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Son(ho)s de uma noite de verão: quatro momentos do Festival de Salzburgo (17/8/2015)
Por Leonardo Martinelli

Iniciou-se no último 18 de julho a edição 2015 do Festival de Salzburgo, que se estenderá até o dia 30 de agosto. Notoriamente um dos maiores eventos do calendário clássico mundial, o festival deve seu prestígio artístico à eficiente execução de uma fórmula infalível: um gordo orçamento financia uma enorme quantidade de espetáculos (óperas, concertos, recitais e peças de teatro), em sua grande maioria protagonizados ora por grupos de tradição e prestígio, ora por nomes que no momento estão na crista da onda. Desta forma o festival de verão da cidade natal de W. A. Mozart é também um who’s who? desse microcosmo tão peculiar.

Acompanhar da capo al fine um evento deste porte requer condições temporais, financeiras e de vida muito peculiares e, como a maioria de seu público, aproveitei uma brevíssima passagem pela cidade para conferir uma pequeníssima parcela das atrações deste ano.

Latinidades
Os recitais de canto e piano integram um eixo próprio e importante na programação do Festival de Salzburgo. Designados no evento pelo termo Liederabend (literalmente “noite de canções”), ele remete-se ao hábito de diferentes comunidades de língua alemã que, a partir do século XVIII, reuniam um pequeno grupo de pessoas em salas e salões para ouvir canções, recitar poesia e girar a roda da vida social local.

Hoje em dia o ambiente intimista do Liederabend cedeu lugar às salas de concertos, tal como ocorreu no recital do aclamado tenor peruano Juan Diego Flórez, realizado no gigantesco espaço da Grosses Festspielhaus (ou “Grande Sala do Festival”, onde também ocorrem montagens de óperas e grandes concertos sinfônicos).


O tenor peruano Juan Diego Flórez em seu recital na Grosses Festspielhaus [foto: Marco Borrelli/divulgação]

Detentor de um timbre vocal belo e singular, Flórez tem também potência para não se deixar engolir pela acústica da sala. Acompanhado pelo pianista Vincenzo Scalera, o tenor propôs um programa equilibrado, integrado tanto por canções como por árias de óperas.

Ao centrar o foco no repertório italiano, Flórez acertou ao banquetear a audiência com aquilo que faz de melhor, em especial árias de Donizetti (T’amo qual s’ama un angelo e Fra poco a me ricovero) e Rossini (Tu seconda il mio disegno), além de simpáticas canzonettas de Leoncavallo e Paolo Tosti. Isso não quer dizer que o repertório francês que o tenor apresentou (chansons de Duparc e ária Salut! Demeure chaste et pure, de Gounod) não tenha agradado. Mas dado o contexto, ele serviu mesmo para reforçar a excelência de Flórez no repertório italiano.

Tudo seguia como manda o protocolo até o final da última canção. Ovacionado, Flórez fez de seu bis praticamente outro recital. Ou melhor dizendo, uma serenata latina: tirou a gravata borboleta em pleno palco, cantou Bésame mucho se auto-acompanhando com um violão elementar, depois cantou Granada e, como a ideia era levar o público às raias da loucura, encerrou a fiesta com Ah! Mes amis, a famosa árias dos nove dós agudos de Donizetti.

O som da voz humana continuou a ser o destaque com a nova produção para a ópera A conquista do México (em alemão, Die Eroberung von Mexico), do compositor alemão Wolfgang Rihm. Apesar do título constar na programação operística do festival, na prática ela se distancia do teatro lírico para transitar no movediço terreno do teatro musical contemporâneo. Estreado em 1992, o título conta com libreto do próprio compositor, que aborda a questão do “descobrimento das Américas” já pela perspectiva de uma historiografia ideologicamente revisada, tratando a questão em termos de invasão, holocausto, submissão e, de certa forma, derrota do próprio projeto civilizatório europeu.

Em A conquista do México o distanciamento da linguagem operística ocorre menos pela bela, moderna e instigante linguagem musical de Rihm – em si de forte vocação lírica – e mais pela estrutura de seu libreto, que abre mão do plano narrativo linear para enfatizar um texto de natureza essencialmente simbólica, proferido por personagens que, desta forma, são menos persona e mais totens musicais, espetacularmente desempenhados pela soprano Angela Denoke (Montezuma) e pelo barítono Bo Skovhus (Cortéz).


Cena de A conquista do México, com Skovhus (pulando) e Denoke (de vestido florido) [foto: Monika Rittershaus/divulgação]

Se dessa forma a partitura desta obra tende mais para estaticidade dramática de um oratório, coube ao diretor de cena Peter Konwitschny redimensioná-la de forma brilhante como teatro de ópera, ambientando o argumento do enredo para os dias atuais, sempre com certeiras doses de cáustico humor e profundo horror, tendo como pano de fundo o toque levemente surreal do teatro construído em uma antiga escola de equitação da cidade (a Felsenreitschule).

A complexa partitura de Rhim foi engenhosamente trabalhada pelo regente Ingo Metzmacher, à frente dos excelentes músicos da Orquestra Sinfônica da Rádio de Viena. A presença de um título contemporâneo em um festival marcado pela tradição (quando não pelo “tradicionalismo”) e o sucesso e a receptividade do mesmo pelo público são a prova prática que os proclamados dilemas, problemas e barreiras para a ópera contemporânea são mais imaginários do que reais: a ópera, sim, vive!

Liturgias
Se de por um lado um bom número de atrações de Festival de Salzburgo emana exuberância e calor, pelo outro o evento mostra-se cioso em assegurar o devido espaço para espetáculos mais centrados e comedidos – enfim, tradicionais –, mas que nem por isso deixam de trazer alta voltagem musical e afetiva.

De certa forma, a montagem da ópera Fidelio, de Beethoven, seguiu o caminho inverso da trajetória vivenciada em A conquista do México, pois, uma vez suprimidos os diálogos originais, a direção de cena de Claus Guth minimizou o quanto pode a natureza narrativa da partitura. Desta forma projetou-se para um plano o mais próximo possível do simbólico a famosa história de amor e heroísmo de Florestan e Leonore, quase forçando uma aproximação com o oratório (especialmente no primeiro ato).


Jonas Kaufmann e Adrianne Pieczonka na montagem de Fidelio [foto: Monika Rittershaus/divulgação]

Até aí, tudo bem. O problema, por assim dizer, foi que ao suprimir-se os diálogos optou-se por preencher o vazio acústico-narrativo por efeitos sonoplásticos de respiração humana (já aprendi que simbolismos não se traduzem: se vivenciam. Então não darei aqui uma possível explicação para eles).

Novamente, até aí, tudo bem. O problema foi a precariedade sonora do material utilizado. Realizar inserções, arranjos ou comentários musicais às partituras originais era algo relativamente comum na prática musical antes do incompreensível processo de sacralização que a ópera e a música de concerto passaram a sofrer no século passado. A mim não me incomodou ouvir um elemento alienígena à música de Beethoven (talvez esse o motivo de algumas das vaias que se fizeram ouvir ao final da apresentação), mas sim à sua pobreza musical.

Ainda bem que grandeza não faltou à bela voz da soprano Adrianne Pieczonka (Leonore) e ao baixo Hans-Peter König (Rocco). Ainda que sempre bela, na récita que compareci a voz do tenor Jonas Kaufmann (Fidelio) estava dinamicamente um patamar abaixo do conjunto, completado pelos sempre superlativos integrantes da Orquestra Filarmônica de Viena, sob a competente regência de Franz Welser-Möst.

E por falar na mais famosa orquestra da Áustria, vale a pena lembrar que em tese o festival é sua residência de verão, e nada mais natural que ela acabe por protagonizar importantes momentos e memórias em Salzburgo.

E, de fato, “memorável” é um termo que se aplica bem ao concerto realizado sob a batuta do regente holandês Bernard Haitink, interpretando a Sinfonia nº 8 de Bruckner, obra estreada por essa mesma orquestra em 1892.


Haitink e a Filarmônica de Viena após a memorável Oitava de Bruckner [foto: Marco Borrelli/divulgação]

Mais que um concerto, foi uma celebração, aqui no sentido mais solene e transcendental do termo. Maduro e detentor de uma musicalidade tão precisa quanto natural, o Bruckner de Haitink é estonteante porque extrai as diferentes sonoridades implícitas na partitura. Quão comum é ouvirmos um “Bruckner religioso”, um “Bruckner wagneriano”, um “Bruckner mahleriano”. E quão raro é ouvirmos um “Bruckner bruckneriano”, com todas suas nuanças e sutilezas. E esse é um desafio que Haitink transpôs com gestos curtos, econômicos, mesmo nos momentos em que desencadeavam verdadeiros turbilhões orquestrais. Pompa, elegância, ardor e drama reunidos em gesto e música, e que de certa forma simbolizam bem o espírito do festival como um todo.

Clássicos Editorial Ltda. © 2015 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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