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Música de bolso (5/11/2008)
Por Leonardo Martinelli

No best-seller "O Perfume", o escritor alemão Patrick Süskind abre seu relato sobre a ficcional figura do assassino e perfumista Grenouille descrevendo o quão fedorenta era a Paris do século XVIII, onde se passa a ação do livro. Em meio a uma verdadeira inundação de odores pestilentos, o autor ressalta o quão singular, nobre e valioso era o aroma de um bom perfume.

Naquelas épocas, o mundo era também um lugar muito mais silencioso, onde mesmo nos maiores centros urbanos não se produzia o ruído comparável ao de uma praça de alimentação de um shopping center moderno. Sem carros, ônibus, caminhões, aviões e helicópteros, as cidades viviam imersas em algo que hoje facilmente chamaríamos de silêncio sepulcral.

Neste contexto, a música era o doce odor que aqui e acolá perfumava uma imensidão silenciosa.

Muita coisa em história da música pode ser compreendida quando levamos isso em conta, pois o gigantismo do repertório ocidental explica-se em parte pela função que a música desenvolvia em quebrar este silêncio nas cidades, nas cortes, nas igrejas e nas casas.

Porém, o que fazer quando se estava viajando? Hoje em dia os iPods alcançaram o status de item de primeira necessidade, não apenas em longas viagens, mas mesmo naquelas que fazemos cotidianamente, da casa para o trabalho.

Bem, antigamente ter uma orquestra compactada no bolso de sua calça não era possível, mas alguns instrumentos naturalmente portáteis cumpriam a função de quebrar o silêncio seja lá onde for.

Nesse sentido, a família das flautas sempre teve uma estreita relação com sua portabilidade, e quando se começou a desenvolver exemplares maiores, logo a flauta foi dividida em pedaços para que ela pudesse ser confortavelmente acondicionada numa pequena caixa.

Tal fato veio ocorrer com quase todos os instrumentos de sopros e, modernamente, instrumentos gigantescos podem ser transportados de forma prática graças a um preciso processo de decupagem (da próxima vez que for a um concerto, repare como os músicos desmontam seus instrumentos antes de deixarem o palco). Porém, nem todos se contentaram com o mero retalhamento de instrumentos, passando a fazer instrumentos inusitados, tais como os fagotes de bolso da foto ao lado ou o trompente de bolso da foto que abre este artigo.

O mesmo já não ocorre com os instrumentos de cordas, tal como a família dos violinos, que apesar de pequenos constituem um corpo único não desmontável. Apesar de serem instrumentos móveis, os cuidados necessários para seu transporte exigem uma proteção que o tornam não apenas maiores, mas também mais pesados.

Pensando nesse pequeno incômodo, alguns luthiers do século XIX desenvolveram instrumentos que se integravam na indumentária padrão da época. Foi desta forma que curiosos "violinos-bengala", "flautas-bengala" e "clarinetes-bengala" (veja foto abaixo) foram construídos para que o homem elegante pudesse ter literalmente sempre a mão um instrumento musical (que em caso de uma má apreciação crítica, era novamente utilizado como bengala).

Violino-begala e Clarinete-bengala

Porém, o que fazer no caso de instrumentos tradicionalmente não portáteis, como cravo e o piano? Modernamente, a eletrônica resolveu a questão de forma muito interessante por meio de teclados e sintetizadores que cada vez mais surpreendem pela naturalidade de seus timbres.

Se hoje em dia o teclado portátil pode ser uma mão na roda para vários músicos, no século XVIII ele já estava em uso. Por exemplo, o próprio Wolfgang Amadeus Mozart se valia de um "Reiseklavier" (literalmente, "teclado de viagem") em suas intermináveis turnês pelas cortes e cidades européias (acredita-se que o instrumento da foto abaixo tenha sido utilizado pelo próprio).

Teclado de viagem

Ter um instrumento musical à disposição sempre foi algo importante e comum ao longo do tempo. A diferença é que antigamente a "música de bolso" era uma forma de confortar a alma de certos incômodos que somente o silêncio é capaz de proporcionar, enquanto que hoje, com nossos fones de ouvidos e CD players automobilísticos, buscamos uma música que, paradoxalmente, soa como silêncio, algo que a vida moderna parece ter definitivamente enterrado.

[Fotos: reprodução de imagens do Musikinstrumenten-Museum de Berlim, Alemanha]





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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