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Bach no século XXI (16/4/2015)
Por João Marcos Coelho

É incrível como Bach dominou o primeiro quadrimestre da vida musical brasileira em 2015. Primeiro, com o lançamento do maravilhoso e monumental livro sobre as Cantatas, de Alfred Dürr, em primorosa edição brasileira. Em seguida, com execuções de obras raras de se assistir ao vivo, da Arte da fuga, com Angela Hewitt, e da Missa em si menor, com a Academia Bach de Stuttgart, liderada por Hans-Christoph Rademann, excelente sucessor do grande Helmuth Rilling. Bach avança até pelo quinto mês do ano, com o pianista francês Pierre-Laurent Aimard misturando prelúdios e fugas do Cravo bem temperado com obras do húngaro contemporâneo György Ligeti.

O fato é que, se a música clássica tem um pai fundador legitimado por todos os compositores que o sucederam nos últimos três séculos, este é sem dúvida Johann Sebastian Bach. De Beethoven a Stravinsky, de Mozart a Debussy, e de Brahms a Arnold Schönberg, todos, sem exceção, reverenciaram seu gênio maior.


Johann Sebastian Bach, em detalhe do famoso retrato de Elias Gottlob Haussmann [imagem: reprodução]

Mais do que respeito, porém, o sentimento que une todos estes nomes é a constatação de que Bach foi mais do que decisivo em todos os gêneros musicais que praticou. Ele abriu para o futuro um mundo aparentemente infinito de possibilidades criativas, ainda hoje não esgotado.

Ao longo da minha vida profissional de jornalista dedicado à música, colecionei frases sobre Bach. Podem chamar de mania. Mas que elas são muito saborosas, isso lá são. Compartilho treze delas com vocês:

1. Durante esta semana ouvi três vezes a Paixão segundo São Mateus do divino Bach e a cada vez com o mesmo sentimento de infinita admiração. Quem desaprendeu totalmente a cristandade tem a chance de ouvi-la aqui como um evangelho.
Friedrich Nietzsche (1844-1900)

2. Bach, o deus da música! A beleza do andante do Concerto para violino de Bach é tamanha que ficamos realmente sem saber em que posição sentar e como nos comportarmos para ser dignos de ouvir o que estamos ouvindo. Ela permanece em nossos sentidos e quando ganhamos a rua ficamos admirados por o céu não ser mais azul e o Partenon não estar ali, bem diante de nossos olhos.
Claude Debussy (1862-1918)

3. Bach: um gênio esmagador. Se Beethoven é um milagre da humanidade, Bach é um milagre de Deus!
Gioacchino Rossini (1792-1868)

4. É lamentável que você não tenha podido estar presente ontem à apresentação da Missa em si menor. Estou certo de que você jamais teve a oportunidade de vivenciar algo tão grandioso e sublime. Custa-me acreditar que algo assim tão sublime e tão tocante possa ter sido obra de um homem.
Johannes Brahms (1833-1897)

5. Se todas as obras-primas da música desaparecessem e a nós só restasse o Cravo bem temperado, poderíamos reconstituir com base nele toda a literatura musical perdida. O Cravo é o Velho Testamento, as sonatas de Beethoven, o Novo. E em ambos temos de crer.
Hans von Bülow (1830-1894)

6. Ele é mesmo o maior dos mestres!
Richard Wagner (1813-1883)

7. O milagre de sua polifonia é algo sem precedentes, não apenas para sua época, mas para todos os tempos (...). Não sou capaz de traduzir em palavras tudo o que tenho aprendido e continuo aprendendo com Bach (naturalmente, como uma criança sentada a seus pés): pois meu jeito inato de trabalhar é bachiano.
Gustav Mahler (1860-1911)

8. Eu me apego a elas como se fossem a coisa que me é mais querida na vida. As Suítes para violoncelo de Bach são para o violoncelista o mesmo que a Bíblia para um crente.
Mstislav Rostropovich (1927-2007)

9. Pela manhã, para começar o dia, preciso de Bach mais que de comida e água. E tem de ser Bach. Preciso de perfeição e alegria.
Pablo Casals (1876-1973)

10. Pode ser que nem todos os músicos acreditem em Deus; em Bach, porém, todos eles acreditam.
Mauricio Kagel (1931-2008)

11. La Malena, a velha dançarina cigana, quando ouviu Brailowsky tocando uma peça de Bach, exclamou: “Olé! Isso tem parte com o demônio!” É que ela já estava cansada de ouvir Gluck, Brahms e Darius Milhaud.
Federico García Lorca (1898-1936)

12. Ele é a essência de uma música que escapou aos acasos da história; uma música na qual passado e futuro se cruzam num sentido que está acima do próprio tempo.
Anton Webern (1883-1945)

13. Com o tempo, as fontes ficam cada vez mais próximas. Beethoven, por exemplo, não precisou estudar tudo o que Mozart precisou. Mozart, por sua vez, nem tudo o que Händel estudou. Händel, nem tudo o que Palestrina precisou estudar. Isso porque cada um já tinha assimilado seu antecessor. Só um compositor continuou a ser fonte inesgotável de ensinamentos para a criação de todos os outros: Johann Sebastian Bach.
Robert Schumann (1810-1856)


[Veja também]
• João Luiz Sampaio escreve sobre o livro de Alfred Dürr
• Irineu Franco Perpetuo resenha a interpretação de Angela Hewitt de a Arte da fuga
• As cantatas de J.S. Bach, de Alfred Dürr, está disponível na Loja CLÁSSICOS

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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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