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Os Brodsky e os Takács... e a nossa dura realidade (7/8/2015)
Por João Marcos Coelho

No reino da música de câmara, os quartetos de cordas são entidades à parte. Há uma cena emblemática que comprova isso no ótimo filme O último concerto (2012). É quando Christopher Walken, o violoncelista, que sente os sinais do Alzheimer e busca um substituto, encontra uma jovem asiática notável que integra um trio piano-violino-cello. Mas um dos integrantes do trio reclama. A resposta de Walken é perfeita. Não me lembro das palavras exatas, mas é algo assim: em trio este tipo de substituição é corriqueira e sem traumas. Em quarteto, a história é outra, ele pode até se dissolver se a alternativa não se encaixar.

Antes de prosseguir, lembrei de outra estória de arrepiar. Certa vez, um secretário municipal de Cultura de São Paulo decidiu demitir de uma vez todos os integrantes do Quarteto Cidade de São Paulo. Quando o alertaram de que o gesto era impensado e musicalmente absurdo, ele respondeu: “Contrato outros quatro amanhã, e ficará tudo bem”. Só se esqueceu de que são necessários no mínimo dez anos para um novo quarteto ter condições mínimas para se apresentar profissionalmente em nível digno.


O Quarteto Brodsky, da Inglaterra, que esteve no país para o Festival de Campos do Jordão [foto: divulgação]

Estes dois episódios me vieram à cabeça depois de assistir, no curto espaço de vinte dias, a dois quartetos excepcionais na Sala São Paulo: em meados de julho, dentro do Festival de Inverno de Campos do Jordão, e com ingressos superacessíveis (R$ 25 e 50, Sala São Paulo com inexplicáveis 250 pessoas apenas), o Brodsky (um show de inteligência na montagem do programa, rigorosamente espelhado, com peças contemporâneas aliadas a obras-primas – um “serioso” opus 95 de Beethoven de exceção). E no início deste mês, o Takács, igualmente soberbo, mas com ingressos sensivelmente mais altos e público maior, que no entanto não chegou a lotar a sala. O Quarteto nº 4 de Bartók foi dessas experiências de não se esquecer mais na vida.

Detalhe: segundo Fabio Zanon, os Brodsky vieram ao festival para ensinar a jovens quartetos locais. Só que eles não existem. Infelizmente, não temos jovens quartetos de cordas. Não é só de se lamentar. É perverso. Porque para os músicos de cordas a experiência do quarteto talvez seja a mais decisiva de suas vidas profissionais futuras. A interpretação de uma obra se constrói a quatro, por meio de um longo e minucioso trabalho de reflexão comum, diálogo e preparação. Todos precisam não apenas concordar sobre a maneira de tocarem juntos ou se interrogar sobre o sentido que querem dar à obra. Necessitam conquistar uma unidade na diversidade das personalidades de cada um, na expressão de Bernard Fournier, autor de quatro monumentais livros sobre o gênero.

As dificuldades técnicas parecem intransponíveis no início, abrangendo as coerências das arcadas, os fraseados, os modos de ataque, acentos, dinâmica etc. Um duro porém fertilíssimo aprendizado, fundamental para os músicos de cordas.

E não temos nenhum grupo jovem. Péssimo. Que tal estimular o nascimento de quartetos por aqui?

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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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