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Bonita montagem de “Don Pasquale” estreia no Rio de Janeiro (28/9/2015)
Por Nelson Rubens Kunze

A ópera Don Pasquale, de Gaetano Donizetti (1797-1848), abriu na sexta-feira, dia 25 de setembro, a temporada do segundo semestre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Trata-se da primeira ópera da nova gestão do Municipal, que promete “reconciliar o Theatro com sua missão fundadora: criar, produzir, difundir e oferecer ao público obras do repertório lírico, coral-sinfônico e coreográfico”, conforme escreve o novo presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, João Guilherme Ripper, no texto do programa. Ripper também reforça a ideia de colaboração entre as diversas entidades: “O país tem apenas seis teatros com festivais ou temporadas regulares de ópera. Precisamos fomentar as coproduções e a circulação de montagens”, afirma. Don Pasquale já é fruto dessa ideia, já que se trata de uma produção originalmente realizada pela associação Buenos Aires Lírica e estreada na Argentina, no primeiro semestre.

A ópera tem direção cênica do brasileiro André Heller-Lopes, que reconta a história inspirado pela commedia dell’arte italiana, fazendo com que os personagens assumam características daquelas figuras populares. Ao transportar algumas cenas para dentro do palco da commedia dell arte, Heller abriu espaço para novas intervenções cênicas. Se a ideia faz sentido e deu um novo colorido e movimento para o espetáculo, ela também acabou diluindo um pouco a trama central ao inserir muitos atores no palco. Algumas das cenas também romperam a singeleza da comicidade do estilo buffo, como Ernesto tomando banho de banheira na cena em que relembra de seu infortúnio, ou depois, vestindo pés de pato... No geral, contudo, a criativa encenação é fluente e bem acabada.

Cenários (Daniela Taiana) são simples e de bom gosto, mas especialmente caprichados são os figurinos criados por Sofia di Nunzio. Creio que na apresentação a que assisti houve problemas com a iluminação (Gonzalo Córdova e Fábio Retti), já que houve luzes piscando e algumas passagens com protagonistas na penumbra (apesar das bonitas luminárias que pendiam do teto).


Cena de Don Pasquale, com o palco commedia dell’arte [fotos: Júlia Rónai/divulgação]

Alguns de nossos melhores cantores participaram do elenco, no qual se destacou o tenor Luciano Botelho (Ernesto), que exibiu requinte na interpretação. Homero Velho fez um bom Malatesta. O papel título coube a Sandro Christopher, que, a despeito de sua versatilidade cênica, acabou encoberto pela orquestra em algumas passagens. A surpresa da noite ficou por conta da performance da jovem soprano Ludmilla Bauerfeldt, que, com presença e uma bonita e sonora voz – especialmente no registro agudo –, fez uma bela Norina. Murilo Neves interpretou o papel do notário.

A direção musical e a regência couberam ao maestro Silvio Viegas, regente titular da orquestra do teatro. Do lugar em que eu estava sentado – sem levar em conta alguns problemas de sincronia entre o palco e o fosso –, percebi a orquestra com a dinâmica um pouco forte demais. Isso fez também com que, apesar da verve e musicalidade que o maestro tenha imprimido ao conjunto, algo da delicadeza típica do repertório belcantista tenha se perdido. O coro teve uma performance correta.

(Uma observação: não funciona essa moda de colocar o coro cantando na plateia – este ano já vi três vezes: no Fidelio do Rio, nos Pescadores de Belém e agora nesse Don Pasquale, aqui espalhado por todos os corredores. O resultado disso é que normalmente você só ouve o cantor que está cantando ao seu lado, que fica tentando seguir os gestos do maestro, que por sua vez não sabe se fica de costas para a orquestra ou para o coro...)


Sandro Christopher, como Don Pasquale, e Homero Velho, no papel de Malatesta

Após as apresentações deste fim de semana passado, Don Pasquale ainda terá récitas terça e quarta-feira (dias 29 e 30). E ainda neste semestre, o Rio de Janeiro verá mais três produções: A menina das nuvens, de Viila-Lobos (produção original do Palácio das Artes de Belo Horizonte, dias 23, 25, 27, 28 e 31 de outubro e 1º de novembro), As bodas de Figaro, de Mozart (do Theatro São Pedro de São Paulo, dias 19, 20, 21, 22, 26, 27, 28 e 29 de novembro) e O menino maluquinho, de Ernani Aguiar (coprodução com a Dell’Arte, dias 5, 6, 10, 11, 12 e 13 de dezembro).

Oxalá essa temporada seja mesmo o início auspicioso para os novos tempos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro!


[Veja também]
•  Ouvinte Crítico: Don Pasquale, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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