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Diário de Salzburgo 2015 – Parte 5 (31/8/2015)
Por Irineu Franco Perpetuo

Dia 5 (28/8): Iphigénie en Tauride
Nessa semana, a Áustria foi sacudida por uma notícia horripilante: fugindo, ao que parece, da guerra na Síria, 71 pessoas foram encontradas mortas dentro de um caminhão frigorífico, tentando ingressar em solo europeu. Aquela que se configura como a maior crise de refugiados do continente desde a 2ª Guerra Mundial confere ainda mais urgência à encenação do Festival de Salzburgo de Iphigénie en Tauride, que transporta a ação da ópera de Gluck para os dias atuais, retratando Ifigênia e suas colegas sacerdotisas como exiladas à força em terra estrangeira – uma urgência acentuada pelo fato de os personagens da obra serem originários de uma Grécia que hoje é acuada pela ruína financeira, e de a ação se passar no território que atualmente corresponde à Crimeia, disputada a bala entre Ucrânia e Rússia. Os que veem a ópera como divertimento escapista talvez preferissem que tal discussão ficasse do lado de fora dos teatros do festival. Salzburgo, porém, é a cidade que tem pendurado cartazes com os dizeres “Refugees are welcome here” (refugiados são bem-vindos aqui), e reafirma a importância social da ópera como arena para discussão dos mais candentes problemas sociais.

Estreada no primeiro semestre, durante o Festival de Pentecostes que Cecilia Bartoli chefia anualmente na cidade natal de Mozart, a produção de Moshe Leiser e Patrice Caurier sabiamente se recusa a ceder à tentação fácil de aludir a episódios pontuais do noticiário – o que poderia fazer sua visão envelhecer rapidamente. Sim, Ifigênia traja moletom, e seu opressor, o rei Thoas, terno e gravata, porém nada os associa de forma imediata aos personagens das crises contemporâneas. Em vez de caricaturas de figuras de telejornal, eles são os protagonistas de um drama candente e pungente.


Ao centro, Michael Kraus, Cecilia Bartoli e Christopher Maltman [foto: Monika Rittershaus/divulgação]

Na ópera, a voz do narrador é a música, e a aliança íntima entre arte dos sons e arte dramática proposta por Gluck foi conduzida com extrema energia e fluência pelo italiano Diego Fasolis, extraindo da orquestra I Barocchisti uma sonoridade com matizes que tendem ao infinito, e fazendo dos instrumentos de época participantes ativo do drama que se desenrolava no palco da Haus für Mozart.

Se, no fosso, Fasolis não deixava a peteca cair, no palco, um elenco extremamente concentrado mantinha a tensão o tempo todo. Um bairrismo latino me dá vontade de enfatizar a entrega de uma Bartoli que não hesitava em esmurrar as paredes do cenário quando necessário, ou de um Rolando Villazón que, no papel de Pylade, chegou a deixar lágrimas aflorar a seus olhos (como era possível ver da quarta fileira). Porém, escapando dos estereótipos de nacionalidade, é impossível negar a intensidade do barítono britânico Christopher Maltman, forçado a cantar toda a cena de seu sacrifício, no quarto ato, nu em pelo – cobrindo com a mão as partes pudendas.


Christopher Maltman canta nu no quarto ato de Iphigénie en Tauride [foto: Monika Rittershaus/divulgação]

Dito desse jeito, parece que estamos falando de uma performance de uma ópera do verismo italiano. O fascinante nessa Iphigénie é que toda essa carga dramática não se opunha à mais sutil das abordagens do fraseado e do texto musical. Pelo contrário: os cantores não apenas se esforçavam para articular cada palavra do libreto com a maior clareza possível, como ainda realizavam na dinâmica de cada frase um meticuloso trabalho de ourivesaria.

Nesse aspecto, não pode haver mestra maior do que Bartoli. Sim, embora ela seja a razão de ser dessa produção, a voz da mezzo-soprano italiana é possivelmente a menor do elenco. Mas que prazer é não apenas fitá-la nos olhos e ser inundado pela veemência de sua caracterização, como ainda desfrutar de sua profunda familiaridade para com o estilo do século XVIII!

Devo confessar que minha maior preocupação, no elenco, era o tenor mexicano Rolando Villazón – não só devido ao histórico recente de cancelamentos e interrupções de sua carreira, mas porque, anteontem à noite, cruzei com ele no restaurante Triangel, de Salzburgo, falando alto, dando gargalhadas e bebendo exposto ao sereno da madrugada. Bem, a julgar por sua performance no festival, a gandaia anda fazendo bem a Villazón, cujo vigor vocal não deixou nada a dever com relação a Maltman, ou mesmo ao tonitruante e imponente Thoas do barítono austríaco Michael Kraus. Vale destacar, ainda, a sofisticadíssima prestação do Coro da Radio e Televisão Suíça, de Lugano, também ele esmerado em pintar com bico de pena as sutilezas da escrita gluckiana - em frontal oposição aos berreiros da proposta “som e fúria” que ainda parece ser hegemônica nos coros brasileiros.

O propósito de vir a um festival como o de Salzburgo é ter a oportunidade de presenciar encontros artísticos únicos, que reinventem nossos padrões artísticos e estabeleçam novos paradigmas de excelência. Nesse sentido, talvez não seja exagero ver nessa Iphigénie en Tauride de 2015 um marco, com consequências e ressonâncias nos anos vindouros.


Dia 6 (29/8): Yo-Yo Ma (violoncelo solo); Ernani em concerto com Riccardo Muti
Minha programação original, hoje, era “apenas” ver a ópera Ernani, de Verdi, regida por Riccardo Muti no Grosses Festspielhaus. Porém, Carlos Rauscher (sempre ele) chamou-me a atenção para o fato que, mais cedo, Yo-Yo Ma tocaria suítes de Bach para violoncelo solo na Haus für Mozart. Como os teatros ficam um literalmente ao lado do outro, seria viável conciliar ambas as apresentações.

Realmente, teria sido um crime contra mim mesmo desperdiçar um dos musicistas mais maduros e de maior domínio técnico da atualidade executando um repertório com o qual está familiarizado há décadas. Questões de “autenticidade” parecem mesquinharia quando um intérprete com a capacidade de comunicação, carisma e profundidade de entendimento como Yo-Yo Ma se apossa desse repertório. Sua interpretação das suítes nºs 1 e 5 de Bach é “definitiva”? Talvez não, e eu nem acredito nesse fetiche da interpretação “definitiva”. O que dá para dizer é que ela soa transcendental, como a própria música de Bach.

Deu uma certa dó não ficar para a segunda parte, para conferir a leitura de Ma da Suíte nº 6. Porém, eu tinha um encontro marcado com uma das grandes divas do festival: o maestro Riccardo Muti, que dirigiria a ópera com a Orquestra Jovem Luigi Cherubini, criada por ele em solo italiano, em 2004.

Muti fez sua primeira aparição em Salzburgo em 1971; assim, tem mais tempo de festival do que os membros da orquestra (cuja idade limite é 30 anos) possuem de vida. Aos 74 anos, o diretor musical da Sinfônica de Chicago continua vaidoso, cuidando meticulosamente do cabelo e das vestes. Mas também, seria justo acrescentar, não apenas com evidente ascendência sobre os músicos, como ainda um gestual que une elegância e precisão, e domínio inconteste do estilo verdiano. Sob sua batuta, os jovens instrumentistas realizaram uma execução precisa e idiomática da partitura de Verdi. O melhor teatro do compositor se materializou, mesmo sem cenário ou figurinos.

Pois esse Ernani foi feito em versão de concerto, adotando tal formato do modo mais ortodoxo possível: coro ao fundo, solistas à frente, orquestra entre ambos. Não havia nenhuma interação entre cantores, ou esboço de movimentação cênica. Os solistas se levantavam quando era sua hora de cantar, sentando-se quando não era.


Muti, orquestra, coro e solistas de Ernani no Grosses Festspielhaus [foto: Marco Borelli/ divulgação]

Seguindo bem de perto a trama da peça de Victor Hugo em que foi inspirada (um marco fundador do Romantismo no teatro francês, em que se fala na “batalha do Hernani” – com H), a ópera de um Verdi na faixa dos 30 anos tem uma mulher – soprano – assediada por homens dos três distintos registros vocais: tenor, barítono e baixo.

A soprano Vittoria Yeo parecia algo leve para a parte de Elvira. Sua voz expandia-se com facilidade na região aguda, mas não tinha a mesma ressonância nos graves e no registro de peito, em que seu papel é especialmente rico.

Ano passado, quando ouvi o tenor Francesco Meli em outro título de Verdi (Il trovatore), fiquei francamente desapontado. Dessa vez, minha impressão foi bem melhor. Ainda o acho um pouco monocromático, mas sua voz é sólida, e ele parece dotado de boa capacidade dramática. Seu dueto com Yeo na quarta cena do segundo ato constituiu um dos momentos mais poéticos da noite.

Para o meu gosto, o nível melhorou com as vozes graves. O barítono Luca Salsi (Don Carlo) foi algo prejudicado por um desconforto vocal, dando a impressão de ter um pigarro no segundo ato. Mesmo assim, revelou-se um intérprete extremamente interessante, explorando as diversas possibilidades de colorido e matizes de sua voz. Melhor do que ele, só o baixo russo Ildar Abdrazákov (Silva), digno representante da resplandecente tradição de vozes graves de seu país, com um timbre glorioso e uniforme em todos os registros. Por causa dele, dava vontade de ficar torcendo pelo vilão.


Dia 7 (30/8): Filarmônica de Viena e Semyon Bychkov
Vir ao Festival de Salzburgo e não ouvir a Filarmônica de Viena é como ir a Roma e não ver o papa. E a decisão mais sábia parece ser deixar os sumos pontífices da música para o último dia. Afinal, como conseguir gostar de alguma outra coisa depois de ouvir essa orquestra?

Nesse ano, eles estão fazendo um ciclo que foca a filarmônica e seus compositores – sem aspas. Trata-se de obras que foram estreadas pela própria orquestra – não raro, com regência dos próprios autores. Os vienenses não têm um regente titular, e trabalham com batutas convidadas a cada apresentação. Casado com a pianista Marielle Labèque, o experimentado Semyon Bychkov, 63, – russo de São Petersburgo que se evadiu da então URSS ainda na juventude – foi o escolhido para um programa reunindo a Terceira sinfonia de Brahms e Segunda do austríaco Franz Schmidt (1874-1939).


Filarmônica de Viena e Semyon Bychkov são aclamados em Salzburgo [foto: Marco Borelli/ divulgação]

A afinidade da Filarmônica de Viena com o universo estético de Brahms é tão imensa que a excelência técnica da orquestra fica até em segundo plano. Tudo no Brahms dos vienenses parece simplesmente certo, ou melhor: nosso paradigma do que é certo deve ser moldado a partir do que a filarmônica faz com Brahms. Com a direção segura de Bychkov, os vienenses levaram o Grosses Festspielhaus ao sublime.

Se o programa tivesse trazido “apenas” a terceira sinfonia, já seria inesquecível. A filarmônica, porém, propôs uma partitura de Franz Schmidt, que tocou violoncelo em suas fileiras e nasceu em Bratislava, no mesmo ano que Arnold Schönberg.

Enquanto este resolvia se “emancipar” da tonalidade e criar um novo sistema, Schmidt permanecia no ambiente harmônico e orquestral pós-wagneriano de Bruckner, Mahler e Richard Strauss. Estreada em 1913, sua Segunda sinfonia tem estrutura interessante, com um segundo movimento em forma de tema e dez variações, que parecem cumprir tanto a função de movimento lento, quanto a de scherzo com trio. Se o final da obra traz a retórica bruckneriana bombástica, os movimentos anteriores parecem prefigurar as soluções orquestrais de Korngold e dos compositores centro-europeus que moldariam a linguagem cinematográfica hollywoodiana.

Parece fútil querer destacar algum naipe ou instrumento específico quando a filarmônica como um todo funciona de modo tão uniforme e homogêneo. Acho que entendi, finalmente, porque o público de Salzburgo não costuma aplaudir de pé: quando a alma já se elevou, erguer o corpo é supérfluo e secundário.

Como balanço do festival, o escritório de imprensa do evento soltou alguns números que talvez seja curioso compartilhar. 262.893 visitantes de 74 países (sendo 35 de fora da Europa) estiveram presentes às 188 apresentações do festival. Somadas, as ovações dão 35 horas de aplausos (sempre sentados), com os artistas recebendo 470 buquês de flores. Os preços dos bilhetes individuais variavam entre 5 e 430 euros e, ao todo, 95% deles foram vendidos, configurando um aumento de 2% com relação ao ano passado, amealhando a bagatela de 29,6 milhões de euros.

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento]


[Veja também]
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 1
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 2
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 3
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 4

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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