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Dois amores (18/5/2015)
Por Jorge Coli

Estive ontem, domingo, no Theatro São Pedro para assistir a segunda e última apresentação da chilena Cristina Gallardo-Domâs. É cantora de carreira internacional, com belo timbre, voz poderosa. Sua interpretação dos Cantos de um companheiro errante (Lieder eines fahrenden Gesellen), de Mahler, apertava o coração, de tão comovente. O canto se fundia, tão suave, com a orquestra, emanando do tecido que urdiam os instrumentos.


A soprano chilena Cristina Gallardo-Domâs, que atuou como solista no Theatro São Pedro [foto: divulgação]

Foi, para mim, uma coincidência a outra obra que ela interpretou, bem diferente da primeira: El amor brujo, de Manuel de Falla. Coincidência, porque eu a tinha ouvido também no sábado, dia 9, em Piracicaba. A solista era então Luciana Bueno.

Não comento os concertos da Orquestra de Piracicaba, que se renovou belamente, porque fui associado a esse projeto, como conferencista. Tal situação pode trair um parti pris favorável, está claro. Mas estou sinceramente convencido de que essa orquestra nasceu sob ótima estrela. O responsável por sua nova fase é o maestro Jamil Maluf. El amor brujo, assim como o resto do programa, foi regido por Thiago Tavares, maestro convidado.

O pouco tempo que separou minha escuta das duas obras ao vivo, em Piracicaba e em São Paulo, permitiu a comparação, e o prazer de constatar o alto nível de ambas, tanto no que se refere à orquestra quanto às duas ótimas solistas. Mais endiabrada e temperamental a primeira, mais soturna e malévola a segunda.

O concerto do Theatro São Pedro trouxe uma outra surpresa, pelo menos para mim. Quem regeu a orquestra foi o jovem maestro Henrique Villas-Boas, que ouvi pela primeira vez.

Uma revelação. Finura, precisão, transparência, brotando desde a Rêverie, de Scriabin, que abria o programa. Maravilhoso fraseado – sua biografia diz ele é também cantor, e é bem possível que essa prática tenha incidido sobre o sentido flexuoso da frase. E grande prazer ouvir a alta categoria da orquestra do São Pedro. Que cordas sedosas!

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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