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Duas vidas dedicadas ao canto (26/6/2015)
Por João Luiz Sampaio

Uma conversa com Edna d’Oliveira e Edineia de Oliveira

Os padres responsáveis pelo coral não sabiam o que fazer com aqueles dois vozeirões. Uma das meninas era “aguda demais”, a outra, muito grave. Ninguém conseguia acompanhá-las. Sem problemas: elas logo montaram uma banda e assumiram de vez a atividade musical da igreja. Estavam com 12 e 10 anos. E a soprano Edna d’Oliveira e a mezzo soprano Edineia de Oliveira começavam ali uma trajetória que as levaria aos principais palcos do país. Este ano, por exemplo, estiveram juntas em fevereiro na inauguração da Sala Minas Gerais, como solistas da Sinfonia nº 2 de Mahler; e, na semana passada, estrelaram uma montagem do Falstaff, de Verdi, no Theatro São Pedro, fazendo a estreia nos papeis de Alice e Quiclky.


As irmãs Edna d’Oliveira e Edineia de Oliveira: duas vidas dedicadas ao canto [foto: divulgação]

A conversa com as irmãs começa lá atrás, na infância em Minas Gerais – e na descoberta da música. “Papai adorava ouvir Nelson Gonçalves, era um tenor, adorava cantar. E tinha uma mania gostosa, comprou um gravador e fazia uma orquestrinha caseira. Dava para os sete filhos os instrumentos de madeira, pianinho, tecladinho. E, à noite, como não tínhamos TV em casa, fazíamos saraus. A gente tocava e ele cantava. Ao mesmo tempo, na igreja, a gente cantava durante as missas”, lembra Edna. “Ficamos responsáveis pela parte musical das cerimônias, o pessoal ficava entusiasmado, até porque o padre era muito desafinado”, emenda Edinéia.

O pai acompanhava o talento musical das filhas com ressalvas – podiam se dedicar à música, mas só se tivessem um outro emprego, “mais formal”. Mas não teve jeito. Quando Edna e Edinéia estavam com 14 e 12 anos, foram ao Palácio das Artes, em Belo Horizonte, assistir o Grupo Corpo. Eram duas coreografias: a primeira, com música de Mozart; a segunda, com as Quatro últimas canções, de Strauss. “A gente estava ali, quietinha, morrendo de medo de tudo, havíamos ganhado os ingressos. E de repente começa a tocar a gravação do Strauss com a Jessye Norman. Eu chorava, chorava, pensando: Meu Deus, o que é isso? Foi ali que ouvi a voz lírica pela primeira vez”, conta Edineia. Para Edna, a revelação se deu no mesmo palco, pouco tempo depois. “Mas foi com a Celine Imbert cantando Madama Butterfly, de Puccini.”

Um dos irmãos Oliveira, Edson, tenor, trabalhava no coral amador da Sefaz, Secrataria da Fazenda de Minas. E as chamou para fazer uma prova. Passaram. E conheceram Angela Regina e Carlos Alberto Pinto Coelho, do coro Ars Nova. O incentivo dos dois as levou a tentar a sorte no coral da Escola de Música da UFMG. “Eu fui fazer a prova, cantando a parte do coro da Nona sinfonia de Beethoven, imagina só, com a Edineia me acompanhando no violão. Eu cantei e o Geraldo Chagas perguntou se a Edineia não ia cantar nada. Ela cantou Mozart e passou em primeiro lugar! Não tinha nem se inscrito, e eu fiquei em terceiro!”

Tudo isso, é bom lembrar, escondidas do pai. Edna, na verdade, com 18 anos, prestou concurso público na prefeitura de Belo Horizonte e passou. Tinha, portanto, o emprego “formal” que o pai tanto queria. “Mas a Edineia às vezes saía de casa com o uniforme da escola para ir ao conservatório, assim o papai achava que ela estava indo para alguma atividade do colégio mesmo.” Foram anos de trabalho intenso: Edna conta que elas chegaram a cantar em oito corais diferentes durante a semana. “Aprendemos muito. Não se ganhava nada, mas o repertório no Ars Nova era enorme. Antes de todo ensaio, havia uma sessão de técnica vocal, de teoria”, diz Edineia.

Aos 17 anos, Edineia entrou para o Coro Lírico de Minas Gerais. Ela agora também “tinha holerite e um emprego público”, para tranquilidade do pai. Mas o trabalho duro continuava. Edna também passaria a cantar no Palácio das Artes. E as duas seguiam todos os sábados para Curitiba, para ter aulas com Neyde Thomas. Até que, de São Paulo, o barítono Sebastião Teixeira avisou: chega de Belo Horizonte, vocês precisam vir para cá, o Coral Lírico está fazendo concurso. “Era uma época complicada, em pleno Plano Collor, não tinha dinheiro, as temporadas em Minas minguaram. Mas tínhamos um emprego, estávamos na faculdade estudando Letras, então era difícil deixar a cidade. Alguns anos depois, no entanto, eu acabei indo”, conta Edineia.

Edineia passou a ser orientada por d. Leila Farah e entrou para a Unesp, onde estudou com Fernando Carvalhaes – e Edna, que no começo vinha para São Paulo de quinze em quinze dias, acabaria se instalando na cidade e frequentando a universidade. “O Fernando era um carrasco, mas foi muito bom para nós. Ele não tinha dó: se não estava bom, saía da sala e mandava a gente arrumar o que estava errado. Apesar das aulas com dona Leila, a nossa grande mestra seguiu sendo a Neyde. Só deixamos ela para estudar com o Carmo Barbosa, a quem devemos muito. Mas a gente não tinha deslumbramento não, até porque trabalhamos com gente exigente a vida toda. Gente que sempre reconhecia nosso talento, mas apontava o que estava errado. Além do Fernando, o maestro Alessandro Sangiorgi ajudou muito, preparava papeis com a gente, não cobrava nada. E tinha o Marcelo Mechetti, que era diretor do Coral Lírico. Ele não passava a mão na nossa cabeça, era muito criterioso, mas nos tranquilizava. Ele dizia: Vamos, estudem que tudo vai dar certo”, conta Edineia.

O aprendizado se dava no palco. “A gente fazia papeis pequenos no Municipal ou cantava no coro e, durante os ensaios, ficava observando tudo, com a partitura na mão, anotando o que aqueles grandes solistas faziam. Elena Obraztsova, Eva Marton, a gente ouvia e anotava. Não tinha outro jeito, a gente aprendia ali, no palco mesmo”, diz Edineia. “É por isso que são tão importantes iniciativas como a academia do São Pedro ou o Ópera Estúdio da Escola Municipal de Música. Elas oferecem um ambiente seguro para o aluno terminar de se desenvolver. É uma oportunidade que a nossa geração não teve. A gente ia direto para o palco. E não podia errar”, completa Edna. “Hoje, o aluno da academia tem um maestro como o Luiz Malheiro cuidando deles. A gente tinha o Tulio Collaciopo, que chegava no ensaio no Teatro Municipal, tirava um crucifixo de debaixo da camisa e dizia para os cantores e o coro: Essa passagem só vai dar certo com muita reza”, lembra Edineia, divertindo-se.

O estudo não terminava, inclusive com a utilização das férias para cursos dentro e fora do Brasil. “Se levamos em consideração a diversidade brasileira, a população negra no mundo da música é muito pequena. Nossa geração já teve mais oportunidades do que aqueles que vieram antes. Não queremos fazer disso uma bandeira. Mas o negro precisa acreditar que pode entrar nesse mercado. Mas sabendo que se você não for um excelente profissional, extremamente bem preparado, sendo negro, não vai conseguir, de jeito nenhum”, diz Edineia.

Edineia ficou durante 15 anos no Coral Lírico; Edna, 12. De lá, saíram para carreiras como solistas. Edna cantou papeis em óperas como Rigoletto, La bohème, Don Pasquale, As bodas de Fígaro, em palcos como os Municipais de São Paulo, Rio e Theatro Amazonas. Edineia, depois das inesquecíveis participações em Bug Jargal e Iara, de Gama Malcher, no Theatro da Paz, em Belém, fez Azucena, Amneris, Eboli, “todos esses Verdis que nunca sonhei que poderia cantar”, mas todos fora do Brasil. Ambas já foram solistas de orquestras como a Osesp. E se dedicam ao ensino, com alunos particulares, um grupo de estudantes em Vitória, no Espírito Santo e, no caso de Edna, aulas na Faculdade Cantareira e na Escola Municipal de Música de São Paulo.
 
E qual teria sido o momento mais marcante dessa trajetória? A memória do pai retorna. “Ele vivia preocupado com o nosso futuro. Até que assistiu a gente no Trittico, de Puccini, no Municipal do Rio. Foi a primeira vez que nos viu em papeis importantes, protagonistas. E ficou todo orgulhoso, dizendo para todo mundo na plateia: É minha filha, é minha filha. Ali ele teve a certeza de que nós ficaríamos bem e nos disse: Não importa o que acontecer, sigam adiante. Anos depois, era 1999, a Edineia estava cantando Rigoletto no Municipal de São Paulo e eu estava fazendo o Zap!, com o Marcelo Tas. E na manhã do dia da estreia, ficamos sabendo que papai havia falecido, depois de um tempo com câncer. A gente queria cancelar, mas mamãe não deixou. Ela ligou e falou: Vocês vão se arrumar, fazer o cabelo, a unha, comprar uma roupa nova e ir cantar, porque era isso que o pai de vocês gostava de ver vocês fazendo. A gente queria cancelar, mas aquele 1,45m de mulher não deixou: cantem e amanhã venham se despedir do seu pai. Foi o que fizemos. E ali, de alguma forma, soubemos que de fato havíamos nascido para cantar.”

E quais os próximos desafios? Qual o papel que elas sonham ainda interpretar? Edna responde de cara. “Tosca. É um alvo. Eu não sei se vou fazer, mas gostaria muito. Outro é a Salomé. Eu às vezes experimento e sinto que dá. Mas são papeis que, se você não fizer direito, podem significar o seu fim. E ainda é muito cedo para ‘fins’, então dá para esperar mais um pouco.” Para Edinéia, a vontade é de cantar Sansão e Dalila. “Conheço o papel todo, é difícil, exige muito a região média e o grave. Mas quero poder experimentar. De qualquer forma, já realizei dois grandes sonhos: fazer Eboli, na ópera Don Carlo (na Argentina, em 2013), e Carmen (no Municipal do Rio, em 2014).” Edna retoma a palavra. “É esse o caminho do cantor, o do amadurecimento vocal. É uma trajetória ascendente, que muita gente confunde com declínio. Eu lembro de uma coisa que a grande soprano Magda Olivero me disse durante uma masterclass: não tenha medo quando a voz começar a amadurecer. Eu lembro da frase exata, que me marcou muito: Não tenha medo, deixa a voz caminhar.”


Confira abaixo a entrevista de Edna d’Oliveira e Edinéia de Oliveira para a tvCONCERTO:

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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