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Conferência MultiOrquestra 2015 – Dia 1 (28/4/2015)
Por João Luiz Sampaio

A orquestra e a cidade
Uma orquestra que se tornou símbolo da recuperação da autoestima de uma cidade; um grande complexo cultural tentando se reabilitar perante o público; um grupo de cordas que abandonou os palcos tradicionais; uma sinfônica formada nas redes sociais; um projeto de educação musical dedicado a vítimas da guerra; concertos em forma de “guerrilha”. Essas foram apenas algumas das experiências compartilhadas no primeiro dia da Conferência MultiOrquestra, aberta ontem (dia 27 de abril) na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Iniciativa do British Council, o evento tem como tema A Orquestra e a Cidade e vai até quarta-feira, reunindo mais de 40 profissionais do mundo todo.


Jonathan Morton, do Scottish Ensemble, fala na Conferência MultiOrquestra [fotos: Fábio Chieppe/divulgação]

O começo da programação se deu com música – mas já dentro do clima proposto pelo tema da conferência. Os músicos do Scottish Ensemble apresentaram duas obras que revelam o desejo de se comunicar com a comunidade: o concerto Seavaigers, que dialoga com a música tradicional escocesa, e uma seleção de obras do século XX, apresentadas na série Espaços da Cidade, na qual eles se apresentam em prédios abandonados de Glasgow: a ideia, explicou o violinista Jonathan Morton, é oferecer uma experiência musical em nada parecida com o modelo do concerto tradicional.

O primeiro a falar, na abertura oficial, foi Stephen Maddock, CEO da Orquestra da Cidade de Birmingham. O grupo foi criado em 1919 mas entrou para o mapa da música erudita internacional nos anos 1980, quando o maestro Simon Rattle assumiu o posto de diretor musical. Com ele, intensificou-se a relação da orquestra com a cidade. Maddock fala em um período de “explosão de criatividade”, marcado pela criação de um grupo de música contemporânea, de um coro infantil e juvenil, de um projeto de educação musical para crianças, de uma orquestra jovem, de uma série de música de câmara. E, também, de uma nova sala de concertos, construída em uma zona central de Birmingham. Aqui fica evidente a relação da orquestra com a cidade: de um lado, a revitalização de uma área degradada, uma vez que a chegada da orquestra levou à construção de zonas de comércio, restaurante e hotéis; de outro, o projeto da sala, anexo a um centro de convenções, se prestou à ideia de uma “nova cidade” que Birmingham queria projetar, atraindo conferências, turistas e empresas.

A Orquestra da Cidade de Birmingham apostou ainda na criação de corais amadores como maneira de aproximar a comunidade da orquestra – e, para tanto, o coro não apenas participa de concertos como são realizadas também grandes apresentações ao ar livre, nas quais o público é chamado a participar. Por tudo isso, a orquestra, diz Maddock, é vista como um dos elementos a fortalecer a autoestima da cidade, além de ter se tornado sua embaixadora cultural. Ainda assim, a presença de financiamento público é pequena, ao menos para os padrões brasileiros: 36% da verba vem do governo. O resto precisa ser conseguido com a iniciativa privada e também com receitas como ingressos e turnês. “Esse modelo é interessante porque permite que, no momento em que faltar a verba estatal, tenhamos alternativas para buscar patrocínio”, disse Maddock.

Sobre a relação entre orquestras e suas cidades, ele diz que é preciso ter em mente alguns aspectos. Primeiro, entender que cada cidade é diferente e, portanto, o formato a ser adotado deve ser adequado a cada caso, levando em consideração elementos como a demografia. É necessário também saber mostrar à sociedade que a sua atividade tem consequências positivas que vão além da manifestação artística em si, como o impacto econômico e a capacidade de revitalização urbana. Sua conclusão é clara. Há uma geração, era preciso escolher entre ser um grupo relevante localmente ou celebrado internacionalmente; hoje, as duas coisas caminham juntas. “Mais do que isso, quanto mais importante você é para a sua comunidade, maior a chance de você se tornar um projeto de relevância no cenário internacional.”

Uma sala “amaldiçoada”
O primeiro painel discutiu o tema Espaços da Música e Reverberação: a função exercida por salas de concerto e centros de música nas cidades, seu impacto urbano e social. Presidente da Fundação Cidade das Artes, Emilio Kalil, ofereceu depoimento contundente. Segundo ele, a sala está localizada em um local que vive grande crescimento econômico, em especial por conta das Olimpíadas, uma vez que a Barra da Tijuca vai sediar boa parte das instalações dos jogos. No entanto, ele chamou atenção para o fato de que é muito difícil “cuidar de uma sala amaldiçoada”. “Foram tantas as polêmicas e desvios e acusações de corrupção durante a construção que o carioca amaldiçoou esta sala. Além disso, há a questão geográfica. É o único teatro do mundo em que as pessoas só chegam montadas em uma máquina: não é possível caminhar até a Cidade das Artes. Como se faz um projeto público como esse sem pensar no seu uso, no seu futuro? Ele só terá sentido se a cidade se apoderar dele.” Ao final do painel, Kalil voltou a tocar no assunto: “A Cidade das Artes e suas proporções são exemplos da falta de planejamento. São necessários 24 milhões só para a manutenção desse prédio. Eu preferia ter esse dinheiro para projetos artísticos.”


Presidente da Fundação Cidade das Artes, Emilio Kalil, fez um dos depoimentos mais contundentes

Em seguida, falou Thorben Ditter, do Sage Gateshead, grande centro musical e artístico localizado no nordeste da Inglaterra. Ele contou que sempre considerou a sala de concertos um espaço ultrapassado. Mas que, no Sage, entendeu a “importância que um prédio pode ter na vida de uma cidade se for pensado não como uma instalação artística, mas como a base de um projeto urbano e de impacto social”. Nesse sentido, a apresentação, um pouco mais tarde, de Katherine Zeserson ofereceu um complemento interessante. Ela falou de duas parcerias fechadas pelo Sage que são testemunho do impacto provocado pela instituição. Uma delas é com o Serviço Social, com foco em crianças em processo de adoção: a música, para elas, que vivem em meio a mudanças e transições delicadas, pode ser uma constante, um elemento de continuidade. Outra parceria foi fechada com a polícia: jovens flagrados pela primeira vez cometendo crimes leves são levados ao Sage em vez de serem presos. Se não voltarem a cometer crimes e se integrarem às atividades do centro, terão suas fichas limpas.

Dois brasileiros vieram em seguida. João Guilherme Ripper falou da dificuldade envolvida na reforma da Sala Cecília Meireles, da qual é diretor, um prédio que nasceu como hotel e foi cinema antes de virar sala de concertos. E, em seguida, tratou da busca pelo público após a reabertura. Um dos caminhos é a diversidade de repertório, da música antiga à música contemporânea, passando pelo jazz e a música instrumental, o que “leva diferentes grupos de pessoas à Sala”. Outro é a criação de séries como os concertos da hora do almoço e do final da tarde, que atraem pessoas que circulam pelo centro e, assim, fazem do prédio parte de seu cotidiano. Já Frederico Lohmann, da Sociedade Cultura Artística, fez um histórico, de 1912 a 2008, quando um incêndio destruiu o teatro da entidade. A construção de uma nova sala, no entanto, levou a questões importantes. “Não se tratava apenas de construir de novo. Esse momento nos levou a uma reflexão sobre qual o papel da instituição.” Segundo ele, economicamente é muito difícil encontrar justificativas para uma entidade privada e sem fins lucrativos construir uma sala própria. “Mas nossa história é pautada justamente pela preocupação com a cidade e a cena cultural. E acreditamos que um teatro pode ter um impacto urbano e social fundamentais.”

Orquestras vão às ruas
O painel seguinte discutiu o tema Tocando Fora de Casa, abordando grupos que se aventuram para fora de “suas zonas de conforto”. O primeiro a falar foi Jonathan Morton, do Scottish Ensemble. Segundo ele, quando nasceu, e durante muitos anos, a orquestra de cordas viajava pela Escócia fazendo concertos. “Chegávamos na cidade, tocávamos e íamos embora no dia seguinte. Com o tempo, o nosso prazer foi desaparecendo – e o público também.” Eles, então, começaram a procurar as cidades e perguntar: o que vocês esperam de nós? O que podemos oferecer à comunidade? A partir daí, passaram a se apresentar, entre outros espaços, em asilos, escolas, nas casas das pessoas, em bares. “Não imaginávamos, quando começamos a estudar, que nossas carreiras nos levariam a palcos como esses. Mas a experiência de contato com as pessoas é transformadora e nos fez repensar a própria noção do fazer musical.”

Leonard Evers, da Orquestra Riccioti, da Holanda, divertiu o público em seguida ao explicar como funciona o grupo do qual é diretor musical e regente. Os músicos sobem em um ônibus, param em uma praça, montam correndo o palco e fazem um concerto rápido. “É o concerto de guerrilha”, brincou. A orquestra também vai a prisões, escolas, asilos, campos de refugiados, portos, balsas, hospitais. “Existe uma distância física e emocional entre as orquestras e o público e é isso que queremos evitar. Música é comunicação.” A orquestra é formada por jovens estudantes de música de conservatórios e universidades, de 19 a 24 anos de idade. “Mostramos a eles uma outra realidade, queremos que experimentem em primeira mão o que a música pode fazer no que diz respeito à comunicação entre as pessoas.”


Leonard Evers, da Orquestra Riccioti, da Holanda, falou sobre os “concertos de guerrilha” de seu grupo

Lu Araújo, diretora do Mimo, Mostra Internacional de Música de Olinda, explicou, por sua vez, que o projeto nasceu do desejo de sair do eixo Rio-São Paulo, em busca de alternativas na relação entre artistas e público. Essa relação passa, no caso do Mimo, também pela revitalização e valorização do patrimônio histórico – os concertos acontecem em igrejas e espaços públicos e, com o tempo, o festival passou a ser realizado também em outras cidades como Tiradentes, Paraty e Ouro Preto. “Tentamos desmistificar a música instrumental, buscando novas plateias e expandindo horizontes estéticos”, ela explica. Com o tempo, ganhou importância também a parte educativa, com masterclasses e encontros com artistas.

Crianças da guerra
A colombiana Maria Claudia Parias revelou, em seguida, os detalhes de um projeto pouco conhecido no Brasil: a Fundación Batuta, criada no início dos anos 1990 na Colômbia. O modelo é o Sistema venezuelano, mas a iniciativa tem características próprias. “É muito clara para nós a necessidade de entender a realidade de nosso país. Por isso, estruturamos o Batuta em torno de alguns núcleos. Um deles, do qual fazem parte 17 mil das quase 40 mil crianças que atendemos, é o Música para Reconciliação, na qual trabalhamos com jovens cujas vidas foram afetadas pela guerra e a violência. Não se trata, neste caso, de formar grandes músicos e exportá-los, como acontece na Venezuela, mas, sim, de entender o poder transformador da atividade musical”, explicou. Ao todo, o Batuta mantém 184 centros, em 95 cidades de 32 estados; o projeto conta ainda com 44 orquestras e 678 grupos de iniciação musical.


Maria Claudia Parias apresentou a Fundación Batuta, projeto colombiano inspirado no famoso El Sistema

O último a falar, no final da tarde de ontem, foi o brasileiro Matheus Bellini, violoncelista e coordenador da Maratona Cultural: Orquestra na Rua. Cerca de 470 instrumentistas já participaram do projeto: pelas redes sociais, os coordenadores marcam data, horário e local de um concerto a ser realizado na rua. Os músicos então se encontram, fazem um ensaio e, em seguida, começam a tocar. “A gente possibilita que pessoas que nunca foram a um concerto tenham a oportunidade de entrar em contato com uma orquestra”, explicou.

O encerramento do primeiro dia da conferência se deu com um concerto do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, que interpretou obras de Osvaldo Lacerda e Villa-Lobos.

[Leia mais]
Conferência MultiOrquestra 2015 – Dia 2, por João Luiz Sampaio
Conferência MultiOrquestra 2015 – Dia 3, Por João Luiz Sampaio
MultiOrquestra: discutindo o futuro das orquestras e de nossa vida musical (2014), de Camila Frésca

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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