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Conferência MultiOrquestra 2015 – Dia 3 (30/4/2015)
Por João Luiz Sampaio

O último dia da Conferência MultiOrquestra 2015 começou com um painel batizado Inovação e a Experiência Musical, com o objetivo de tratar de temas como o impacto da tecnologia e da busca de novos espaços para o setor. A mediadora Heloísa Fischer abriu a mesa reutilizando uma frase dita um dia antes pelo pianista Cristian Budu: “Ele nos falou que a música de câmara é uma mentalidade. Pois a inovação também. Ela não é apenas ferramenta é, acima de tudo, uma mentalidade.”


Marina Vidor, da Philharmonia Orchestra, no primeiro painel do terceiro dia [fotos: João Julio Mello/divulgação]

A primeira a fazer a apresentação foi Marina Vidor, uma das responsáveis pela “vida digital” da Philharmonia Orchestra, em Londres. Segundo ela, as estratégias digitais são entendidas no grupo como base de preparação para tudo o que é feito. Elas incluem, além do site, a produção de vídeos e podcasts, entre outras ferramentas. Eles não filmam concertos, mas trabalham em materiais paralelos à atividade musical, como entrevistas e uma série dedicada aos instrumentos. “Nossa função é criar novas conexões no fazer musical, explorar e desenvolver o interesse de novos públicos e estimular o amor daqueles que já têm a orquestra como referência em suas vidas”, explicou ela – e, em seguida, ofereceu uma diferenciação importante: não se trata apenas de pensar em ferramentas de marketing, “mas de criar produtos que despertem o interesse genuíno das pessoas”, para além da promoção propriamente dita. Exemplo disso são as instalações interativas, como Re-Rite, sobre a Sagração da primavera, que já rodaram a Inglaterra e outros países do mundo; ou o aplicativo iOrchestra. Segundo Marina, é preciso ainda esperar alguns anos para consolidar números que deem conta de revelar o impacto desses trabalhos na vida da orquestra. De qualquer forma, de 2013 para 2014, quando foi lançado o novo site da Philharmonia, a orquestra passou de 28 mil para 147 mil seguidores no Facebook; e as visualizações de vídeos no YouTube foram de 1,6 milhão para 4,7 milhões. Sobre os vídeos, um dado interessante para as orquestras brasileiras: o Brasil é o terceiro em número de “assinantes” da conta da orquestra no YouTube e está sempre no Top 10 de audiência.

Em seguida, Sophie Lewis, da Sinfonia Cymru, voltou ao palco – ela já havia participado em outros momentos da conferência – para mais uma vez ressaltar a importância da busca por espaços alternativos quando se pretende uma nova relação com a plateia. Na sequência, Claudio Dauelsberg fez sua apresentação em nome da procura de novos panoramas para a música clássica, brincando com algumas “regras” não escritas, como o impedimento de aplaudir entre os movimentos das obras. E falou do festival por ele criado, o Rc4, em que a música dita clássica se mistura com o pop, o club e o eletrônico, fora da sala de concertos. Interessante também foi sua colocação, um pouco mais tarde, sobre a necessidade da mudança na grade curricular das universidades, para que se possa contemplar os novos desafios – e as novas possibilidades – enfrentadas pelos jovens músicos: na UniRio, ele contou, após uma mudança de currículo, 80% dos cursos tornaram-se optativos, desengessando a grade e permitindo que os alunos possam percorrer o caminho acadêmico de acordo com seus interesses, orientados, claro, por tutores. “Também trabalhamos para potencializar o uso da tecnologia. Criamos uma disciplina de produção musical e um laboratório de produção, em que o músico trabalha com novas ferramentas, além de compreender questões como financiamento e leis de incentivo.”

Músicos para o futuro
A questão da formação de músicos foi o tema do painel seguinte, Gerenciando o Futuro. Curadora da conferência, Claudia Toni abriu a mediação chamando atenção para a necessidade de se formar músicos cujo único objetivo não seja a atuação em orquestras. “Hoje há no estado de São Paulo cerca de 40, 50 alunos de fagote, por exemplo. Na Osesp, vai levar 30 anos até que uma vaga se abra para o instrumento; no Teatro Municipal, de 15 a 20, e o mesmo vale para a OSB. Onde esses artistas vão trabalhar?”, perguntou. Em seguida, ela fez sua primeira pergunta aos participantes do painel. “As orquestras baseadas nas comunidades em que vocês desenvolvem um trabalho pedagógico são suas parceiras?” Paulo Zuben, da Santa Marcelina Cultura, responsável pela gestão da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), disse que há a participação de músicos das orquestras como professores, mas não uma ligação institucional. “Somos, em certa medida, competidores, estamos brigando pelos mesmos patrocínios, pelos mesmos recursos públicos. Cada um defende o seu lado, ninguém se manifesta conjuntamente”, disse. Renata Jaffé, da Orquestra do Instituto GPA, que trabalha a partir de um método de ensino coletivo criado nos anos 1970 por seu pai, afirmou que nunca foi procurada por nenhuma orquestra. “O aluno, quando começa a evoluir, tem dificuldade de encontrar espaços para seguir estudando ou começar a tocar. Cortes como o que a Emesp enfrenta agora são muito ruins, porque muitos de meus alunos tinham a escola como destino.”


Paulo Zuben, da Santa Marcelina Cultura, organização que administra a Emesp – Tom Jobim

Em seguida, Toni perguntou em que medida as escolas superiores têm abraçado a questão da educação musical formal. Diretor da Escola de Música da UFRJ, André Cardoso defendeu que essa educação musical de base, nas escolas, seja formal, e não se limite à apreciação musical. Segundo ele, a UFRJ tem se preocupado em pensar nas maneiras como complementar a educação musical recebida por seus alunos – e isso passa pela identificação do perfil desses jovens, de onde eles vieram. “Uma pesquisa que realizamos mostra que boa parte dos estudantes vem de famílias com renda mensal abaixo de R$ 3 mil e começou na música em igrejas, bandas e projetos sociais. A universidade deve buscar uma interlocução com esses agentes e isso pode levar a mudanças curriculares importantes”, explicou.


Claudia Toni, uma das curadoras da edição 2015 da conferência

A pergunta seguinte: “Os músicos das orquestras brasileiras são muito acomodados, seja por terem seus empregos garantidos, seja pela falta de um ambiente estimulante de trabalho. O que fazer para mudar este perfil?” Renata Jaffé foi a primeira a responder. Para ela, o culto ao solista ainda é muito forte. “Isso coloca na cabeça do músico que, se ele não se tornar um grande solista, ele deu errado na carreira e, portanto, vai para a orquestra procurar não um modo de desenvolver seu potencial, e sim um simples emprego. O ensino de música precisa insistir no ponto de que o produto final deve ser, acima de tudo, o prazer de fazer música juntos.” E há, dentro do currículo formal, mudanças a serem feitas para permitir a criação desse novo músico?, questionou Claudia Toni. “Eu percebo que os músicos que chegam à Emesp, talvez porque são originários de projetos sociais, já tem outra cabeça”, disse Paulo Zuben. “Eles chegam à escola com a expectativa de uma atividade artística, mas já abraçam, por exemplo, a importância do trabalho de professor, além de outras questões. O ponto é que essa geração ainda não chegou às orquestras. Mas já há um processo de transformação em curso”, complementou.

Na discussão sobre a educação musical, faltava ainda o papel do professor. E o tema foi introduzido na apresentação do pianista e maestro Ricardo Castro, que abordou a questão por meio da experiência que tem desenvolvido com o Neojiba, na Bahia. Ele fez referência ao lugar comum segundo o qual “quem pode, faz, e quem não pode, ensina”. E sugeriu que o substituíssemos por outra noção: “ao ensinar, aprendemos”. “Por que não pensar que o lugar da plateia é no palco? Aprende quem ensina. Pesquisas mostram que a atitude ativa perante a música estimula o corpo de maneira muito mais rica do que a atitude passiva. Nós artistas não podemos mais ser os únicos privilegiados. A prática musical é importante para qualquer pessoa.” No Neojiba, os alunos também atuam como professores, ensinando colegas mais jovens – e esse processo ajuda a compreender também que música é comunicação, troca de experiências. Nesse sentido, e tratando sobre projetos de caráter social, ele fez ainda uma ressalva importante: não são só alunos de baixa renda que estudam e tocam no Neojiba. “Se o filho do dono da Globo quiser tocar, ele pode.” Só assim a música serve de fato como algo a aproximar e ligar pessoas de origens e histórias diferentes.

Conclusões – e perguntas
Na plenária final do evento, participantes foram convidados a fazer um resumo das questões debatidas ao longo da conferência. Sophie Lewis chamou atenção para o fato de que as discussões geraram em torno de projetos educacionais e de formas de apresentação. “Se a esse debate for acrescentado um terceiro elemento, as plateias, estou certa de que essa combinação fará de nós profissionais melhores”, disse. Carol Main, da Live Music Now, afirmou que ficou claro que “não temos como avançar sem formar parcerias”. “Precisamos ser flexíveis e criativos; pensar em parcerias na longa duração; buscar flexibilidade no contato com os músicos, para inseri-los nesses debates; ter flexibilidade na hora de buscar financiamento; devemos sair da zona de conforto; olhar para trás e ter a percepção da enorme herança cultural da qual viemos; e entender que é por meio da comunicação que as vidas podem se transformar.” Ainda uma palavra final: “Temos que confiar no poder da nossa imaginação.”


Luiz Coradazzi, do British Council, um dos curadores da Conferência MultiOrquestra 2015

Paulo Zuben reforçou a importância das parcerias e do intercâmbio, assim como Emilio Kalil: “Planejamento e continuidade são dois alicerces a serem buscados. Não há políticas públicas para a arte e para a música. Temos que nos juntar para reivindicar propostas.” Cathy Graham, do British Council, colocou três pontos: parcerias são difíceis, mas é preciso ter em mente que elas levam tempo – e todos devem se esforçar para olhar além da competição cotidiana entre instituições; projetos musicais precisam contemplar pessoas de todas as camadas sociais; e a juventude precisa estar no centro do debate. “Quantos jovens há nos conselhos das orquestras? Essa foi uma pergunta que me ocorreu durante os paineis.”


Karen Silva, do Neojiba, na plenária final: “A música brasileira não pode ser só bis”

Depois das recapitulações dos curadores Luiz Coradazzi e Claudia Toni, alguns dos jovens que participaram de uma oficina com Katherine Zeserson, do Sage Gateshead, apresentaram suas conclusões. “Precisamos pensar em maneiras de ajudar os músicos em suas carreiras, de incluir todas as camadas sociais nesse processo e pensar criticamente sobre o meio musical”, disse Bianca Maretti, da Unesp. “Talvez, no ano que vem, possamos discutir menos temas, para ter debates mais aprofundados”, disse Eduardo Raele, aluno da USP, para quem uma das questões fundamentais é: a sociedade precisa ir às salas de concerto ou as salas de concerto precisam ir à sociedade? Filipe Esteves, da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, tratou de assuntos como a percepção da música na sociedade e a necessidade de melhorar a relação entre os músicos e os gestores das orquestras. E Karen Silva, do Neojiba, encerrou a conferência. “Por que não há uma cota popular de ingressos nos concertos? Por que um assalariado não pode pagar mais barato? Deveríamos realizar encontros periódicos entre músicos e educadores, com foco na evolução do ensino de música. E valorizar nossa criação: a música brasileira não pode ser só bis.”


[Leia mais]
Conferência MultiOrquestra 2015 – Dia 1, por João Luiz Sampaio
Conferência MultiOrquestra 2015 – Dia 2, por João Luiz Sampaio
MultiOrquestra: discutindo o futuro das orquestras e de nossa vida musical (2014), de Camila Frésca

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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