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Festival do Theatro da Paz encena “Pescadores de pérolas” (14/9/2015)
Por Nelson Rubens Kunze

Os pescadores de pérolas, de Georges Bizet (1838-1875), estreou na última quarta-feira, dia 9 de setembro, como segunda montagem da 14ª edição do Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém do Pará (mês passado o festival produziu a inédita A ceia dos cardeais, do compositor paraense Arthur Iberê de Lemos). Com uma cenografia simples, bonitos figurinos e adequada iluminação, a montagem teve um bom resultado.

Bizet tinha 25 anos quando compôs Os pescadores de pérolas, em 1863. Viveria apenas até os 36 anos – pouco para o que prometia seu grande potencial, mas suficiente para ainda legar à história sua obra-prima, Carmen, estreada em 1875, ano de sua morte. De suas óperas, além de Carmen, Os pescadores é a única ainda a entrar na programação regular dos teatros líricos (tivemos em São Paulo, em 1995 com remontagem nos anos 2000, uma bem-sucedida produção da Orquestra Experimental de Repertório dirigida por Jamil Maluf). Conforme Lauro Machado Coelho em seu excelente livro Ópera na França (coleção História da Ópera, ed. Perspectiva, 1999), a ópera é “musicalmente muito rica, embora seja prejudicada pela pobreza do libreto de Michel Carré e Eugène Cormon, cheio de inverosimilhanças e falsos exotismos”. Em relação à música, Lauro analisa: “[...] Mas isso não impede a ópera de ter vários momentos de melodismo cativante, onde já está claramente prefigurada a força que Bizet atingirá na maturidade”.


Cena da montagem de Fernando Meireles para Os pescadores de pérolas, de Georges Bizet [fotos: divulgação]

A ópera se passa no Ceilão – aproveitando a moda de orientalismo da época – e conta a história de dois amigos, Nadir e Zurga, que se apaixonam pela mesma mulher, Leila, sacerdotisa de Brahma.

Com uma performance menos convincente que em anos anteriores, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz e o Coral Lírico do Festival (preparação Vanildo Monteiro) foram conduzidos pelo maestro paraense Miguel Campos Neto. A direção cênica coube ao cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus), que logrou imprimir uma boa dinâmica para a produção, no todo bastante orgânica. Sublinhando a narrativa, Meirelles utilizou-se de projeções cinematográficas. No segundo ato, o diretor fez o coro de pescadores entrar pelas fileiras de plateia, reforçando ainda mais um distanciamento do palco já insinuado nas imagens das projeções. Se essas opções talvez marquem a assinatura do cineasta, elas roubaram do espetáculo um pouco da dimensão poética do palco de teatro e desviaram a atenção da música, sem contribuição interpretativa que compensasse – a despeito da boa realização dos filmes. (A ideia de ação fora do palco funcionou bem melhor na entrada de Nadir, também pela plateia, aí sim caracterizando a distância que separa os dois amantes.)


Leonardo Neiva e Fernando Portari em ação como como Zurga e Nadir, no palco do Theatro da Paz de Belém

O que levou o espetáculo para além de uma boa realização foi o sensacional desempenho de Fernando Portari e Leonardo Neiva. Com voz e impostação muito adequadas para o repertório, o tenor Portari fez Nadir e protagonizou momentos de grande emoção. Igualmente completo foi o barítono Leonaro Neiva, que fez o possante Zurga com grande entrega. A jovem soprano Camila Titinger, que interpretou a sacerdotisa Leila, exibiu bonita voz e boa presença. Titinger soube se integrar bem aos consagrados Portari e Neiva, demonstrando personalidade e grande potencial artístico. Completando o time, o baixo Andrey Mira fez o papel de Nourabad.

A direção do Festival de Ópera do Theatro da Paz, formada por Gilberto Chaves e Mauro Wrona, acerta ao programar títulos pouco executados e convidar um artista como Fernando Meirelles. Sem dúvida, assim o festival ganha destaque e experimenta a articulação do gênero com um novo público e uma das principais linguagens artísticas de nossos dias.

Os pescadores de pérolas ainda terá uma récita amanhã, dia 15 de setembro (com transmissão ao vivo em cinemas de outras cidades brasileiras). E no dia 19 de setembro, ao ar livre em frente ao Theatro da Paz, acontece o concerto de encerramento do 14º Festival de Ópera do Theatro da Paz.

P.S.: A ideia não é minha e nem muito original, mas, aproveitando as iniciativas de parcerias e coproduções divulgadas recentemente pelo Theatro Municipal de São Paulo e pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, não seria chegada a hora da formação de uma associação de teatros de ópera brasileiros para a promoção da arte lírica no país? Seria aquele famoso acordo em que todos ganham – teatros, artistas e público. Já me antecipando, creio que esse Pescadores caberia bem no Theatro São Pedro de São Paulo ou no Teatro Amazonas de Manaus...

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belém a convite do 14º Festival de Ópera do Theatro da Paz]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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