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Adeus, Gilberto Mendes (11/1/2016)
Por Irineu Franco Perpetuo

Lá na frente, talvez nos lembremos de 2016 como o ano em que o século XX musical efetivamente acabou. Difícil não encarar como o fecho de um ciclo os falecimentos, em poucos dias de distância, na primeira semana do ano, do compositor santista Gilberto Mendes e de seu colega Pierre Boulez.

De Boulez, a imprensa especializada internacional já falou de sobra – e merecidamente. Para aquilatar a ressonância que suas ideias ainda têm entre nós, não é preciso ir além do álbum duplo Boulez+, iniciativa de Flo Menezes, sob os auspícios do Selo Sesc, e realização superlativa de Cláudio Cruz, colocando a obra do compositor francês em diálogo com a produção de autores brasileiros como Sergio Kafejian, Tiago Gati, Marcus Siqueira, Martin Herraiz, Alexandre Lunsqui e, obviamente, o próprio Flo que, tanto na obra quanto na postura social, vem se apresentando como herdeiro estético das vanguardas do pós-guerra.

Falando de Boulez e Flo, é inescapável a menção a Gilberto Mendes. Não dá para chamá-lo de pupilo de um Boulez, que era três anos mais jovem do que ele, nem de professor de Flo, com o qual sua relação era antes de interlocução do que de mestre-discípulo. Mas, obviamente, Mendes foi, ao lado de Willy Corrêa de Oliveira, um dos principais divulgadores no Brasil da Neue Musik de Boulez e Stockhausen – não por acaso, o festival que ele criou em 1962, e que persiste até hoje, se chama Música Nova.

Gilberto Mendes [Foto: Revista CONCERTO / Carlos Goldgrub]

Difícil tratar pelo sobrenome uma pessoa que eu sentia como querida e próxima – um paradigma de gentileza, de bom humor, de doçura e integridade. Então, daqui por diante, tomarei a liberdade de chamá-lo de Gilberto. Pois bem: se Gilberto tivesse feito “só” isso (a difusão do ideário de Darmstadt), naquele mundo em que as distâncias eram maiores do que hoje, e a ditadura militar instaurada no Brasil dificultava a livre circulação de ideias, não seria pouco. Porém, todos que o conheceram sabem que sua bagagem cultural, curiosidade insaciável, apetite musical pantagruélico e personalidade marcante não permitiram que ele ficasse restrito à camisa-de-força de um único credo artístico, fosse ele qual fosse. Gilberto não nasceu para ser mero epígono.

Assim, o Gilberto Mendes “tardio” (uma fase longa, que vai dos 59 aos 93 anos) rompe com a ortodoxia serialista para se comunicar com a tonalidade e o minimalismo. Nessa mescla de estilos, o nome do compositor talvez sirva para enobrecer o hoje tão gasto e desacreditado rótulo de “pós-moderno”. Como ele mesmo me disse certa vez, foi como se o seu eixo de influências se deslocasse de Boulez e Stockhausen para John Cage e John Adams. Tudo isso embalado pelas trilhas sonoras de cinema e a música popular de sua juventude.

Em uma de suas ideias mais citadas, Gilberto dizia que “a nova classe social dominante de nosso tempo, rica, universitária, seus escritores, professores, enfim, seus intelectuais, preferem Caetano e Chico Buarque, desconhecem totalmente a possível música erudita que esteja sendo escrita por novos compositores de nosso tempo”, e angustiava-se porque “o compositor erudito de hoje tem assim de competir com a sofisticada música popular de hoje, que tem a vantagem de conservar aquele emocional tonal da música de alto repertório, mais aquela poderosa comunicação imediata, legado do velho jazz, dos Beatles, da Bossa Nova”.

Teria, então, o Gilberto maduro rompido com os ideais de juventude e tentado fazer uma música mais “popular”? Provoquei-o nesse sentido em nosso último encontro, em 30 de junho do ano passado, quando o maestro Luiz Fernando Malheiro, idealizador da série Música de Câmara Brasileira dos Séculos XX e XXI, organizou toda uma logística para que ele pudesse subir a serra e comparecer a São Paulo para assistir à execução de seu quinteto com piano Rimsky, de 2006, que faz um engenhoso jogo de reminiscências com a suíte sinfônica Scheherazade, de Rímski-Kórsakov.

Como curador da série, fiquei para lá de empolgado com a presença de Gilberto, e aproveitei a ocasião para tietá-lo. Com muito orgulho, ele me contou de seus projetos de composição, e comentou o primoroso CD em que Beatriz Alessio registrou, na Itália, a integral de seus estudos para piano solo. Conversa vai, conversa vem, e resolvi indagar o mestre se ele chamaria sua última fase de “nova simplicidade”. Sempre polido, ele devolveu a pergunta: “você acha que isso que eu faço é nova simplicidade?”

Não, eu não achava. Como o próprio Gilberto também não. Ainda que modificando o aspecto exterior de suas obras, ou os parâmetros com que trabalhava, ele jamais deixou de fazer “música de invenção”, música pensada e elaborada, cujos objetivos eram essencialmente estéticos. Gilberto não fazia concessões ao gosto de ninguém que não fosse ele mesmo.

É nesse sentido que devemos entender o depoimento de Flo Menezes sobre o compositor, que ele andou difundindo na internet logo depois de seu falecimento: “Ao longo de todos esses anos de convívio, aprendi com Gilberto uma das lições mais lindas e substanciais que um jovem pode aprender com um mestre de seu calibre: que a autenticidade de suas motivações estéticas e políticas, por mais que delas se possa, em alguma medida, discordar ou se distanciar, traduz-se como conditio sine qua non da própria autenticidade artística, pois só assim pode-se exercer a arte sem comprometimentos espúrios, sem concessões fáceis e com uma profunda verdade de  linguagem e de espírito”.

Sim, Gilberto tinha saúde frágil. Sim, Gilberto já estava com 93 anos. Porém, como escreveu João Marcos Coelho no jornal O Estado de São Paulo, ele era tão lúcido e cheio de vitalidade que parecia imortal. Ficam a tristeza e a saudade. E, tão grande quanto elas, o legado humano e artístico.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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