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Dia do Índio, música e dominação (20/4/2015)
Por Camila Frésca

Na última sexta-feira, dia 17 de abril, foi lançado o Portal Brasiliana Fotográfica (confira aqui), uma parceria entre a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles e que conta com mais de duas mil imagens históricas do século XIX e início do século XX. Em princípio, o portal disponibilizará imagens das duas instituições, mas outras poderão aderir à iniciativa. Na minha primeira visita, fiquei horas olhando fotografias fascinantes de paisagens urbanas e rurais, além de retratos que vão de anônimos à família imperial brasileira. Os curadores do projeto são Joaquim Marçal, da FBN, e Sergio Burgi, do IMS. A consulta ao banco de dados pode ser feita de várias formas, e os usuários poderão se cadastrar para selecionar suas fotos preferidas e compartilhá-las em redes sociais (aparentemente, o cadastro ainda não está ativado).

No material de divulgação que me levou ao portal, estava uma foto de índios botocudos capturada no final do século XIX. O mote, é claro, é o Dia do Índio, comemorado em 19 de abril. O que me levou a pensar em música – que, afinal, é do que sempre tratamos aqui – e nos primeiros registros musicais que temos dos índios brasileiros. Anacronismos à parte, se pensarmos stricto sensu, a primeira “música brasileira” foi a dos índios, que obviamente já a praticavam há milênios quando os primeiros colonizadores portugueses desembarcaram por aqui. Os primeiros registros da música praticada no território que hoje chamamos de Brasil, aliás, estão já na carta que o escrivão Pero Vaz de Caminha envia ao rei dom Manuel reportando a descoberta das novas terras.

Desde o início do século XVI, viajantes europeus registraram informações sobre a música indígena, tal a estranheza que esta lhes despertava. Dentre os autores que escreveram sobre o Brasil, os que mais trataram da música dos índios foram Hans Staden, André Thévet e, principalmente, Jean de Léry. Todos eles tiveram contato com os tupinambás. Jean de Léry (c.1536-1613) era um pastor protestante francês que chega ao Brasil atraído pela França Antártica, projeto efêmero de colonização francesa na baía da Guanabara. A viagem não traz os resultados esperados e em menos de um ano ele retorna à Europa. Mais de dez anos depois, no entanto, resolve escrever seu relato sobre a experiência, e deixa uma das grandes obras de literatura de viajantes do século XVI. Para a musicologia brasileira, o mais importante é que Léry transcreve cinco melodias tupinambás, informando seu uso e significado. A primeira está no capítulo sobre as aves, quando ele descreve a beleza do canidé-iuve, pássaro amarelo que os tupinambás mencionam em seus cantos. No capítulo sobre os peixes, Léry faz referência ao camurupuí-uassu, também cantado pelos índios. E, finalmente, no capítulo sobre a religião, ele anota mais três melodias cantadas em momentos de rituais. Esses cinco fragmentos transcritos por Léry constituem o primeiro e único registro de música recolhida no Brasil e grafada em pauta nesse período. Vale a pena conferir um trecho do texto:, retirado do capítulo XVI de História de uma viagem feita à terra do Brasil:

(...) Unidos uns aos outros mas de mãos soltas e fixos no lugar, formam roda, curvados para frente e movendo apenas a perna e o pé direito; cada qual com a mão direita na cintura e o braço e a mão esquerda pendentes, suspendem um tanto o corpo e assim cantam e dançam. Como eram numerosos, formavam três rodas no meio das quais se mantinham três ou quatro caraíbas ricamente adornados de plumas, cocares, máscaras e braceletes de diversas cores, cada qual com um maracá em cada mão. [...] Essas cerimônias duraram cerca de duas horas e durante esse tempo os 500 ou 600 selvagens não cessaram de dançar e cantar de um modo tão harmonioso que ninguém diria não conhecerem música. Se, como disse, no início dessa algazarra, me assustei, já agora me mantinha absorto em coro ouvindo os acordes dessa imensa multidão e sobretudo a cadência e o estribilho repetido a cada copla: Hê, he ayre, heyrá, heyrayre, heyra, heyre, wêh. E ainda hoje quando recordo essa cena sinto palpitar o coração e parece-me a estar ouvindo.


Menino Índio, de Marc Ferrez. Mato Grosso, c.1880 (Fonte: Portal Brasiliana Fotográfica)

(...) Para terminar bateram com o pé direito no chão com mais força e depois de cuspirem para a frente, unanimemente, pronunciaram duas ou três vezes com voz rouca: Hê, hyá, hyá, hyá.


Imagem do livro de Jean de Léry com índios usando
chocalhos e maracás (Fonte: Biblioteca Nacional da França)

Se desde o início os costumes indígenas chamaram a atenção dos europeus, sua conversão foi também o grande objetivo da catequese praticada pelos jesuítas a partir de meados do século XVI. E o maior aliado desses religiosos no cumprimento de seus objetivos foi a música: introduziram o cantochão e cantigas em português, latim e tupi e promoveram entre os índios a prática de música religiosa e profana, além de música gregoriana e polifônica. O resultado disso, na melhor das hipóteses, foi o surgimento dos “nheengariba”, índios músicos que viajavam com os jesuítas em suas missões rumo ao interior. O irônico é que, se na segunda metade do século XVI e primeiras décadas do XVII os jesuítas lutaram contra a resistência dos índios, nos períodos seguintes eles lutaram contra o desaparecimento dos mesmos índios, devido aos avanços da colonização. Segundo o musicólogo Paulo Castagna, “as missões jesuíticas do século XVI, na prática, acabaram funcionando como enormes reservas de trabalhadores escravos, que dali sairiam com os conhecimentos mínimos para o cumprimento das ordens dos proprietários de terras, juntando-se à massa de escravos indígenas que era tomada diretamente das selvas, sempre com a justificativa da substituição de sua gentilidade pelas normas do cristianismo”. Triste início de relacionamento com estes primeiros habitantes do Brasil que, ainda hoje, lutam para garantir o direito à suas terras.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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