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Israel: ópera como incentivo ao turismo cultural (15/6/2015)
Por Irineu Franco Perpetuo

Quando se pensa em ópera, Israel não é exatamente o primeiro país que vem à mente. Não que falte tradição musical à nação do Oriente Médio: sua excepcional filarmônica vem encantando há décadas melômanos de todo o planeta, bem como os instrumentistas por lá formados.

No canto lírico, porém, a força não é a mesma. Fãs de Plácido Domingo certamente vão se lembrar de que foi na Ópera Nacional de Israel que o tenor aprendeu os primeiros segredos de sua arte, no início da década de 1960. Porém, o Ministério de Cultura e Educação do país parou de dar apoio à companhia em 1982, e apenas em 1985 criou-se uma estrutura para substituí-la: a Nova Ópera Israelense.

“Temos músicos fantásticos. A mãe judia coloca seus filhos para aprender violino ou piano, mas no canto a tradição não é a mesma”, admitiu Hanna Munitz, diretora geral da trupe, na entrevista coletiva em que recebeu a imprensa internacional, à beira do Mar Morto. “Além disso, temos que educar o público para ouvir ópera”.

Assim, adicionalmente às sete produções que realiza a cada temporada, a Nova Ópera Israelense resolveu apostar em uma estratégia de maior visibilidade, que atingisse plateias mais amplas e “leigas”. E criou, em 2010, com uma produção de Nabucco, de Verdi, o festival de ópera de Massada (uma reportagem da época pode ser vista aqui, em inglês).


Vista aérea da arena montada ao pé do Monte Massada para o festival [fotos: divulgação]

A inspiração foram outros festivais que encenam produções ao ar livre em locais históricos, como a Arena de Verona, na Itália, e Chorégies d'Orange, na França (que foi parceiro dos israelenses na produção de Aida, de Verdi, em 2011).

Erigida na região do Mar Morto como fortaleza inexpugnável pelo rei Herodes no primeiro século antes de Cristo, Massada foi palco de um dramático episódio de suicídio coletivo de rebeldes judeus sitiados pelos romanos no ano 73 da era cristã (que virou minissérie com Peter O'Toole em 1981 – aqui um trailer). Sua redescoberta moderna aconteceu na década de 1960, graças ao arqueólogo Yigael Yadin. O local foi declarado pela Unesco patrimônio histórico da humanidade em 2001, e é um dos mais populares destinos turísticos de Israel.

A fortaleza fica no alto da montanha. Os espetáculos acontecem em seu sopé, tendo o Monte Massada ao fundo. Com orçamento de 25 milhões de shekels (cerca de R$ 20,530 milhões), o festival cobra ingressos entre 300 e 1300 shekels (R$ 246 a R$ 1067), para 6.500 lugares, em arquibancadas razoavelmente confortáveis. Os visitantes têm acesso a banheiros ecológicos asseados, área de estacionamento e boas estruturas para alimentação e descanso.

Dado o público-alvo a ser atingido, a programação privilegia, previsivelmente, blockbusters líricos. Massada já teve produções de Carmen, de Bizet (2012), e La traviata, de Verdi (2014) e, em 2015, pela primeira vez, apostou em dois títulos: Tosca, de Puccini, e Carmina Burana, de Carl Orff.

Do ponto de vista técnico, os cinco anos conferiram ao festival uma experiência cujos resultados se fazem notar. A amplificação e a captação sonora poderiam ser considerados como ideais: por mais que o vento sopre durante as récitas, ele não se faz ouvir nos microfones. O equilíbrio entre vozes e orquestra é resolvido em favor das primeiras, e o palco, com 35 metros de profundidade por 64 de largura, é ladeado por dois telões de alta qualidade. O serviço de áudio dá informações em diversos idiomas, e os espetáculos são legendados não apenas em hebraico, como também em inglês.

Estive por lá no segundo dos dois finais de semana que dura o festival. No dia 11, foi a vez de Tosca, com regência do diretor musical da Ópera de Israel, Daniel Oren, do qual os fãs do tenor italiano Luciano Pavarotti vão se lembrar devido a uma gravação da mesma ópera em Roma, em 1990.


Gustavo Porta como Cavaradossi, na Tosca apresentada no Festival de Ópera de Massada

Sem dispensar o quipá quer na entrevista, quer durante a função, Oren afirmou que a história de Tosca, uma mulher que prefere morrer a sacrificar sua honra, tem paralelo com a dos defensores judaicos da fortaleza de Massada. Sua concepção da ópera, algo convencional, combinou perfeitamente com o tradicionalismo da direção do francês Nicolas Joel (trechos do ensaio geral podem ser vistos aqui). A protagonista foi encarnada pela búlgara Svetla Vassileva, soprano de alta intensidade que, porém, sofreu com a afinação em sua célebre ária Vissi d'arte. O tenor argentino Gustavo Porta, como Cavaradossi, fez um trajeto inverso: cantando de forma aberta, padeceu com a ária inicial, Recondita armonia, para se recuperar ao longo da récita, e chegar firme ao último ato. Feitas as contas, a prestação mais sólida, pois desprovida das oscilações de seus colegas, revelou-se a do barítono norte-americano Scott Hendricks, como Scarpia.


Cena da produção de Tosca do festival, com o Monte Massada ao fundo

Se a encenação de Joel pode ser considerada sóbria e até elegante, Carmina Burana, no dia seguinte, não teve vergonha de se esbaldar no “kitsch”. Não por responsabilidade do britânico James Judd, diretor musical da Orquestra Sinfônica de Israel, que já regeu várias vezes no Brasil, e demonstrou uma leitura fluente da partitura. Mas sim do encenador polonês Michal Znaniecki que, em suas próprias palavras, transformou a cantata de Orff em “Indiana Jones em Massada”.

Isso mesmo. O barítono italiano Enrico Maria Marabelli (que demonstrou dificuldades com a região aguda de sua parte) foi caracterizado como o célebre explorador do blockbuster de Steven Spielberg, e cada trecho da cantata virou uma de suas aventuras – embora a entrada da soprano, a israelense de origem russa Alla Vasilevitsky, parecesse mais um episódio da animação A Pequena Sereia. Houve barco, houve balé, houve lutas, houve desfile de bichos (cavalos vivos e girafas artificiais), houve projeção na montanha e houve até fogos de artifício no final. Só não houve relação com os textos medievais da obra de Orff. O/a leitor/a que preferir julgar por si mesmo/a, pode ver aqui um trecho do ensaio geral.

Enfim, o carro-chefe do festival não era a desafortunada Burana, e sim Tosca, transmitida ao vivo para três cidades israelenses e também gravada para futura exibição em cinemas da Europa e dos EUA. A ideia é divulgar o festival não apenas pelo evento em si, mas para estimular o turismo cultural em Israel. Estima-se que quatro mil pessoas, cerca de 10% dos visitantes do evento, venham de outros países, e o desejo é fazer esse número crescer.

Pois Israel vê a ópera ao ar livre como uma vertente forte da interação entre cultura e turismo. Além dos espetáculos de Massada, haverá ainda uma produção de O elixir do amor, de Donizetti, na Piscina do Sultão, em Jerusalém, no final de junho, bem como uma de As bodas de Fígaro, de Mozart, na cidade histórica de Acre, em setembro. Para o ano que vem, Massada já definiu seus dois títulos: Sansão e Dalila, de Saint-Saëns, e Um baila de máscaras, de Verdi. Iniciativas que deveriam servir de exemplo e reflexão em um momento em que, por aqui, ao ouvir falar em cultura, tudo o que os gestores públicos fazem é sacar a tesoura.

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a convite do Ministério do Turismo de Israel, em parceria com a Turkish Airlines]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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