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Felipe Lara: o brasileiro que encantou o Ensemble Intercontemporain (22/2/2016)
Por Irineu Franco Perpetuo

Embora o Carnaval seja visto como a maior de nossas manifestações populares, poucos músicos brasileiros tiveram tantos motivos para celebrar os festejos de Momo em 2016 quanto o compositor erudito Felipe Lara. No último dia 9, em plena Terça-Feira Gorda, o sorocabano teve uma composição sua estreada, em Paris, pelo Ensemble Intercontemporain, regido por Ilan Volkov.

A bem da verdade, êxitos internacionais têm sido uma agradável rotina na trajetória do autor sorocabano de 37 anos, que agora é “fellow” do Instituto Radcliffe para Estudos Avançados, na Universidade Harvard. Ele já foi tocado várias vezes pelo Quarteto Arditti, o quarteto de cordas de maior destaque do planeta na música contemporânea, e teve ninguém menos do que o maestro Peter Eötvös a reger a Netherlands Radio Philharmonic Hilversum na primeira audição de Memoria(i)mobile, para orquestra, encomendada pelo Donaueschinger Musiktage, em 2010.


Felipe Lara, que teve obra encomendada pelo Ensemble Intercontemporain [foto: Hugo Glendinnin/Rolex]

Na sua opinião, essa oportunidade acendeu o interesse do Ensemble Intercontemporain. Lara conta que Hervé Boutry, diretor geral do grupo, pediu-lhe peças para a formação. “Ele estava na estreia e ficou muito impressionado com a obra. Eu disse a ele que não gostava das minhas obras para ensemble, eram antigas. Mas enviei obras para orquestra e música de câmara. E deixei claro que eu estaria muito interessado em compor uma obra nova para o Ensemble Intercontemporain”, conta. Posteriormente, Felipe conheceu em Nova York Matthias Pintscher, atual regente principal do grupo, e os laços se estreitaram. “Ele me convidou para ser um dos jovens compositores em residência no Festival Heidelberger Frühling em 2013, onde tive seis ou sete obras apresentadas. Acho que juntou o interesse dos dois e surgiu então uma encomenda”, diz.

Para atender à solicitação, ele decidiu escrever uma peça que distribuía os executantes espacialmente pela Philharmonie 2 de Paris (antiga Cité de la Musique). “O título da obra é Fringes, em português, Margens, e refere-se a diversos aspectos do projeto. O primeiro diz respeito à espacialização; a obra é para 22 instrumentos, 13 deles no palco, e nove nos balcões da direita, esquerda, e fundo da sala; ou seja, os instrumentos se encontram nas margens da sala, e o público no meio. Mas o título também se refere às margens entre ruídos sem altura, timbres, sons complexos, e sons de altura definida que exploro no decorrer da obra”, descreve. “Exploro também as margens entre a escrita instrumental e paradigmas da música eletroacústica, vocal, ou até aspectos entre música escrita e oral. Fringes, portanto, explora espaços criativos e sonoros que se encontram entre estados mais estáveis ou familiares. A harpa está afinada um quarto de tom acima, e junto com o piano são ‘quase’ solistas... nas margens dos dois instrumentos, disponho de 24 notas por oitava”.

Criado em 1976 pelo legendário e recém-falecido Pierre Boulez, o Ensemble Intercontemporain esteve no Brasil pela última vez em 2012, na série da Cultura Artística. Especializado e comprometido com a música contemporânea, é constituído por 31 músicos que possuem status e qualidade de solistas, sob a direção musical, desde a temporada 2012/13, do compositor e regente alemão Matthias Pintscher, 45. “Trabalhar com o Ensemble foi simplesmente incrível; do ponto de vista musical, logístico, técnico, artístico tudo foi perfeito. São solistas que têm um conhecimento íntegro de praticamente todas as vertentes da música contemporânea”, conta Lara. “A espacialização não é sempre simples de balancear, sincronizar com o maestro, mas tudo funcionou muito bem, e foi um verdadeiro deleite escutar o resultado pelos 25 minutos de duração da obra. Em momentos como esses é que todos os sacrifícios, frustrações, falta de incentivo e reconhecimento desaparecem, e tudo vale a pena”.

Fringes estreou sob a batuta do israelense Ilan Volkov, 39 – que, em 2006, esteve no Brasil à frente da Orquestra Sinfônica da BBC Escocesa. “Ilan Volkov é absolutamente genial; a única coisa com que se preocupa é fazer música. Um prodígio (já regia com 19 anos, com 21 era assistente do Seiji Ozawa com a Sinfônica de Boston) que possui uma técnica e musicalidade do mais alto nível, ele tem um conhecimento e compromisso com a música contemporânea raríssimo no mundo sinfônico”, festeja Felipe “Além de maestro e diretor de festivais especializados (Tectonics), também improvisa, e dedica-se a descobrir obras e compositores ignorados nos séculos XX e XXI. Um verdadeiro fenômeno, precisamos de mais profissionais como ele”.

Quem tiver curiosidade de ouvir Fringes pode se programar para viajar a Nova York, onde a obra será executada em 1º de junho, no Miller Theater, pela Orchestra of the League of Composers, regida por Louis Karchin. O evento integra a Bienal da Filarmônica de Nova York. Antes disso, em 7 de maio, ainda na Big Apple, haverá um concerto inteiramente dedicado a obras de Felipe Lara na Americas Society, como parte de suas atividades em Harvard.

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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