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Auto da fé (parte 2): Alma Brasileira (27/3/2016)
Por John Neschling

Se nosso jornalismo investigativo não se reduzisse em grande parte à transcrição de escutas telefônicas legais ou ilegais e ao vazamento de delações de larápios que buscam um alívio para suas penas, eu não seria obrigado a escrever o texto anterior e o que se segue. Dadas as circunstâncias, no entanto, peço mais uma vez a meus leitores que tenham paciência: lerão aqui informações às quais, de outra forma, dificilmente teriam acesso.

A ideia de “Alma Brasileira” nasceu logo que terminamos a apresentação da “Trilogia Romana” de Respighi, em fevereiro de 2014, no Theatro Municipal de São Paulo. Pensei que um projeto multimídia semelhante, ilustrado pela música esfuziante, emocionante, profundamente brasileira de Heitor Villa-Lobos seria sensacional, não apenas como instrumento de divulgação do nosso maior compositor, mas também pela sua possibilidade de ser vendido e inserido na programação de grandes orquestras internacionais, a exemplo do que ocorre com o espetáculo de Respighi.

Imaginei um espetáculo com coro e orquestra, provavelmente uma cantora e um guitarrista, imersos num “filme”, um fluxo criativo de imagens “sugeridas” pela obra de Villa: das nossas magníficas paisagens, dos índios, dos caboclos, das grandes metrópoles e suas populações tão ecléticas, do candomblé, do choro, da arquitetura barroca/colonial e da arquitetura contemporânea, da história da Semana de 22, que aconteceu exatamente no Theatro Municipal de São Paulo, com a presença decisiva do compositor.

Procurei imediatamente Valentin Proczinsky, produtor do espetáculo da “Trilogia” e que representa o incrível grupo catalão “La Fura dels Baus”. Proczinsky, depois de passar alguns dias mergulhado na obra de Villa-Lobos, encampou o projeto, trazendo para ele o grupo que agencia e o videomaker Emmanuel Carlier, um dos autores do espetáculo da "Trilogia". Proczinsky acreditava que o espetáculo poderia estrear em São Paulo, no ano das Olimpíadas no Rio de Janeiro e fazer parte do programa cultural paralelo aos eventos esportivos na capital carioca, quando o olhar de todo o mundo estará voltado para o nosso país. Para Proczinsky, essas seriam as primeiras apresentações de uma turnê que giraria o mundo, levando aos mais importantes centros a música de Villa-Lobos.

Antes mesmo de nos encontrarmos para trabalhar no projeto, Proczinsky, em seus contatos com agentes e orquestras internacionais, notou grande interesse e receptividade em relação à ideia e isso motivou a todos.

Da minha parte, lembro que conversei a respeito com o Secretário Municipal de Comunicação, Nunzio Briguglio, e contei-lhe detalhadamente do que tratava o projeto. Briguglio, um dos poucos políticos e profissionais de comunicação que tem uma solidíssima cultura musical e cinematográfica, entusiasmou-se de imediato pela ideia. Acreditando, como nós todos, que “Alma Brasileira” poderia ser a contribuição do Theatro Municipal e da Prefeitura de São Paulo para o ano das Olimpíadas, e além disso, um instrumento de divulgação do dinamismo e da riqueza cultural da maior metrópole brasileira, achou que seria importante conseguir o apoio do departamento de marketing do Banco do Brasil ou outra instituição congênere para o financiamento do projeto.

Todos sabíamos que a preparação de um espetáculo tão sofisticado e complicado tecnicamente não leva menos de dois anos. Se quiséssemos apresentar um produto de nível internacional, que representasse com galhardia a música de nosso maior compositor, juntamente com uma imagem visual contemporânea e impactante de nosso país, sua sociedade, seu passado e seu futuro, teríamos que correr contra o tempo. Briguglio, numa carta, comprometeu-se a nos ajudar financeiramente inicialmente com alguma verba da própria Secretaria, dispondo-se ainda a procurar no mercado institucional o aporte necessário ao projeto.

É importante esclarecer que minha contribuição para a idealização de “Alma Brasileira” foi e é pura e exclusivamente intelectual e que não auferi nem pretendo auferir nenhum ganho material ou vantagem pelo trabalho que realizei na criação.

Em Paris, Proczinsky, Carlier e eu (cada um pagando sua viagem e demais despesas) começamos a discutir o conteúdo e a logística do evento. Chegamos a diversas conclusões quanto às necessidades materiais para a criação do filme: uma grande produção local no Brasil, uma pesquisa profunda para garimpar imagens históricas tanto de Villa-Lobos quanto da Semana de 22; a contribuição de um antropólogo que nos desse informações precisas sobre a mitologia indígena; um período de filmagens externas e no próprio Theatro com a participação de Corpos Estáveis (Ballet, figurantes etc...); enfim, um trabalho de pré-produção demorado e detalhado, que levaria alguns meses e que teria, evidentemente, que remunerar quem nele trabalhasse.

Outra reunião importante para o projeto deu-se na minha residência em Lugano, na Suíça. Presentes estavam Proczinsky, José Luiz Herência e eu. Se não me falha a memória, Herência aproveitou uma viagem que fez à Inglaterra para visitar a namorada e esteve depois, creio, em Heidelberg para assistir a um curso de anatomia (!!!). Ignoro quem custeou a viagem de Herência. Mais uma vez eu e Proczinsky custeamos nossos próprios deslocamentos. Foi nessa reunião que Proczinsky nos apresentou os custos estimados do projeto, cerca de um milhão de euros, divididos em diversas parcelas, com cronograma de pagamento compatível com o cronograma da produção.

É importante lembrar que nessa época já havia sido feito um remanejamento das verbas da Prefeitura destinadas à comunicação, e Briguglio não estava mais em condições de nos ajudar financeiramente no projeto.

Isso me preocupava sobremaneira. Passei grande parte da minha vida trabalhando fora do Brasil, e sei como é diferente a realização de projetos desse porte na Europa. Também conheço as dificuldades dos artistas no Brasil em realizar seus projetos, por causa de uma burocracia que muitas vezes inviabiliza importantes realizações artísíticas. O que eu temia, portanto, era que minha credibilidade e o meu prestígio pessoal, que conseguiram juntar La Fura e Carlier em torno de um projeto de interesse nacional, fossem fortemente abalados se, por algum motivo, o contrato e os compromissos não fossem honrados.

Mas Herência, nessa reunião, estava muito confiante e acreditava que mesmo sem o apoio da Secretaria da Comunicação seria possível realizar o projeto, conforme a planilha de Proczinsky, fosse através de patrocinadores a serem contatados, fosse através do orçamento da própria Fundação Theatro Municipal ou do IBGC. Assim, o acordo foi fechado. Evidentemente o contrato definitivo seria redigido no Brasil pela Fundação ou pelo IBGC, através de seus advogados.

Já no Brasil, Herência e eu buscamos uma reunião com o Ministro da Cultura Juca Ferreira e seu staff para propor que o Ministério da Cultura encampasse o projeto “Alma Brasileira”.

Esse encontro se deu em março de 2015 em São Paulo, um ano e alguns meses antes da planejada estreia do espetáculo. Ferreira e sua equipe, em conversa conosco (Herência, Nacked, Marcos Fecchio – coordendor de comunicação da FTM, e eu, além do Presidente da Funarte), no Centro Cultural São Paulo, garantiu-nos o suporte do Ministério da Cultura e pediu-nos uns dias para propor a forma de patrocínio, fixado em cinco milhões de reais, o que permitiria que apresentássemos “Alma Brasileira” nos Theatros Municipais de São Paulo, Rio de Janeiro, Teatro Castro Alves da Bahia e Palácio das Artes de Belo Horizonte, sempre com as orquestra locais, e em datas programadas.

Certo de que a palavra do Ministro da Cultura, dada naquele momento, assegurava o patrocínio do projeto, e dada a premência de tempo para que o espetáculo ficasse pronto na data prevista para a sua estreia em junho de 2016, o IBGC, dirigido por William Nacked, transferiu a primeira parcela acordada para que a produção se iniciasse imediatamente. Registro que, pelo cronograma inicialmente fixado, esse primeiro pagamento deveria ter sido efetuado bem antes, mas, tendo em vista a impossibilidade da prefeitura, fora adiado.

Old and New Montecarlo então, depois de receber a primeira parcela, firmou um contrato com Carlier e a produtora brasileira (Bossa Nova Produções), que começaram a trabalhar imediatamente. Carlier, no Brasil, começou a filmar, inclusive no Theatro Municipal, com a participação do Ballet da Cidade. Tudo iria se desenvolver como a princípio fora planejado, embora com um cronograma mais apertado. Mas foi só no dia 30 de junho de 2015 que o IBGC assinou o contrato com Old and New Montecarlo.

Muito desse atraso teve como causa a burocracia e a incapacidade de mover-se do Ministério da Cultura, que acabaram se transformando no túmulo do projeto “Alma Brasileira”.

Em agosto de 2015, cinco meses depois da reunião com o Ministro em São Paulo, foi programada uma coletiva de imprensa em Brasília, no Ministério da Cultura, divulgada diretamente pela internet, e para a qual foram convidados os principais jornalistas musicais de São Paulo (todos com passagens pagas), além de mim, Herência, Nacked, Fecchio e o Presidente da Fundação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, João Guilherme Ripper. A ideia era assinar um convênio entre o Ministério da Cultura e o IBGC (foi a solução encontrada pelos administradores) no ato da entrevista. Um ou dois dias antes da coletiva fomos informados pelo Ministério da Cultura que o convênio não ficaria pronto a tempo, e que levaria só mais alguns poucos dias para ser assinado. A coletiva aconteceria de qualquer maneira.

Desgastado com a enorme demora do Ministério em preparar o convênio, decidi que não iria à coletiva enquanto este não estivesse devidamente oficializado. Fui instado pessoalmente pelo Ministro e por Herência para que fosse a Brasília de qualquer maneira, porque seria importante para o Ministério anunciar uma iniciativa desse porte num momento em que nada acontecia na área cultural. Tanto Ferreira quanto Herência me garantiam que o convênio seria celebrado rapidamente, sendo a demora apenas fruto de um pequeno entrave burocrático. Acabei cedendo, e a entrevista se fez com toda a pompa necessária. Estávamos a menos de um ano da estreia de “Alma Brasileira”.

Enquanto isso, surgiam dificuldades de orçamento na Fundação Theatro Municipal e no IBGC, que me pareceram enormemente suspeitas. Herência me comunicou que seria necessário fazer cortes. Todos os meus pedidos para que eu tivesse acesso às contas e ao fluxo de caixa das duas instituições eram sistematicamente negados ou as explicações, escamoteadas. Evasivas da parte dos administradores me atormentavam e quando chegou-se ao ponto de termos que cancelar a programação já publicada, fui ao Prefeito da cidade para expor as minhas sérias desconfianças de que algo estava errado na administração do Theatro.

Nesse contexto de dificuldades, o projeto “Alma Brasileira” foi sendo asfixiado. O Ministério da Cultura passou a colocar entraves burocráticos e formais de tal monta, que o convênio se transformou num projeto praticamente inviável.

O trabalho de produção de “Alma Brasileira” foi interrompido, as parcelas seguintes previstas no contrato não foram honradas, as insistentes reclamacões e perguntas de Carlier, Bossa Nova e Proczinsky acerca dos atrasos foram sistematicamente ignoradas por William Nacked. Tendo um nome a zelar, passei a pressionar o Instituto e a Fundação com indagações sobre o projeto, mas só recebi evasivas como resposta, seja da parte de Herência e Nacked, seja do Ministério da Cultura. Houve inúmeros telefonemas e e-mails da minha parte sem que eu recebesse respostas assertivas e concretas.

A ausência de respostas às perguntas de Proczinsky e o descumprimento do contrato assinado, fizeram que num determinado momento, Carlier entrasse com uma ação judicial contra Proczinsky, por inadimplência.

Todas as desculpas, explicações, escusas, garantias, afirmações que vinham de Brasília, do IBGC e da Fundação Theatro Municipal ajudavam a criar uma cortina de fumaça sobre o que estava realmente acontecendo no Theatro Municipal.

O Prefeito, a partir das minhas suspeitas, determinou que se apurassem os fatos e Herência, então, resolveu jogar nas minhas costas a culpa pelo imenso rombo que ele causou à instituição, inventando que eu extrapolava os limites de gastos com a minha idiossincrasia.

Eu e minha equipe provamos com documentos ao Prefeito e ao Secretario Municipal de Finanças exatamente o contrário: que nos três anos da minha gestão como Diretor Artístico, jamais gastamos um centavo a mais do que as verbas que eram destinadas à produção artística permitiam.

Depois, o Ministério Público instaurou a sua própria investigação e a confissão de José Luiz Herência bem como a busca e apreensão no IBGC e na casa de William Nacked confirmaram minhas suspeitas. Só o apartamento que Herência comprou no nome da namorada custou mais do que custaria todo o projeto “Alma Brasileira”.

Quando Paulo Dallari assumiu a Direção Geral da Fundação Theatro Municipal e, depois, foi nomeado interventor no IBGC – diferentemente do que afirmam Juca Ferreira e Herência – o convênio com o Ministério da Cultura foi definitivamente cancelado. Dallari julgou que o convênio, da forma como propõe o Ministério, é inviável, inclusive no que diz respeito à prestação de contas.

As explicações do Ministério da Cultura, portanto, de que cancelou o projeto porque as contas não eram prestadas são desculpas para sua incapacidade de encontrar um meio para por em prática uma política cultural séria e eficiente. Isto dito de maneira generosa. Outras razões para a “débacle” de “Alma Brasileira” não ouso propor. Até porque o Ministério da Cultura nunca chegou a depositar um centavo no projeto.

Da parte de Herência, a tentativa de jogar a culpa do déficit financeiro do Theatro nas costas do projeto “Alma Brasileira” é uma tática diversionista e perversa, uma tentativa de escamotear a verdade: ele é um saqueador confesso dos cofres da Fundação e da Prefeitura.

Sinto-me profundamente entristecido com esta situação e com a necessidade de expor as entranhas da administração do Theatro à visitação pública. Mas não tenho outra opção.

Vivemos numa realidade sórdida em que inocentes e culpados são arrastados indiscriminadamente para a lama pela delação premiada, sem que haja por parte da imprensa e das autoridades públicas um cuidado de separar o joio do trigo.

Não desejo, porém perder o resto de confiança que tenho nas instituições do Brasil, e quero acreditar que as calúnias não triunfarão. O sofrimento que elas hoje me impõem será certamente recompensado pelo triunfo da verdade.

[Clique aqui para ler o primeiro texto “Auto da fé”]

[Clique aqui para ler a notícia sobre o lançamento do projeto “Alma Brasileira”]

[Nota do editor: Com o intuito de tratar a questão com imparcialidade e em toda sua complexidade, a Revista CONCERTO ofereceu este espaço editorial também ao Ministério da Cultura, à Fundação Theatro Municipal de São Paulo e à Secretaria Municipal de Comunicação.]





John Neschling - é maestro, diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo

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