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“Poranduba” tem boa produção do Theatro São Pedro (4/5/2015)
Por Nelson Rubens Kunze

Creio que nunca vi o Theatro São Pedro tão lotado. No dia 1º de maio, meia hora antes do início da ópera Poranduba, de Edmundo Villani-Côrtes, uma fila de cerca de 100 pessoas dava a volta na esquina. Um grande sucesso, que levou ao Theatro São Pedro também um público mais novo, de crianças e pré-adolescentes.

E o espetáculo parece mesmo muito adequado para essa faixa etária. Baseado em um libreto de Lúcia Pimentel Góes – profícua autora de literatura infantojuvenil –, a ópera apresenta diversas histórias narradas pelo índio Poranduba, ou “o bom língua”, que são na maioria lendas de seu povo e de sua cultura. Com versos simples e diretos, a ópera traz o feiticeiro Kanassa, sua prima Sarcura, os muiraquitãs Iacy, Ceucy, frutos de curumã, o filho Jurupari, Anhangá, a Mãe e o Pai, em contos repletos de mística e transcendência. A autora também não tem receios em misturar outras tradições e folclores (há modinhas, cirandas e até o famoso “escravos de Jó jogavam caxangá”), em um grande caldeirão desprovido de pretensões sociológicas.


Leonardo Neiva como Poranduba, “o boa língua”, protagonista da ópera [fotos: Décio Figueiredo/divulgação]

Villani-Côrtes musicou o texto em 1995, e a ópera teve sua estreia em 2007, no Festival Amazonas de Ópera. A música é bem escrita e, bem ao estilo do compositor, mescla orquestrações clássicas com uma forte influência de harmonias e ritmos da música popular. O resultado, com seus temas cativantes e fácil comunicação, combina perfeitamente com a singeleza do libreto. Em entrevista a Leonardo Martinelli, publicada na Gazeta Mercantil em 2007, Villani comenta sobre a música de Poranduba: “Acho que o mais importante é que a música que coloquei nesta partitura é uma visão minha, particular e imaginada da música amazônica. Eu não ia cometer a loucura de entrar na floresta, ouvir os cantos da Amazônia e viver na floresta para poder fazer uma ópera, pois de jeito algum iria conseguir entrar no verdadeiro espírito de um indígena. O índio que coloquei nessa ópera é um índio que tenho dentro de mim, e vou fazer a música deste índio do meu jeito. Podem até me acusar de infidelidade ao material folclórico, mas é também falso pegar um material destes e fazê-lo de uma forma diferente da originalmente realizada por estes povos”. Sem dúvida, a música de Poranduba é coerente com essa ideia.

Poranduba teve uma boa produção realizada pelo Theatro São Pedro. A direção cênica foi de Caio Zaccariotto Ferreira e Roberto Rebaudengo. A montagem baseou-se em três grandes estruturas geométricas de luz, formadas por triângulos. Dependendo das diversas alturas e ângulos em que eram suspensas, elas formavam novos desenhos, sempre com cores e iluminações variadas. O que no início pareceu uma estética próxima da de jogos de videogame, no decorrer do espetáculo resultou em adequadas soluções cênicas, proporcionando bom suporte para as diversas cenas.


Coro Infantojuvenil da Escola Municipal de Música em Poranduba; a direção cênica foi de Caio Ferreira e Roberto Rebaudengo

O elenco solista, que contou com as experientes vozes de Leonardo Neiva, Gabriella Pace, Eric Herrero, Céline Imbert e Eduardo Amir, teve boa atuação. Igualmente a contento apresentaram-se Roseane Soares e Eduardo Fujita, jovens da Academia de Ópera do Theatro São Pedro (em razão de problemas de saúde, Aline Lobão teve de ser substituída de última hora por Elaine Martorano, que havia feito o papel em 2007). O espetáculo ainda contou com a performance do dançarino Eduardo Fukushima. A ópera teve direção musical e regência do dinâmico maestro André dos Santos, que regeu o Coro Infantojuvenil da Escola Municipal de Música (preparação de Regina Kinjo), o Coral Lírico Paulista (preparação de Nibaldo Araneda) e a Orquestra do Theatro São Pedro.

Poranduba enriquece a temporada do Theatro São Pedro com um título brasileiro voltado para um novo público, e segue a linha de produções cuidadosas e de bom nível.

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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