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Osmo Vänskä: o homem certo no lugar certo (4/5/2015)
Por Irineu Franco Perpetuo

Confesso que, neste ano, demorei a me animar para ver a Osesp tocar. Nada contra a orquestra, obviamente. Porém, fiquei esperando um maestro que realmente estimulasse a orquestra e um programa interessante. Finalmente, ele chegou: Osmo Vänskä, 62, mais um brilhante membro da esquadra finlandesa de regentes que vêm encantando o mundo com sua mescla de técnica sólida e elevada musicalidade.

Diretor musical da Orquestra de Minnesota (EUA) desde 2003, Vänskä já tem quase uma década de relação com a Osesp: começou a regê-la como convidado no já distante ano de 2006, ainda no reinado de John Neschling, sempre com resultados positivos.


Osmo Vänskä em ação com a Osesp na Sala São Paulo: parceria começou em 2006 [foto: divulgação]

Outro fator de atração era a obra a ser estreada: A rua dos Douradores, Litania da desesperança, encomenda conjunta da orquestra e da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, de autoria do cultivado Aylton Escobar, 71. Afinal, a peça incluía também o Coro da Osesp, que, sob regência de Naomi Munakata, gravou um belo disco dedicado ao compositor (baixe de graça clicando aqui). E eu tinha ainda belíssimas lembranças dos Salmos elegíacos para Miguel de Unamuno que, também combinando coro e orquestra, Neschling estreou na Sala São Paulo em 2008.

Para uma encomenda que envolve Portugal, Escobar escolheu aquele que talvez seja o poeta luso mais popular do lado de cá do Atlântico – Fernando Pessoa, com o Livro do desassossego. Sua peça de agora claramente ecoa e dialoga com a de 2008, delineando como que uma ponte, construída por um olhar brasileiro, entre as angústias e melancolias de dois literatos ibéricos da primeira metade do século XX. Familiarizado com o idioma do compositor, o coro interpretou sua música de forma pungente, enquanto Vänskä, com uma regência didática que parecia empenhada em transmitir as inflexões da peça não apenas aos músicos, mas sobretudo à plateia, conduzia a Osesp pela fugidia e lírica textura da escrita de Escobar.

Fez-se o intervalo e, depois dele, a Osesp executaria as duas derradeiras sinfonias do finlandês Jean Sibelius (1865-1957), no sesquicentenário de nascimento do compositor, concluindo assim a integral de suas obras sinfônicas, que a orquestra vinha fazendo nos últimos anos, com diversos regentes.

Olhando o programa, confesso que pensei que um ciclo que vinha sendo realizado com tanta calma não precisava ser concluído de forma tão apressada. Quando se incluem duas sinfonias – ainda mais de autor idêntico – em um mesmo programa, a tendência é que uma “mate” a outra. Como Osmo Vänska ficaria ainda mais uma semana em São Paulo, não teria sido mais sábio dividir as sinfonias de Sibelius, incluindo cada uma em um programa?

De qualquer maneira, todas as apreensões que eu poderia ter se dissiparam assim que Vänskä ergueu a batuta e começou a jornada pela Sexta sinfonia de Sibelius. Ele simplesmente parecia ser o homem certo no lugar certo. Nessa obra, como na Sétima, a Osesp soou com um equilíbrio e coesão como há tempos não se ouvia na Sala São Paulo. A defesa resoluta das obras pareceu reafirmar o finlandês como um dos grandes autores sinfônicos da primeira metade do século XX, e nos fez lamentar que as demais orquestras brasileiras só se lembrem, e muito ocasionalmente, da sua Segunda sinfonia, quando parece haver todo um rico mundo sonoro a explorar.

Feitas as contas, deu para sair do teatro não apenas satisfeito, como otimista. O concerto deixou bem claro que, quando atua sob a direção de um regente interessado nela e que, por seu turno, consegue despertar seu interesse, a Osesp pode sair da zona de conforto e fazer música em nível elevado e prazeroso. Quem será o próximo a conseguir a proeza?

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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