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Auto da fé (26/3/2016)
Por John Neschling

No momento em que a corrupção e a troca de vantagens ilícitas se tornaram praticamente a regra no nosso país, em que a honestidade e a lisura nas relações de trabalho são francamente as exceções a essa regra; no momento em que a presunção da inocência foi substituída pela presunção da culpa, cabendo ao acusado ter que provar que não participou de maracutaias; no momento em que as delações premiadas de ladrões confessos arrastam para a lama qualquer cidadão em princípio honrado, antes de qualquer prova contundente de sua culpa, e quando a frase “in dubio pro reo” perdeu totalmente a sua validade, assistimos a uma crise ética sem precedentes no Brasil.

É nesse Brasil virado ao avesso que, beirando os meus 70 anos, depois de 50 anos de carreira aqui e no exterior, durante os quais jamais fui acusado de nenhuma ilicitude, sou obrigado a ver na imprensa o meu nome ligado a um escroque declarado e confesso, que procura, para que obtenha uma pena mais leve por seus malfeitos já comprovados, envolver-me em suas práticas escusas, das quais nunca fiz parte e das quais nem sabia.

O pior é ver que, além da imprensa, autoridades públicas também acolhem sem crítica as mentiras inconsistentes e interesseiras de um criminoso confesso, divulgando-as sem nenhuma preocupação em antes compará-las com os fatos e as provas.

José Luiz Herência foi-me apresentado pelo então Ministro da Cultura, Juca Ferreira. Herência trabalhou durante anos como um dos principais assessores de Ferreira no Ministério, e foi através de Juca Ferreira que Herência chegou ao seu posto de Diretor Geral da Fundação Theatro Municipal, já durante a gestão daquele como Secretário Municipal da Cultura. Imagino bem a indignação do Sr. novamente ministro ao saber das falcatruas no Theatro Municipal, conforme declarado à imprensa. Juca conviveu durante anos com Herência e só agora teve notícias de suas práticas criminosas. Eu não tive a mesma sorte de Juca Ferreira. Minha indignação no caso é bem maior: foi logo na primeira oportunidade que tive de trabalhar ao lado de Herência que fui enganado e ludibriado.

Durante grande parte da minha vida de músico profissional procurei valorizar a música brasileira de todas as épocas, sobretudo a do século XX. Fui e sou um apaixonado divulgador da música de Villa-Lobos, dedicando parte do meu trabalho de maestro a reger e a gravar suas obras, seja no Brasil, seja no exterior. Com a Osesp gravamos as nove Bachianas Brasileiras e a integral de seus Choros, assim como a Floresta Amazônica. Por essas gravações, fomos agraciados com críticas estupendas na imprensa internacional e ganhamos prêmios, como o “Diapason de l'année” na França pelo projeto dos Choros. Fui e sou da opinião que o Brasil nunca teve uma política cultural que promovesse efetivamente a música do maior compositor de sua história, e todas as iniciativas nesse sentido foram insuficientes e não surtiram efeito.

A música de Villa-Lobos ainda é rarissimamente executada, tanto no Brasil como fora de nossas fronteiras. Villa-Lobos ainda é considerado um curioso fenômeno tropical, um estranho no ninho dos grandes mestres da música erudita. Sem um lobby cultural efetivo, sem um investimento real e consistente na divulgação de nosso mestre maior, Villa-Lobos, com seu legado para a nossa civilização, será sempre encarado pelos críticos e musicólogos como um índio, um autodidata sem valor intrínseco, e esse fato constitui uma vergonha para nossa consciência cultural.

Nossos dirigentes nunca souberam se espelhar nos esforços que a Finlândia fez para que seu maior compositor, Jan Sibelius, integrasse o repertório tradicional das maiores orquestras. Ou a Itália com seus astros maiores, Verdi e Puccini. E há inúmeros exemplos outros que não cabe aqui enumerar. Não apenas pelo brilho que esses nomes trazem à cultura de seus países, mas pelo lucro que eles representam, mensurável nos direitos autorais e imensurável na afirmação da dignidade e identidade de seus povos.

Fico espantado, assustado mesmo, ao verificar as dúvidas que pairam sobre o projeto “Alma Brasileira”, que visa exatamente preencher essa lacuna fundamental na divulgação de nossa identidade cultural. Como se esse projeto, idealizado por mim, não fosse simplesmente a continuação de todo o trabalho de décadas que venho fazendo em prol de nossa música de concerto; como se fosse simplesmente um meio que inventei para tirar vantagens quaisquer. Como se esse projeto, que levaria Villa-Lobos a diversas capitais brasileiras, e sobretudo aos mais importantes centros sinfônicos do mundo, contando com a participação de grandes orquestras sinfônicas internacionais de grande prestígio, não pudesse entusiasmar a todos aos quais ele foi apresentado. Aqui me refiro, no Brasil, ao Ministro da Cultura Juca Ferreira, ao Secretário Municipal de Comunicação Nunzio Briguglio, além de empolgar aos Diretores dos teatros do Rio de Janeiro João Guilherme Ripper, do projeto Neojibá em Salvador, Ricardo Castro e do Maestro Titular do Palácio das Artes de Belo Horizonte Silvio Viegas, que imediatamente programaram o evento em suas casas.

E como se o projeto não fosse suficientemente interessante para atrair artistas como Emmanuel Carlier, o mesmo videomaker que realizou com a grupo catalão “La Fura dels Baus” o espetáculo “Trilogia Romana”, baseada na música de Respighi, apresentado no Brasil em 2014 com imenso sucesso – foi necessária uma récita extra. E, finalmente, como se Villa-Lobos não tivesse entusiasmado Carlos Padrissa, um dos líderes da “Fura”, a ponto de ele se associar imediatamente ao projeto “Alma Brasileira”.

Temo que essa versão leviana do projeto, inventada por um aproveitador que usou seu cargo para benefício pessoal, vá, mais uma vez e no fim das contas, inviabilizar uma ideia tão importante para nossa cultura e para a nossa música.

Essa versão, encampada pela imprensa e por um poder público acrítico, contribui não apenas para o meu linchamento moral, mas também para a desmoralização de um projeto cuja importância para a cultura nacional parecem ignorar.

Pobre Villa-Lobos, que nasceu nesse país abençoado. Fosse americano, estaria no panteão dos gênios do século XX, como Gershwin, Barber e Copland.

[Clique aqui para ler “Auto da fé 2: Alma Brasileira”]

[Clique aqui para ler a notícia sobre a delação premiada de José Luiz Herência]

 





John Neschling - é maestro, diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo

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