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Kissin & “Falstaff” (23/6/2015)
Por Jorge Coli

É preciso dar o desconto, porque eu estava cansado. Algumas vezes a música em concerto reanima, estimula, e no final o cansaço se vai. Às vezes, o corpo e o espírito permanecem arreados, sem remédio.

Foi deste último jeito que fiquei no recital oferecido pelo grande Evgeny Kissin, no dia 17 passado, na Sala São Paulo.

Ele é um soberbo virtuose. Justamente, meu mau humor me fez ficar pensando: grande pianista ou grande virtuose? Pensei na repugnância que Mário de Andrade tinha pelos virtuoses, que ele sentia como seres tomados pela vaidade de si mesmos. Malabaristas, ele dizia.


O russo Evgeny Kissin: “pianista é pianista, e virtuose é virtuose” [foto: F. Broede/divulgação]

Não sei se Kissin é vaidoso. Sem dúvida ele constrói um personagem com absoluto domínio de tudo. Um crítico já notou que até suas inclinações de agradecimentos são calculadas, milimétricas, perfeitas.

Sua execução pianística é controlada, com uma técnica que não conhece limites. Incluindo na palavra técnica a perfeita dosagem do colorido.

O recital começou com a Sonata nº 10 em dó maior, K 330, de Mozart. Pérolas se debulhavam em fluidez com uma ponta de humor, numa concepção que não se importa com restituições filológicas, mas que reencontra a leveza elegante do século XVIII.

Em seguida, foi a Appassionata. Continuava a maravilhosa sonoridade. Contudo, a violência dos contrastes na dinâmica, no andamento, surgiam sem um discurso de fato coerente. Minha impressão era de uma construção em fragmentos, por vezes maravilhosos, mas sem compreensão do conjunto.

Na segunda parte foram os Três intermezzi de Brahms, musica interior e de elevada poesia. O discurso musical parecia brotar de um controle dos efeitos destinados a oferecer a intenção da poesia – “vejam como isto é poético” – em vez de fazê-lo viver poeticamente.

Enfim, uma seleção de evocações de cidades espanholas. As quatro primeiras pelo gênio de Albéniz: Granada, Cádiz, Córdoba e Astúrias. O pianista fazia brilhar a mão direita, abandonava-se aos rubati de rigor, e as pequenas jóias, calorosas e delicadas, soavam bonito. Mas eis que, para terminar a seqüência, Kissin inclui uma peça de Larregla, intitulada ¡Viva Navarra! Obra espetacular, pouco sutil, de exotismo fácil e sem grandeza musical, talvez ela fosse boa para um bis. Vinda após a finura altamente inspirada de Albéniz, degradava as obras que a precederam, rebaixando tudo à categoria de espanholismo pouco exigente. Está claro, o espetáculo virtuose dessa Navarra – que faria, em comparação, Gottschalk surgir como um poço profundíssimo – arrancou os aplausos entusiásticos do público. Que urrou de alegria, no segundo bis, a Polonaise héroïque, op. 53, de Chopin, obra-prima indiscutível, tocada com brio, que, porém, estava lá para fazer o público urrar.

Por que não? Mas tenho para mim, apesar de meu cansaço no dia, que pianista é pianista, e virtuose é virtuose.


O Theatro São Pedro reeditou Falstaff, de Verdi, na excelente montagem de 2013, concebida por Stefano Vizioli. Pude ver a última récita, domingo, dia 21.

De imediato, sem delongas: para mim é um mistério que Rodolfo Giugliani, o protagonista da ópera, não esteja pisando os palcos dos grandes teatros internacionais. Sua voz é excepcional: poderosa, com timbre caloroso e escuro, formidável projeção, homogênea nos graves, médios e agudos, que ele atinge com uma facilidade desconcertante. Outra perplexidade, maior ainda, é que ele não esteja mais presente nas produções brasileiras: quantos barítonos pagos a peso de dólares que aportam por aqui não o valem!


Cena do Falstaff, de Verdi, apresentada pelo Theatro São Pedro [foto: Décio Figueiredo/divulgação]

Em seguida: Anibal Mancini, que encarnou Fenton. Jovem cantor, pertence à Academia do Theatro São Pedro. Já havia interpretado o mesmo papel em 2013, e suas qualidades vocais anunciavam então a evolução que se ouviu ontem: um artista atingindo a mais alta poesia graças à sua musicalidade poética, à beleza do timbre, à plasticidade da linha melódica. Reúne, ele também, as condições para uma bela carreira internacional.

Ainda entre os homens: Douglas Hahn, cantor consagrado, criou um excelente Ford. O encontro dos dois barítonos no segundo ato foi um dos momentos altos dessa representação, que contou com tantos.

Não me detenho na menção dos outros intérpretes, embora eles o merecessem, porque completaram com galhardia o elenco.

A Orquestra do Theatro São Pedro, sob a batuta de Silvio Viegas, viva, precisa, deu as melhores cores para essa ópera cintilante.

Um ponto: a montagem de Stefano Vizioli foi revista por Pierluigi Vanelli. Perdeu rigor na direção dos atores: a gesticulação sem timing, sublinhada demais, transmitia menos o humor do que essa obra-prima é feita, do que efeitos exteriores, nem sempre convincentes. Isso perturbou sobretudo o primeiro ato. Mas a partir da cena hilariante do cesto jogado no Tâmisa, a máquina do riso entrou nos eixos.


[Veja também]
•  Ouvinte Crítico: Evgeny Kissin – Vote até o dia 24 de junho
•  Ouvinte Crítico: Falstaff, de Verdi, no Theatro São Pedro – Votação encerrada

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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