianista opta por um gesto teatral para concluir uma peça que a vida não deixou o compositor finalizar. Depois de tocar a última nota escrita por Bach para a última fuga, ela fica com os braços no ar, como que encarnando a suspensão da música, para, após um silêncio, atacar o coral Wenn wir in höchsten Nöten sein “Vor deinen Thron tret ich hiermit” – incluído por Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) na primeira (e póstuma) edição da Arte da fuga e que, de acordo com a lenda, teria sido ditado por Johann Sebastian em seu leito de morte. A história pode ser apócrifa, mas a eficiência da solução de Hewitt é inegável. Sua execução da Arte da fuga tem vocação para ser uma daquelas apresentações que a gente relembra e comenta com saudades por anos a fio. Obrigado, Angela!

[Angela Hewitt ainda atua como solista da Osesp dos dias 9, 10 e 11 de abril]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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