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Concerto de rua: quando Bach e Ravel reverberam em meio à cacofonia urbana (22/10/2008)
Por Leonardo Martinelli

Dias atrás estava dando conta de alguns afazeres no centro de São Paulo, e a um dado momento, quando descia a Rua Conselheiro Crispiniano, tendo o Theatro Municipal ao meu lado, fui tomado de assalto - digo metaforicamente (ainda bem!) - pela famigerada e sempre bem-vinda melodia do "Bolero", de Maurice Ravel. Em meio à cacofonia urbana, ser alvejado por uma música como esta é uma surpresa que faz muito bem. Uma gotinha de cor em meio ao cotidiano cinzento e árido desta urbe.

Uma fez passado o impacto inicial, concluí que a música vinha do próprio teatro, que algum músico a estivesse estudando perto de uma das janelas que dão vista para a rua. Mas, de repente, noto que a música não vem do teatro, mas sim de um senhor de longas madeixas grisalhas, que tocando seu saxofone, estava postado na esquina da Rua 24 de maio com o estojo de seu instrumento aberto no chão, cumprindo seu ancestral destino de coletor de dinheiro.

Apressado como estava, não parei para escutar o músico (e, confesso, nem para lhe dar alguma grana). Mas notei que já se formava em torno dele uma pequena platéia, e enquanto seguia o meu percurso, lembrei de uma história que li num antigo LP do "Bolero". Se é verdade ou não, não importa (afinal, toda história tem muito de "estória"), mas ela dizia que certa vez Ravel confidenciou a um amigo que acabara de escrever uma música que faria um sucesso tão grande que em pouco tempo até mesmo um fruteiro assoviaria a tal melodia, no caso, o "Bolero". O tal amigo conta que tempos depois, quando estava em um hotel em Roma, ouviu a famosa melodia silvando na rua, e quando ele foi à janela para conferir, adivinhe quem a estava assoviando?

Em tempos em que é comum ouvir música sem músico, apenas com o apertar de um botão (play!), fica cada vez mais difícil nos depararmos com essa forma milenar de arte, que antes de ser confinada à marginalidade foi um importante meio de difusão musical.

Na paulicéia desvairada, apesar de seus milhões de habitantes, não é fácil cruzar com um. O que se encontra com relativa facilidade são cantores sertanejos que, munidos de um micro-estúdio alimentado com uma bateria automotiva, realizam shows improvisados nas ruas e praças do centro. Ao invés de um estojo de instrumento, espalham-se pelo chão CDs artesanais vendidos por alguns trocados.

Mas e aqueles autênticos músicos de rua, aqueles para os quais os ingleses inclusive criaram uma palavra própria ("busker"), onde estão?

Recentemente, em minhas idas e vindas na região da Avenida Paulista, tenho me deparado com jovens violinistas - em geral, em dupla - que têm exercido sua arte no coração financeiro brasileiro. Entre pequenas peças de Bach e clássicos da MPB em versão unplugged, será que eles conseguem amolecer os empedernidos corações de nossos executivos e angariar algum fundo, ainda que não de renda fixa?

No ano passado, um dos mais famosos buskers paulistanos ganhou as manchetes dos jornais ao ser impedido de exercer sua atividade. O flautista Emerson Pinto, mais conhecido Pinzindin, era figura conhecida dos freqüentadores do Conjunto Nacional, quando a administração do condomínio propôs um acordo financeiro, aceito por Pinzindin, para que ele não mais realizasse suas apresentações nas dependências do edifício. As reportagens da época dão várias versões do que ocorreu após o tal acordo, mas o fato é que o som de sua flauta não dá mais o ar da graça, descolado para a entrada do metrô, na esquina do famoso edifício.

Mas, afinal, há qualidade nesse tipo de prática musical?

Bem, tudo depende do músico e, de certa forma, do lugar onde se está. Anos atrás, uma musicista amiga minha mudou-se para Toronto, no Canadá, e para poder tocar como busker no metrô local teve que passar por um teste artístico antes de lhe ser concedido um local e horário para que ela pudesse trabalhar. Ela passou no teste e não reclamou do dinheiro que conseguiu no período que trabalhou, pois ao contrário do que pode parecer, em geral essa atividade não está associada à mendicância.

E, é claro, há a deliciosa experiência sociológica pela qual o virtuose Joshua Bell passou ano passado como músico de rua. A pedido de uma reportagem do Washington Post, o violinista norte-americano tocou com seu Stradivarius belas e dificílimas peças para a platéia de transeuntes do metrô da capital dos EUA. Em meio ao frenesi de um terminal de trens, passaria despercebida uma música tocada divinamente? De forma geral sim, mas vários deixaram-se deter pela sonoridade excepcional do músico, cuja identidade foi reconhecida por apenas uma pessoa (veja abaixo o link para a reportagem e o filme sobre a experiência).

Por isto, da próxima que estiver andando pelas ruas e se deparar com um "concerto de rua", pare, ouça e contemple esta pequena jóia. E, é claro, deixe uma contribuição. A música agradece.

Joshua Bell tocando no metrô: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/04/04/AR2007040401721.html





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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