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A produtividade das orquestras sinfônicas (7/12/2015)
Por José Pastore

No mundo moderno, as tecnologias tendem a elevar significativamente a eficiência do trabalho humano. Os robôs, por exemplo, permitem às montadoras de veículos produzir muitos automóveis com um número de trabalhadores cada vez menor. Com isso a produtividade aumenta – produz-se mais com menos recursos.

Os ganhos de produtividade, por sua vez, fazem baixar os preços dos produtos para os consumidores e elevar os salários para os trabalhadores envolvidos na sua produção. Além disso, geram lucros e estimulam os investimentos, criando novos empregos. É o “milagre” do circulo virtuoso propelido pela modernização tecnológica.

Essa que é uma prática generalizada no setor produtivo é impossível de ser aplicada ao trabalho de uma orquestra sinfônica. Inexiste tecnologia que permita reduzir o número de músicos ou de fazê-los trabalhar menos horas na preparação de um concerto. Isso porque uma sinfonia escrita há 100 anos para 60 músicos tem se ser executada nos dias de hoje por 60 músicos. Não há como encurtar a peça ou substituir os executantes. Ademais, os músicos de hoje como seus colegas de antigamente precisam dos mesmos três dias para ensaiar a sinfonia, sem contar as longas horas dedicadas aos exercícios individuais. Numa palavra, não há forma de se ganhar produtividade na preparação e apresentação presencial de uma orquestra sinfônica com base na redução ou substituição do trabalho humano.

Essa peculiaridade foi detectada pelo economista William Baumol em trabalho clássico (Symphony Orchestra Economics: The Fundamental Challenge, em Performing Arts: the economics dilema, de William J. Baumol e William G. Bowen). Ele destacou também que os custos de manutenção de uma orquestra sinfônica tendem a aumentar ao longo do tempo (como ocorre com os diversos custos da economia em geral) por força de elevação dos salários e benefícios dos músicos e dos funcionários e de outras despesas – administração geral, aluguéis, seguros, impostos, alimentação, transporte, encargos trabalhistas etc.

Bem diferente é o caso da montadora de veículos que pode compensar o acréscimo de despesas com a redução de empregados e de horas trabalhadas em decorrência do uso de tecnologias. Na orquestra sinfônica, o aumento constante das despesas significa, em última análise, que o custo unitário de um concerto apresentado neste ano é maior do que o do ano passado. É o que Baumol chamou da “doença dos custos” que convive com as orquestras sinfônicas. Numa palavra, as despesas sempre crescem.

Essa é uma realidade desesperadora para quem tem a responsabilidade de garantir os recursos para as orquestras sinfônicas. É isso que faz as grandes orquestras dependerem de aportes da sociedade e dos poderes públicos. Do lado da sociedade, muitos países possuem mecanismos de incentivos fiscais para cidadãos e empresas canalizarem doações às orquestras sinfônicas e outras manifestações artísticas como é o caso da Lei Rouanet no Brasil. Do lado dos poderes públicos, muitos governos compreendem a necessidade de prover recursos para as orquestras enfrentarem despesas sabidamente crescentes como é o caso, em São Paulo, do importante apoio do Governo do Estado à Osesp.

A manutenção e o desenvolvimento de uma orquestra sinfônica estão longe de serem autossustentáveis. Nela, o fator trabalho é o que mais pesa e não há como cortar músicos ou ensaiar menos. Nem tampouco rejeitar os pleitos legítimos dos músicos e dos funcionários que buscam melhorar sua remuneração e seus benefícios.

A tese de Baumol tem sido questionada por alguns autores que veem novas fontes de recursos para as orquestras sinfônicas nos dias atuais. Dentre elas, são citados o aumento do preço dos ingressos, a ampliação do público, as gravações e vendas de discos, CDs e DVs e os royalties de filmes e de apresentações pela televisão.

Apesar de essas fontes gerarem recursos, elas têm um fôlego curto. Mesmo nas grandes orquestras dos países desenvolvidos, a receita de ingressos é marginal para cobrir suas despesas. Igualmente, a repetição de concertos para um público crescente está longe de gerar os recursos necessários para compensar os seus custos. Os discos, CDs e DVDs encontram forte concorrência do acesso gratuito ou quase gratuito proporcionado pela internet, YouTube e outros meios modernos. Royalties de filmes e televisão são igualmente limitados para equilibrar as finanças de uma atividade cujos custos não param de subir.

Isso tudo nos leva à conclusão que uma orquestra sinfônica é uma manifestação artística que não pode ser mantida apenas com a contribuição dos consumidores da boa música. Sociedade e governos têm de participar e ajudar a cultivar essa forma de arte. Se, de um lado, isso representa variadas formas de subsídios, de outro, a difusão da música de boa qualidade contribui para a formação dos valores estéticos e, sobretudo, para um melhor desempenho das pessoas na escola e no trabalho. Em artigo recente publicado no jornal O Estado de S. Paulo apresentei dados de pesquisa que comprovam haver uma correlação positiva entre música, discernimento e produtividade. A música potencializa a saudável combinação da razão com a emoção – uma externalidade positiva.

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José Pastore - é professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e membro dos conselhos consultivos da Osesp e da Sinfônica Heliópolis. É acadêmico da Academia Paulista de Letras.

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