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Dois formidáveis “Eugene Onegin” (2/6/2015)
Por Jorge Coli

A estreia de Eugene Oneguin, de Tchaikovsky, no Theatro Municipal de São Paulo, no sábado, dia 30 de maio, foi um triunfo merecido. O público, transportado pela grande qualidade da interpretação, saiu pisando em nuvens, depois de uma torrente de aplausos.

Desde as primeiras frases, ficou evidente a autoridade enérgica do maestro Jacques Delacôte, que mostrou pronta intimidade com a obra, regida de cor. Com firmeza, ele não apenas soube extrair as melhores sonoridades da orquestra, como fazê-la investir na progressão e na eclosão dos conflitos. Sua concepção foi lírica, profunda, habitada por verdadeiro sentido trágico. (Para ter uma ideia da arte de Jacques Delacôte, ouça uma gravação bem antiga, mas notável, de um trecho largo da ópera Samson et Dalila¸ de Saint-Saëns, que contem a célebre Bacanal.) É preciso dizer que tanto a Orquestra Sinfônica Municipal quanto o Coro Lírico responderam de modo admirável à qualidade do maestro.

Oneguin foi interpretado por Andrei Bondarenko, jovem barítono de 28 anos, nascido na Ucrânia. Ele já havia encarnado o mesmo papel no ano passado em Glyndebourne, e há dois anos em Colônia. É um cantor de bela presença, belo timbre, mas é preciso dizer que sua voz esteve levemente aquém dos outros intérpretes daquela noite. Sobretudo no último ato, sua voz mostrava-se cansada. Mas, está claro, isso pode ser uma fadiga ocasional. (Ouça aqui seu recital no final do BBC Cardiff Singer of the World 2011.)


Svetlana Aksenova como Tatyana, no Eugene Onegin do Theatro Municipal [foto: Heloisa Ballarini/divulgação]

Alguém já disse que Eugene Oneguin deveria se chamar, na verdade, Tatyana, tão importante é essa frágil heroína na ópera. É ela a coluna vertebral da obra. Na estreia em São Paulo Svetlana Aksenova correspondia ao que se pode desejar para o papel: juventude, beleza, graça, atriz sensível, dotada e timbre rico e carnal, bem assentado nos médios, facilidade de emissão. Seu recente sucesso em Paris, substituindo Olga Guryakova na Russalka, de Dvorák, acentuou sua projeção internacional.

Fernando Portari foi uma das grandes felicidades do espetáculo. Sua interpretação atingiu os níveis mais altos de exigência, como os grandes cantores da história já conseguiram. Lenski nuançado, musical, frágil, doloroso, tocante, timbre aveludado, emissão perfeitamente controlada, ele não representava, mas era o personagem.

Vitalij Kowaljow, um dos principais baixos de nossos dias, cantou o – infelizmente – pequeno papel de Gremin. Voz aveludada, profunda e doce, sua ária foi um dos grandes momentos (ouça aqui a voz de Vitalij Kowaljow na ária de Felipe II no Don Carlo, de Verdi). Como foram excelentes também a Olga de Alisa Kolosova, 27 anos, que tem feito desse papel uma de suas especialidades. Timbre argênteo, emissão muito segura, ótima atriz: ouça-a e veja-a aqui na ária desse personagem. A argentina Alejandra Malvino, Herodíades na Salomé que o Municipal apresentou em 2014, foi uma excelente madame Larina, e a ilustre veterana Larissa Diadkova, uma Filipevna de grande nível.

A melhor qualidade demonstrada por Marco Gandini em sua montagem da precedente Tosca no Municipal, ou seja, o cuidado com a direção de atores, acentuou-se nesse Oneguin. O cenário é simples: tablado que avança uma de suas pontas sobre a orquestra, poucos acessórios sugestivos. Plotagens, em transparência ou não: estas nunca são de beleza transcendente, mas evocam ambientes de maneira eficaz – e são também baratas, virtude nada desprezível em tempos bicudos. Os costumes variavam de um “vagamente antigo” para um “russo exótico senza rigore”; se não exaltavam, não atrapalhavam, o que é muito. Simplicidade de uma concepção quase semicênica.

Como disse, tudo se centrava na direção de atores, cuidada e intensa. Como, em particular, foi poética a evocação do quarto de Tatyana! Apoiada pela grande qualidade da iluminação sob a responsabilidade de Caetano Vilela, nada mais era necessário. Tchaikovsky estava lá, plenamente.

Fico pensando se o enxugamento nas montagens não se configura como uma das boas saídas para o impasse trazido pelas atuais concepções teatrais das óperas. Eliminar o “conceito”, a ideia estapafúrdia, o deslocamento temporal a qualquer custo, cavar fundo no libreto e na música junto aos cantores, conduzidos a constituírem personagens complexos e verdadeiros. Era isso a quintessência da arte de Chéreau, Felsenstein ou Peter Brook. Já que não conseguimos em nossos dias encontrar o esplendor suntuoso dos espetáculos antigos – o suntuoso em ópera, hoje, resvala quase sempre para o kitsch – um trabalho centrado na intensidade interpretativa surge como forma convincente.


O segundo elenco cantou no dia seguinte à estreia, no domingo, dia 31.

O clima não era o mesmo. Tudo começou muito bem, com Lidia Schäffer e Keila de Moraes, madame Larina e Filipevna, que não deviam nada à excelência de suas colegas estrangeiras, intérpretes do mesmo papel na estreia. Ana Lucia Benedetti surgia como uma ótima Olga, emissão plena e aveludada. Mas a voz de Talia Or no papel de Tatyana mostrava-se frágil, com graves descoloridos. Medet Chotabaev cantava um Lenski contido.

Houve porém uma revelação: o jovem Oneguin, interpretado por Konstantin Shushakov. Este barítono russo, de 31 anos, até agora cantou apenas papéis secundários, como Papageno, Yeletsky, Schaunard ou Marullo. É a primeira vez que assume um protagonista de tal envergadura. Foi sensacional. Voz escura, poderosa, implacável, projetando-se admiravelmente pelo teatro (ouça-o aqui na ária de Yeletsky, de A dama de espadas, de Tchaikovsky).

A partir do segundo ato, no entanto, o espetáculo esquentou e os cantores também. Medet Chotabaev soltou a voz no quadro do duelo compondo um Lenski heroico. Talia Or, se não compensou todos os seus limites, adquiriu calor e convicção, arrebatando no dueto final. Saulo Javan fez de Gremin um personagem delicado com seu canto cheio de nuanças. Konstantin Shushakov dominou (apesar de um pequeno acidente no agudo final da ária de Oneguin no palácio de Gremin, coisa que pode ocorrer com qualquer cantor e que ele venceu bravamente).

Enfim, dois formidáveis Eugene Oneguin. Meu prazer foi tanto nas duas récitas que, se e eu pudesse, voltaria a todas as apresentações.


[Veja também]
Theatro Municipal de São Paulo apresenta Eugene Onegin, de Tchaikovsky
A montagem de Eugene Onegin tem votação aberta no Ouvinte Crítico; participe

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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